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'Não é biografia, é interpretação do personagem', diz Marco Ricca sobre 'Chatô'

Polêmico filme de Guilherme Fontes finalmente chega aos cinemas

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

19 de novembro de 2015 | 06h00

Poderia ter sido uma tragédia. Guilherme Fontes filmava a famosa cena do encontro de Chatô e Getúlio Vargas no começo da Revolução de 1930. Chovia torrencialmente em Guapimirim e a cena envolvia um trem. Fontes havia conseguido uma velha locomotiva – que descarrilou. Marco Ricca só se lembra da imagem de Paulo Betti, que fazia Getúlio, dançando à sua frente. Todo mundo ria muito, mas aí a água começou a invadir o vagão. “Cuidado com a câmera! Salvem a câmera!”, ele se lembra dos gritos.

“Éramos bem jovens, e a gente se divertia muito. Esse cara (e Ricca está falando do produtor e diretor Guilherme Fontes) era um cara bonito, estava no auge, o Rei do Rio.” Os problemas vieram depois. Com apenas 28 anos, e nenhuma experiência prévia de produção nem direção, Fontes, num golpe de audácia, havia comprado os direitos de adaptação do livro de Fernando Morais sobre o lendário Assis Chateaubriand. O filme seria caro, e começou a sair do controle quando Fontes iniciou uma parceria com Francis Ford Coppola, trazendo o grande diretor para o Brasil. Foram realizados testes para todos os personagens e houve um momento em que Coppola participou da leitura aberta do primeiro tratamento do roteiro.

“Com tanto disse-que-disse nos jornais, milhares de centímetros de espaço em mídia suspeitando da produção” – informa o dossiê distribuído à imprensa –, “o projeto foi cassado em fevereiro de 2000 pelo governo federal e impedido de ser concluído por 15 anos. As contas da produção foram ‘levianamente’ – é ainda o dossiê que diz – levadas a juízo no Tribunal de Contas da União pelo Ministério da Cultura. Resultado do TCU – o projeto teve as contas aprovadas pelos ministros por oito votos a favor e um de suspeição.” Fontes endividou-se, concluiu o filme e, nesta quinta-feira, 19, Chatô estreia em 40 salas do Rio e São Paulo. Ele mesmo está lançando seu filme e, nas próximas semanas, até 10 de dezembro, espera ampliar o circuito até 150 salas em todo o Brasil.

“Teve gente que enfiou o dedo na minha cara, dizendo que havíamos destruído o cinema brasileiro”, lembra Marco Ricca, o Chatô. E Fontes: “Até agora tem gente que não se conforma que o filme seja bom como você diz”, o diretor fala do repórter que tomou a defesa de seu filme com outros críticos de prestígio. “O ideal pra todo mundo é que o filme fosse uma m... Iam poder destruir à vontade.”

Muito dinheiro público investido no projeto. Fontes provoca: “Contraí dívidas, mas não estou sozinho. Grandes empresas, inclusive de comunicação no Brasil, estão devendo os tubos. O que move o País é o dinheiro público, estamos vendo isso claramente nesse momento. Podem me acusar, mas para mim o importante é que o dinheiro está no filme, e o filme é bom.”

E por que ele escolheu Marco Ricca para ser Chateaubriand? “É simples, porque na época ele era jovem, desconhecido, e eu queria mostrar o meu personagem e não uma cara conhecida que seria identificada, ao invés do meu Chatô”, explica Fontes. E ele acrescenta que, em todas as etapas, do roteiro à realização e à montagem, nunca se preocupou com a fidelidade histórica. “Comprei os direitos, utilizo as informações do livro do Fernando (Morais), mas o Chatô dele é o real. O meu é fictício.”

Ricca exulta: “Desde o começo, esse cara (aponta para Fontes) sabia o filme que queria fazer. Fiz muitos filmes com diretores que iam descobrindo seus filmes, e o processo foi gostoso. Mas o Guilherme tinha o filme dele na cabeça. Na minha origem, sou historiador. Foi maravilhoso entrar na onda dele. O filme, ao contrário de outras biografias, assume que se trata de uma interpretação. Não é o Chatô, não é o Getúlio, mas a forma como o Guilherme os vê.”

Na entrevista que deu ao Estado, Guilherme Fontes esclarece que comprou os direitos e utiliza as informações do livro de Fernando Morais, mas faz a ressalva: "O Chatô dele é o real. O meu é fictício". Marco Ricca, que faz o papel, esclarece que foi maravilhoso entrar na onda do diretor. "O filme dele, ao contrário de outras biografias, assume que se trata de uma interpretação. Não é o Chatô, não é o Getúlio, mas a forma como o Guilherme os vê." Daí a falta de verossimilhança física.

Paulo Betti não tem nada a ver com a iconografia consagrada de Getúlio. "E lá eu ia querer um bom velhinho?", pergunta o diretor. Ele admite que construiu seu protagonista no corpo de Marco Ricca. "Dirigi nos gestos, na voz, no figurino. Moldei nele o meu Chatô." E que Chatô é esse? Um czar da imprensa, um grande manipulador. "Essa coisa de imprensa isenta não existe", reflete Guilherme Fontes. "Existem evidências que terminam por se impor, mas o Chatô era um controlador que não queria contar a história do Brasil. Queria fazê-la." No livro, o personagem é um pouco o Cidadão Kane de Orson Welles. Cidadão Chateaubriand. O livro é narrado em flash-backs, tem o seu Rosebud - o enigma que movimenta o quebra cabeças que Welles armou com o roteirista Herman Mankiewicz.

Francis Ford Coppola, que seria parceiro em Chatô e chegou a participar da leitura pública do primeiro tratamento do roteiro, viu uma versão antiga e deu um conselho a Fontes. "Cuidado com as passagens de tempo. Ocupe-se bem delas." O diretor preocupou-se tanto que surgiu esse tempo particular de seu filme - atemporal. O eixo dramático constrói-se em torno de um suposto ‘julgamento do século’, quando Chatô participa de um programa de TV que dá voz a figuras que foram decisivas em sua vida. Ex-mulheres, ex-colaboradores e a mítica ‘Vivi’ (leia na capa). Para interpretar Chatô, ou seja, para captar a totalidade do homem e do mito, Fontes percebeu que precisava de muita cor, da cenografia, do Abaeté, do Brasil. Submeteu Cidadão Kane a uma (re) leitura antropofágica e fez, como lhe disse Cacá Diegues, "o último grande filme tropicalista".

Da mesma forma, com medo de processos - o filme é anterior à lei das biografias -, Fontes e seus roteiristas, entre eles João Emanuel Carneiro (autor da atual novela das 9, A Regra do Jogo), condensaram personagens. "Andréa Beltrão é o maior amor dele, a amante dos poderosos." Vivi - é seu nome - divide-se entre Chatô e Getúlio. Arma para Chatô e favorece Getúlio na Revolução de 30, que desemboca na ditadura do Estado Novo. Marco Ricca intervém. "Andrea é maravilhosa. Já trabalhei com ela, inclusive num projeto de Maurício Farias (marido da atriz) que foi arquivado. Nunca vi isso no cinema. Ela mata o Chatô com seu sexo, na cama!"

E Fontes prossegue: "Leandra Leal faz a mulher argentina dele, que transformei em cantora para retratar o Brasil de Chatô, os Diários e Emissoras Associados. Gabriel Braga Nunes faz Rosemberg, o funcionário desprezado que vira concorrente e inimigo de Chatô. Tem horas que é Samuel (Wainer) e outras de (Carlos) Lacerda."

O filme era muito mais excessivo, informa o diretor. "Quando ele chega à emissora, antes de começar o julgamento do século, Chatô ia abrindo portas e a gente via a Miss Brasil, a Rainha do Rádio, todo aquele Brasil que ele ajudou a formatar e modernizar. Mas não cheguei a filmar isso. Na verdade, desperdicei muito pouco. Podia ter feito um filme de 2h20, mas preferi ficar em 1h45, para não aborrecer o espectador. Detesto filme que se estende inutilmente. Filmei o essencial e esse essencial está no filme que quis fazer."

Ricca comemora. "O filme existe, não é lenda, como muita gente achou que ia virar. Espero que esse cara (Guilherme Fontes) possa fazer outros filmes, não porque é bonzinho, mas porque é talentoso." E ele prossegue: "Detesto isso aqui (a entrevista foi feita no cinema, depois que o público havia entrado para a pré-estreia de ‘Chatô’ na terça-feira e os fotógrafos que correm atrás de celebridades haviam ido embora). "Gosto é dos processos, da camaradagem, da criação. No começo da produção, fui à produtora do Guilherme e era uma festa. Coppola, coisa e tal. Voltei depois e já era na fase difícil. O clima era lúgubre, a casa vazia. Todo esse processo tem sido longo. Ando fazendo exercícios mentais para me lembrar de tudo. É muita gente querendo reavivar a história, e tem gente que já chega de má-fé, querendo incriminar o Guilherme. Somos artistas. Ninguém desviou dinheiro. E, sim, eu também acredito que fizemos um belo filme. Estou muito feliz."

NÚMEROS

24 semanas foi o tempo de preparação do longa, que consumiu ainda 21 semanas de filmagens e 28 semanas de finalização. As cenas foram rodadas em 5 cidades brasileiras e em dois países europeus.

70 milhões de reais é o valor atualizado da quantia que o Tribunal de Contas da União (TCU) cobrou, no ano passado, de Guilherme Fontes, referentes ao valor que ele captou, nos últimos anos, pelas leis de incentivo.

8 milhões de reais foi custo total do filme, segundo Fontes. O diretor/produtor afirma que, daquela quantia, investiu R$ 3,4 milhões de recursos próprios, dinheiro que acumulou ao participar de novelas de TV.

O DIRETOR EXPLICA MUDANÇAS E FUSÕES DOS PERSONAGENS

Vivi

Andréa Beltrão faz a mulher impossível. É a soma de duas paixões de Chatô, Yolanda Penteado e Aimee D’Heeren, que teria sido a bem-amada do diário de Vargas.

Lola

Leandra Leal faz a mulher argentina dele, cuja mãe era atriz. No filme vira cantora para retratar o Brasil de Chatô, os Diários e Emissoras Associados.

Rosemberg

Gabriel Braga Nunes faz o funcionário desprezado que se transforma em concorrente e inimigo. Soma características de Samuel Wainer e Carlos Lacerda.

 

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