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Na Mostra, ‘Setenta’ ouve militantes que foram trocados pelo embaixador suíço

Ótimo documentário de Emilia Silveira mostra que há muito a ser contado ainda sobre o regime militar

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

23 de outubro de 2013 | 16h24

Vem sendo lançado um volume considerável de filmes sobre a época da ditadura militar brasileira, em especial sobre a participação da luta armada contra o regime. Muita coisa ainda há por ser contada, como atesta este ótimo documentário intitulado Setenta, de Emília Silveira.

Jornalista, ela mesma combatente na época contra o regime militar e ex-presa política, Emília narra, neste que é seu primeiro filme, o destino dos 70 presos trocados pelo embaixador suíço Giovanni Bucher em 1971. Essa prática foi adotada pelos grupos armados como forma de libertar companheiros presos, que estavam sofrendo torturas e tinham a vida em risco. A mais famosa dessas ações foi o sequestro do embaixador norte-americano Charles Elbrick, que até virou filme de ficção dirigido por Bruno Barreto – O que É isso, Companheiro?, baseado no livro de Fernando Gabeira, participante da ação.

O sequestro do embaixador suíço é posterior, e foi igualmente bem sucedido. Em troca de sua vida, o regime libertou 70 prisioneiros políticos, que foram embarcados num avião da Varig rumo ao Chile, na época sob o governo socialista de Salvador Allende.

“Dos participantes, escolhi 25 para fazer as entrevistas e acabei conservando 18 depoimentos no corte final”, diz a diretora. As razões foram de empatia pessoal e também de narrativa cinematográfica, justifica. Para chegar à duração final, 90 minutos, teve de cortar muito. E esses cortes redundaram numa narrativa muito fluente, pungente e dolorosa às vezes, mas também pintada por um inesperado humor com que os entrevistados, hoje homens e mulheres maduros (na faixa que vai dos 60 e poucos anos entre os jovens a mais de 80 para os mais velhos), reavaliam suas ações da juventude.

“Confesso que fiquei um tanto insegura com esse tom do filme”, diz a diretora. “Sabia que iria ser atacada pela direita por causa dos personagens, mas também tinha medo de ser criticada pela esquerda pelo tom empregado em alguns comentários”. No fim, aliviada, diz que encontrou compreensão entre as pessoas que estiveram envolvidas na resistência à ditadura.

Vistas à distância, as peripécias dos militantes parecem saídas de um romance. Por exemplo, na incrível história do casal mineiro que já tinha seis filhos pequenos quando resolve cair na clandestinidade e enfrentar o regime com armas na mão. Ou ações suicidas, com dois militantes precariamente armados enfrentando mais de 20 soldados. Outro deles, o falsificador de documentos do grupo, depois de elogiado por um colega, confessa que seus passaportes não passariam pela inspeção de um trocador de ônibus.

O tom pitoresco cede espaço à dor quando recordam a prisão e a tortura. Mais ainda quando se lembram das mortes de companheiros. O exílio também deixa marcas. O grupo se instalou no Chile sob as condições favoráveis do governo Allende. Lembram que, banidos do Brasil, foram recebidos como heróis em Santiago. Engajaram-se no projeto socialista do governo chileno, mas este viria a cair em 1973, início da ditadura Pinochet. Era preciso escapar de lá também. Um deles lembra o exílio na Alemanha e de como sua mulher, uma estudante de medicina cheia de vida, cede à depressão e se joga debaixo de um trem. Houve outros suicídios no exílio. O mais tristemente notório foi o do frade dominicano Tito Alencar que, torturado pelo delegado Fleury, sucumbiu às sequelas psicológicas e se enforcou quando exilado na França. São casos parecidos a alguns que já se conhecem do período e somam-se a eles neste momento em que o País se dispõe a passar a sua História a limpo.

O filme avança em outros aspectos. Em especial, na relativa leveza com que episódios de outra forma dramáticos são relembrados à distância no tempo. Se não é possível brincar com a morte de um companheiro ou com a lembrança da tortura, é possível, por outro lado, ironizar o amadorismo que marcava muitas das ações armadas. Vários desses ex-guerrilheiros se dispõem também a fazer uma inusitada autocrítica de suas ideias sobre o período. Um deles aponta os dois equívocos fundamentais da esquerda armada de então – o vanguardismo e o voluntarismo. Pelo primeiro, acreditavam-se na dianteira do processo político que seria inevitavelmente seguida pelo povo. O segundo criava a ilusão de que o desejo poderia materializar-se em realidade pela simples vontade dos participantes. Dois erros fatais.

“Achei que já era mais que tempo de uma reavaliação da luta armada, 40 anos depois de os fatos ocorrerem”, diz Emília. Desse modo, vários deles afirmam o absurdo de ignorar o tamanho da desproporção das forças em combate. “Talvez não houvesse alternativa de luta política naquele momento, mas a maneira como a fizemos foi muito ineficaz.” O mais conhecido entre os 70 exilados, o então militante da AP e presidente da União Nacional dos Estudantes, Jean Marc Von Der Weid, acredita que essa luta perdida gerou uma consequência: “O regime combateu de uma maneira tão sanguinária que se isolou internacionalmente”. De acordo com essa interpretação, a ditadura fragilizou-se, tanto no campo externo como no interno, e tornou-se mais sensível a pressões que conduziriam à abertura.

“Eu sentia falta, nos filmes sobre esses fatos, desse tipo de reavaliação. E também não quis fazer uma obra choramingas e nem de heroicização dos personagens”, diz Emília. E, de fato conseguiu, senão colocar um ponto de vista neutro – o que é impossível – , de fato ajustar o foco sobre esse período em transe da história brasileira.

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