Na tela, o poder transformador da literatura

Balzac e a Costureirinha Chinesa, de Daí Sijie, aborda com tom menos grave o tema da Revolução Cultural Chinesa. Não que o diretor tenha tentado adocicar a aspereza histórica do período, apenas usa um foco diferente. O filme é baseado em um romance do próprio Sijie, que descreve a vida de gente jovem, cheia de energia, imaginação e alegria, bagagem suficiente para enfrentar com certo humor uma situação para lá de desagradável. A história desdobra-se entre dois personagens, Lu (Chen Kun) e Ma (Liu Ye), ambos enviados ao campo porque suas famílias não pertencem à boa linhagem revolucionária do camarada Mao. Na aldeia, até mesmo um violino é considerado um instrumento, burguês e anti-revolucinário. Um dos rapazes gosta de tocar e o violino quase vai para a fogueira quando o chefe do partido no local (Wang Shuangbao), descobre que ele está tocando a música de Mozart. Mas Lu não hesita em rebatizar a sonata com o título de Mozart Pensa no Presidente Mao, para agradar o chefe. Da mesma forma, a costureirinha analfabeta (Ziou Xun) mostra capacidade para entender e deixar-se modificar pelos livros que os rapazes da cidade lêem para ela às escondidas. Sua educação passa por títulos como Almas Mortas, de Gogol, Crime e Castigo, de Dostoievski, Madame Bovary, de Flaubert, O Vermelho e o Negro, de Stendhal e Pai Goriot, de Balzac, escritor que a transforma, segundo ela mesma diz. O livro de Dai Sijie, lançado em 2000, não contém nenhum tipo de complexidade. O filme vai em sentido semelhante: é extraordinariamente simpático e singelo. Não há nada de notável na maneira como é filmado, a não ser a transparência da narrativa, efeito às vezes mais complicado do que se pensa para conseguir. Dai Sijie é um verdadeiro intelectual, tem a virtude da simplicidade. E, no fundo, seu filme, tão delicadamente político, é apenas isso - uma crença nos poderes civilizatórios da cultura. Ele sabe que o conhecimento de Balzac, Dostoievski ou Gogol não é suficiente para provocar uma revolução política. Mas basta bem para dar sentido e tornar mais rica uma experiência de vida.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.