Na tela, a arte de ser pessoal, por Heitor Dhalia

'À Deriva' traz Vincent Cassel e Deborah Bloch em filme que conta história familiar e drama adolescente

Luiz Carlos Merten, de O Estado de S. Paulo,

30 de julho de 2009 | 18h45

Heitor Dhalia admite estar ansioso com a estreia - amanhã - de seu novo longa, À Deriva. O filme integrou a mostra Un Certain Regard em Cannes, em maio. É uma coprodução da O2 com a Focus International. Dhalia tem no currículo filmes como Nina e O Cheiro do Ralo. Deveria estar descolado com essas tensões pré-lançamento, mas ele diz que não dá. "Estou dando a cara mais uma vez para bater. Aceito bem as críticas, mas tem sempre a ansiedade." Ele revela estar surpreso com a receptividade. "O Cheiro foi um filme que repercutiu bastante, no Brasil e no exterior, mas À Deriva está sendo demais. Tive uma coletiva de lançamento com mais de 100 pessoas aqui em São Paulo. Na pré-estreia, ontem - a entrevista foi realizada na semana passada -, muita gente veio falar comigo dizendo que estava emocionada. Não parei de receber e-mails o dia todo. Percebo um carinho muito grande pelo À Deriva."

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trailer Trailer de "À Deriva"

 

 

Vincent Cassel e Deborah Bloch em "À Deriva", novo filme de Heitor Dhalia. Foto: Divulgação

 

Talvez a ansiedade daquele momento tivesse outro significado, mais íntimo. Heitor Dhalia é o primeiro a dizer que À Deriva é seu filme mais pessoal, senão exatamente autobiográfico. "Baseei-me em episódios da minha vida e da minha família. Fui garoto de praia, como a Filipa (a protagonista, Laura Neiva), mas justamente para evitar a autobiografia verti a minha história para o feminino e também inverti a situação entre meus pais. Minha mãe não era bêbada, como a mãe da história, mas aquele clima da separação dos dois foi uma coisa que vivi." Logo após a entrevista, Dhalia ia se encontrar com a mãe, para jantar. Foi o primeiro encontro dos dois, depois que ela viu o filme. A mãe se havia emocionado, no fim da sessão, no dia anterior. Abraçou longamente o filho. Ele admitia estar tenso, não por uma possível cobrança, mas porque a conversa, de qualquer maneira, poderia ser difícil.

 

Devassar segredos de família nunca é fácil, mas às vezes é necessário. Após O Cheiro do Ralo, Dhalia tinha - tem - dois projetos que continuam andando, mas não havia condições de realizar nenhum imediatamente. Ele resolveu fazer um filme de praia. "Carrego o mar dentro de mim", confessa. A namorada, Vera Egito, também diretora, ajudou-o a desenvolver o roteiro. "A Verinha foi fundamental nessa transformação da minha história na da garota." Dhalia já sabe, desde Cannes, das restrições do repórter. À Deriva é muito bem-feito e interpretado. Débora Bloch é maravilhosa, Vincent Cassel acrescenta ao papel a força de sua persona. Laura Neiva é bela e talentosa. Mas essa história tão pessoal é - paradoxalmente - o filme que parece menos autoral do diretor. Sua assinatura aparece no próprio estilo visual de Nina e O Cheiro do Ralo. O espectador que vê um e outro não tem dificuldade para identificar que o diretor é o mesmo.

 

Existem temas, um clima, que unem À Deriva aos outros dois, mas o visual agora não é mais dark. É solar. Curiosamente, é possível pensar que outro diretor poderia estar assinando a história de Heitor Dhalia. Ele diz - "O filme também nasceu da minha vontade de não ficar catalogado numa fórmula de sucesso, por mais que goste de Nina e do Cheiro. À Deriva tem esse componente de risco. Falar de uma família de classe média e suas tensões internas não é frequente no cinema brasileiro. Coloquei tudo o que sabia de direção no À Deriva. Acho que é meu filme mais maduro, mais do que O Cheiro. Fico contente quando você mesmo, que não gosta muito, diz que é bem realizado."

 

Dhalia tem o projeto de realizar um filme na Argentina, Uma Mulher e Uma Arma. Até por conta dessa sua futura incursão pela realidade do país vizinho, ele tem se interessado mais pelo assunto. Comenta essa coisa de estar falando de classe média. "O cinema argentino já trata mais desse assunto porque lá não existe a diferença social que tem aqui no Brasil. Mas nós também estamos amadurecendo. Já podemos contar outro tipo de drama, mostrar outro país. A pobreza e a desigualdade ainda são muito grandes, mas estamos crescendo e o cinema também." Os críticos dizem que os filmes de Heitor Dhalia poderiam se passar em qualquer outro lugar. "Ah, não sei, para mim eles refletem o Brasil. À Deriva, mais ainda. Temos milhares de quilômetros de costa, de praia. Vivi essa história na minha infância e adolescência. E ainda tem a sensualidade, que é uma coisa muito nossa, muito brasileira."

 

Em todos os seus filmes, Dhalia mostra personagens num mundo no qual não se encaixam, ou no qual se sentem desconfortáveis. Isso é muito dele e talvez não seja invadir muito a privacidade do autor dizer que ele - jovem, bonito e talentoso - foi surpreendido há cerca de dez anos por uma infidelidade conjugal que o abalou. Suas inseguranças afloraram e isso, de certa forma, está no Cheiro. A relação com Vera Egito já dura alguns anos - três - e o olhar dela agora se reflete em À Deriva. "Queria esse olhar feminino, para tornar a história toda mais sensível. Eu me vejo no filme, mas não é a minha história nem a da menina. É uma outra coisa, uma transformação, uma mudança que eu acho que está ocorrendo na sociedade brasileira." Uma mudança nele, também. Dhalia revela que, inicialmente, o projeto previa um ator de língua espanhola. Ele chegou a pensar em Javier Bardem, mas o astro espanhol, por problemas de agenda, já dissera não para Fernando Meirelles, que também o queria no elenco de Ensaio Sobre a Cegueira. Dhalia desistiu, até com medo de criar uma saia-justa. Afinal, a O2 é produtora de À Deriva...

 

Vincent Cassel surgiu por acaso. "Era carnaval, estava vendo TV com a Verinha, esses camarotes de celebridades. Me surpreendeu como o Cassel, que já conhecia de O Ódio, falava bem o português." A ansiedade do lançamento de À Deriva não afastou Heitor Dhalia do trabalho. O próximo filme será sobre relacionamentos, uma proposta da Natura, a ser filmada em Fernando de Noronha. Depois, ele vai fazer os dois projetos que o perseguem - Uma Mulher e Uma Arma e um filme grande, sobre Serra Pelada.

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