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Na reta final de Gramado, Lina Chamie e Domingos Oliveira mostram longas

'O Primeiro Dia de Um Ano Qualquer' é a melhor coisa que o diretor fez nos últimos anos

Luiz Carlos Merten - Gramado, O Estado de S. Paulo

15 de agosto de 2013 | 19h19

E o 41.º Festival de Gramado vai chegando à reta final. Na sexta (16) passam os últimos filmes concorrentes – o brasileiro A Coleção Invisível, de Bernard Attal, e o latino Cazando Luciérnagas, do colombiano Roberto Flores Prieto. A entrega dos Kikitos será no sábado à noite. Já se fazem apostas. Quem leva os troféus para os melhores de 2013?

Na quarta à noite foram exibidos dois longas nacionais – Os Amigos, de Lina Chamie, e a animação Até Que a Sbórnia nos Separe, de Otto Guerra, que virou o xodó de uma ala (jovem) da crítica. Os Amigos não deixa de dar um testemunho geracional, como O Primeiro Dia de Um Ano Qualquer, de Domingos Oliveira, que passou na quinta (17). O filme de Domingos é a melhor coisa que o diretor fez nos últimos anos. Um filme entre amigos, como o de Lina, filmado com a cumplicidade do elenco, na casa serrana de Maitê Proença, que faz um dos papéis.

Os Amigos parte de uma aparente – e enganosa – simplicidade. É um filme que tem, como se diz, camadas. O protagonista é Theo, interpretado por Marco Ricca, e Lina Chamie escreveu o filme para ele. Theo é arquiteto e, neste dia específico, vai ao enterro do amigo de infância. Isso o leva a viajar no tempo – e nas lembranças. Numa cena, ele fala com a amiga Dira Paes, que está no zoológico com as crianças. A narrativa se abre em arco – existe uma representação infantil (da odisseia de Ulisses), o personagem fica preso no caos urbano, o tráfego de São Paulo (como o próprio Marco Ricca já ficou preso no longa anterior de Lina, A Via Láctea), etc.

Sem nenhum cinismo, pode-se dizer que o tráfego pesado reitera A Via Láctea e que não há nada muito novo nem muito atraente na representação das angústias de Theo e seus amigos. Os humanos não compõem a parte mais interessante de Os Amigos, exceto pelos breves momentos em que Teka Romualdo que faz a doméstica, Julieta, está em cena. O que realmente parece novo em Os Amigos é o olhar de Lina sobre os animais – as girafas, e a produtora dela chama-se Girafa, os macacos – e sua relação com os humanos, na cena em que Theo, sentado no restaurante, observa as mulheres. São cenas deslumbrantes em que Lina, a diretora que melhor utiliza a música clássica no cinema brasileiro, vale-se da suíte O Carnaval dos Animais, de Saint Saenz, que também serve de fundo para a vinheta do Festival de Cannes.

Os Amigos decepcionou, os curtas fizeram desabrochar outra joia. Na véspera, Marcos Pimentel, com Sanã, havia apresentado o melhor filme do festival, independentemente de formato – mas A Bruta Flor do Querer, de Andradina Azevedo e Dida Andrade, face à aridez da paisagem da competição, só tem feito crescer na imaginação. A pérola de anteontem foi Os Filmes Estão Vivos, do realizador gaúcho Fabiano de Souza, com seu pai, o crítico Enéas de Souza.

Enéas é um dos grandes críticos do País – já era nos anos 1960, mas depois deu uma parada. Voltou. Pai e filho foram para Paris, a capital da cinefilia. O pai vê filmes– e imagens são pirateadas rapidamente no escurinho das salas de arte/ensaio. Na sequência, Fabiano e Enéas discutem o que viram entre uma taça e outra, e quem filma é o codiretor Milton do Prado. Feito em digital, com uma câmera minúscula, o filme é uma festa de cinema. Os cinéfilos vão gostar mais, claro, mas esse raro encontro de pai e filho é de uma beleza singular. Enéas e Fabiano falam de cinema para entender a vida.

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