John Macdougall / AFP
John Macdougall / AFP

"Não existe o direito de importunar", defende a colunista Ruth Manus; veja mais repercussão

Protestos durante a cerimônia do Globo de Ouro esquentou o debate a respeito do feminismo

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

13 Janeiro 2018 | 06h00

A semana começou agitada, com um enfático discurso da apresentadora Oprah Winfrey que, no domingo, 7, durante a cerimônia do Globo de Ouro, reforçou a luta contra a discriminação racial e convocou as mulheres a não se calarem diante de assédios sexuais. 

O debate esquentou nos dias seguintes, quando um grupo de cem mulheres francesas, como a atriz Catherine Deneuve, assinou uma carta aberta publicada no jornal Le Monde na qual reivindicou a liberdade sexual e criticou o “denuncismo” das campanhas #MeToo e #BalanceTonPorc, que lançaram a reação de mulheres nos Estados Unidos e na França contra a desigualdade, o assédio e a violência sexual. A resposta veio no dia seguinte, quando um grupo de 30 mulheres, liderado pela militante feminista Caroline De Hass, denunciou a suposta “apologia do estupro”.

“Penso que as conquistas alcançadas com o #MeToo são imensas. Não há mulher que tenha deixado de passar por uma experiência de abuso explícito, ou próximo a isso, mas preferiu calar por se sentir isolada. A experiência e o reconhecimento do grupo fazem toda a diferença e é isso que o movimento vai conquistando”, observa a antropóloga e historiadora Lilia Moritz Schwarcz

Segundo ela, tudo que é exagerado pode beirar o fanatismo. “Mas não me parece que esse seja o caso. O documento apoiado por Catherine Deneuve vem para e com o objetivo de gerar barulho. Para tanto, confunde (de maneira intencional) a ideia de paquera, sedução e prazer – pautados no respeito e na igualdade – com o que de fato se está acusando: a violência, e o uso desigual do poder masculino como forma de admoestação e de opressão sexual.”

Colunista do Caderno 2, Ruth Manus acredita que não existe “direito de importunar”, assim como não existe “direito de roubar beijos”, nem “direito a mão no joelho”. “Qualquer ato desses passa longe da noção de respeito. Qualquer um de nós sabe que coação não tem a ver com romance, bem como sabemos que o direito à liberdade sexual é o direito de dizer sim ou não sem qualquer tipo de medo”, acredita.

Já a atriz e cantora Elisa Lucinda aponta para uma nova cultura e uma nova narrativa sobre o que significa assédio. “Há uma grande diferença entre um ‘você é bonita!’ e algo que seja desrespeitoso. A carta francesa parece que não entendeu essa nova narrativa. É preciso ter cuidado com essa onda conservadora que quer pegar carona e diminuir a luta e a dor de tantas mulheres. O cortejo e o flerte não vão acabar, desde que tudo seja consensual, com a aceitação da outra parte.”

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.