Na segunda parte de 'Ninfomaníaca', cineasta cai numa psicanálise barata

Primeiro filme é mais intenso e se beneficia mais do estranhamento das cenas de sexo

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

12 de março de 2014 | 19h30

Foram 250 mil espectadores. O número nem parece tão grande, mas Ninfomaníaca – Volume I é o maior sucesso de público de Lars Von Trier nos cinemas brasileiros. O cineasta que criou o movimento dos monges cineastas da Dinamarca virou um ícone do cinema de autor, referendado pelo Festival de Cannes – até com direito à Palma de Ouro, por Dançando no Escuro –, antes de virar persona non grata na Croisette, por declarações consideradas antissemitas, durante a coletiva de Melancolia. Se há um diretor que sabe se promover, no cinema contemporâneo, é Lars. Isso não diminui seus méritos, mas deveria servir como reflexão para os puristas que veem no mercado o inimigo do cinema autoral.

Ninfomaníaca – Volume II estreia em mais salas, sinal de que a distribuidora Califórnia aposta na repetição e até superação da marca do primeiro filme.

Mesmo que os dois filmes formem um díptico, na verdade são a continuidade de um só projeto. Lars acompanha a trajetória de Joe. Na abertura do Volume I, ela é encontrada por Stellan Skarsgard no solo de um beco, e toda rebentada. Na casa do homem que a acolheu, Joe conta sua história. Define-se como ninfomaníaca. Duas atrizes se revezam no papel – Stacy Martin, que faz Joe quando jovem, e Charlotte Gainsbourg, na idade adulta.

Para o espectador interessado em saber se o II é tão bom quanto o I, vamos logo esclarecendo – não. O primeiro é mais intenso e se beneficia do estranhamento de todas aquelas cenas de sexo. Recapitulando: o I termina com a música de Bach, na cena em que Joe libera sua angústia num grito de desespero. Por mais sexo que faça, ela não relaxa e não tem orgasmo. No II, disposta a recuperar o domínio do corpo, ela se submete a experiências radicais. Violência e dor. Duas cenas são muito boas.

Joe contrata o serviço de um tradutor e chama dois africanos para fazer sexo com ela. A Skarsgard, ela diz – provocação do diretor? – que todas as mulheres sonham em fazer sexo com afrodescendentes porque há uma mitologia sobre o tamanho da genitália desses homens. Lars mostra que não é boato, mas o impacto da cena vem do fato de que os dois falam num dialeto que Joe não entende. Discutem o que vão fazer, como fazer, e a rodopiam como mercadoria, tocando as partes íntimas. A outra cena é de outra natureza e exige certa explicação.

Joe, ainda como Stacy Martin, volta a viver com Shia Labeouf, mas ele não consegue satisfazê-la e aceita que ela corra atrás de amantes ocasionais, mas é claro que isso mina a relação. Joe tem um filho, mas não o instinto materno. Descuida da criança e, numa cena, Lars repete o plano de Anticristo – a morte do filho. Pelo menos é o que o espectador familiarizado com seu cinema vai pensar, mas o desdobramento é outro. Agora como Charlotte, e após a cena com os africanos, Joe vira outra pessoa. Durona, cai na marginalidade. Exerce pressão sobre devedores para cobrar vítimas. Um desses infelizes protagoniza com ela a cena mais bela e forte de Ninfomaníaca II. Ela leva o cara ao limite até arrancar dele a confissão de pedofilia. Condena-o a uma solidão tão terrível e até mais que a dela própria.

Em Berlim, onde o próprio Lars foi mostrar a versão estendida de Volume I – mas não deu entrevista –, o assunto virou o sexo. Todo mundo queria saber do elenco como foi fazer tudo aquilo. Interrogado, Shia disse algo como: "Quando as gaivotas seguem a traineira é porque esperam que sardinhas sejam lançadas ao mar". Disse e, intempestivamente, deixou a sala. Como ninguém tinha visto Volume II, os jornalistas deixaram de usar essa frase de Joe/Charlotte para Skarsgard. O filme continua com o diálogo dos dois, ela se abrindo, ele tateando e intelectualizando as experiências que ela lhe conta. Skarsgard passa o tempo criando metáforas. Numa cena, Joe ironiza – diz que achou a metáfora fraca. A de Shia foi fraca, mas teve seu efeito no contexto do festival.

Joe faz uma descoberta sobre Skarsgard, que é melhor não dizer qual é, mas muda a essência e a natureza dos dois. Há quem veja nele uma metáfora do próprio Lars à crítica. Vejam o filme, descubram o segredo e avaliem por esse prisma. O problema é que, ao contrário do primeiro filme, o desfecho, aqui, é insatisfatório. Lars cai numa psicanálise barata, identificando arma com potência. Joe vai num grupo de ajuda, mas recua porque gosta de ser como é, e a sociedade que se dane. É o aspecto mais curioso – polêmico – do filme. Se Joe, nome ambíguo, fosse homem, e não mulher, haveria estranhamento nessa elefantíase do sexo? Uma coisa é certa – como Uma Thurman rouba a cena em Volume I, Jean-Marc Barr, como o pedófilo, reina em Volume II.

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