Nanni Moretti disseca era Berlusconi em <i>O Crocodilo</i>

Com O Crocodilo (Il Caimano), NanniMoretti poderia ter se contentado em fazer uma sátira de SilvioBerlusconi. O que seria tão divertido quanto inócuo. Afinal, oex-primeiro ministro italiano se presta demais à caricatura.Parece uma versão contemporânea de Mussolini, alimenta os mesmossonhos de grandeza e, pelo menos aos italianos que se opõem aele, não parece sofrer entraves de um senso ético dos maisrígidos quando se trata de alcançar suas metas. O problema é que as caricaturas, muitas vezes, em vez decriticar consagram o caricaturado. E assim, Moretti, opositorencarniçado, e também muito inteligente, sabia que deveria irpor outro caminho. Isso significa reconhecer que Berlusconi nãoé um fenômeno isolado. Ele aparece, alcança e mantém o poderporque consegue, com sua persona política e seus métodos,seduzir grande parcela da população. Moretti monta uma estratégia em que uma cineasta novatae um diretor veterano de filmes B (Silvio Orlandi) levam adianteo projeto de um filme intitulado Il Caimano que, este sim,seria uma sátira direta a Berlusconi, inclusive contando com umator muito parecido fisicamente com o proprietário do Milan, daholding Mediaset e de mais de metade da Itália. O metacinema,que dizer, o filme dentro do filme, permite a Moretti discutiralgo que simples sátira talvez deixasse de fora: Berlusconi sófoi possível pela conivência de partidos políticos, doJudiciário, mas também de intelectuais e artistas que, fingindoopor-se a ele, na verdade faziam seu jogo.Mais filmes Em O Cheiro do Ralo, seu segundo filme, HeitorDhalia adapta o romance homônimo de Lourenço Mutarelli. Oambiente é inquietante e traz um Selton Mello muito bem afinadocomo o usurário sem escrúpulos com uma curiosa fauna que volteiaem torno dele. Dhalia dá um passo adiante em sua carreira dediretor. Seu filme anterior, Nina, livre adaptação de Crime eCastigo, parecia um tanto maneiroso. Desta vez ele consegueentrar num universo underground e enchê-lo de vida. Essa vidaque existe na periferia das cidades e dos bons costumes. Passano Cine Bombril 1 às 20 horas. Outro filme interessante é O Cobrador (Arteplex 3,21h50), dirigido pelo mexicano Paul Leduc e baseado em cincorelatos de Rubem Fonseca. Leduc, que tem em seu currículo "Frida Natureza Viva e Reed - México Insurgente, propõe uma tramamultinacional que chamou de "globalização da violência". RubemFonseca, digam o que disserem, foi o primeiro a perceber que aviolência seria mesmo o esperanto e a moeda comum dos novostempos. Para adaptar (livremente) esse conjunto de contos, Leducusa linguagem fragmentada, sem linha direta no tempo e queatravessas fronteiras e idiomas para mostrar exatamente que estáfalando do mundo, embora situe a história em países americanos,dos EUA ao Brasil e Argentina. Lázaro Ramos é o ator principal. O Crocodilo (112 min.) - Dir. Nanni Moretti. Espaço Unibanco.Rua Augusta, 1.475, (11) 288-6780. Hoje, às 21h50

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