Na tela, a maneira mexicana de viver

Há algo de Amores Brutos, deAlejandro González-Iñarritu, e de E Sua Mãe também, deAlfonso Cuarón, em Viver Mata, o filme mexicano de NicolásEcheverría que estreou hoje. Pelo menos é que você vai ouvirdizer. Afinal, a história de amor de Sílvia e Diego possuielementos que a aproximam desses dois filmes. Sílvia e Diegomentem sobre a própria identidade e criam fantasias que sedissolvem em contato com a realidade e estimulam a desconfiança(e até a decepção) de um em relação ao outro. Ela éapresentadora de rádio, ele é um artista que um dia foi umapromessa e agora é uma decepção. Fingem ser Laura e Hugo e isso os libera para agir seminibições, o que é até o momento porque se sentem seriamenteinteressados um pelo outro. O mais interessante é que Diego, ouHugo, precisa atravessar a cidade com dois amigos para chegar aotrabalho. Não é uma cidade qualquer, mas a Cidade do México, comseu caos urbano. Se a história de amor lembra um pouco as deAmores Brutos (e poderia estar naquele filme), a travessiada cidade está mais ligada ao conceito de E Sua Mãe também.Podia-se descobrir o México nas entrelinhas do filme de Cuarón.Pode-se fazer a mesma coisa aqui, enquanto Hugo, isto é, Diego,descobre que Laura é, na verdade, Sílvia, a apresentadora doprograma que ele ouve, no carro. Na verdade, para apreciar melhor o tipo de filme queEcheverría fez, talvez seja necessário conhecer um pouco ahistória do cinema mexicano. Sua referência, se é mesmo umareferência, é outra. Por volta de 1970, o ex-assistente de LuisBuñuel, Luis Alcoriza, fez um filme chamado, sugestivamente,Mecânica Nacional. Alcoriza parecia seguir as pegadas deJean-Luc Godard, que, num de seus filmes mais famosos na segundametade dos anos 1960, fez de Weekend à Francesa, com seuengarrafamento-monstro, uma metáfora da derrocada (ou do queparecia ser) a derrocada da sociedade capitalista e consumista.Os anos 1960 mudaram tudo e 1968, em especial - o ano em queGodard fez Weekend -, foi marcado pelo célebre maio quepermanece até hoje como um Avatar dos que sonharam o mundo,acreditando numa revolução que não se concretizou. Não se concretizou, em termos, pois muita gente -artistas e pensadores - permanece até hoje marcada por aquelesacontecimentos extraordinários. Robert Guédiguian, Ken Loach,Mike Leigh - todos carregam os germens de Maio de 68 e aindaacreditam que é possível lutar contra o dragão da globalização.Alcoriza fez, no México, o seu Weekend. Um grandeengarrafamento produz acidentes que dão muito trabalho aosfuncionários de uma oficina mecânica chamada Nacional. Só que aMecânica Nacional do título é mais do que isso. É a metáforade uma maneira mexicana de ser e viver, como se Alcorizaestivesse psicanalisando os mexicanos. É nessa vertente que se inscreve Viver Mata. A idéiado filme, o seu conceito, pode ser melhor do que a realização,mas aquele caos urbano, aquela desorganização amorosa, aquelejogo de máscaras de quem-finge-ser-o-que-não-é para poder ser,no fundo, continuam revelando, 30 anos depois, a mecânicanacional. E a cena do helicóptero surgindo por trás da estátua élinda. Com todos os defeitos que possa ter, Viver Mata é umbom filme.Serviço - Viver Mata (Vivir Mata). Comédia romântica. Direção deNicolás Echevarría. Méx/2002. Duração: 95 minutos. 14 anos

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.