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Na Mostra, ‘O Militante’ reafirma a boa qualidade do cinema uruguaio

Filme de Manolo Nieto mantém o "toque uruguaio" do intimismo

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

21 de outubro de 2013 | 19h15

O público que gosta de alternativas ao cinemão costuma esperar com curiosidade os lançamentos que vêm do Uruguai. País pequeno, o vizinho mantém um misterioso nível de qualidade em sua escassa produção. O Militante, de Manolo Nieto, não decepciona. É uma pequena joia, um trabalho sensível e surpreendente.

A começar pelo personagem, um rapaz que mora em Montevidéu e, com a notícia da morte do pai, viaja ao interior, para o funeral. E também para se inteirar dos negócios da família, que parecem bem confusos. Mas é preciso que se diga primeiro que o personagem Ariel Cruz (Felipe Dieste) nada tem de banal. É um jovem militante estudantil (o filme tem um subtítulo O Lugar do Filho), com certos problemas físicos. Anda com certa dificuldade e também não se expressa de maneira clara. Tudo nos induz a pensar em uma figura frágil.

Ariel é recebido em Salto, no campo uruguaio, por colegas universitários que, como seus congêneres de Montevidéu, também estão ocupando a faculdade. Convidam o recém-chegado a se juntar a eles. Porém, Ariel tem de resolver a questão da casa da família, na qual mora a namorada do pai. E também deverá ir à fazenda meio abandonada que o pai lhe legou. Um contador lhe diz que as finanças estão em ruínas e que ele herdou mais dívidas que propriedades.

O Militante mantém o “toque uruguaio” do intimismo. Nada de realmente gigantesco acontecerá, mas a história é testemunha de uma trajetória de crescimento pessoal. O rapaz descobre determinadas realidades sobre sua família e precisa enfrentá-las. Além disso, moço de cidade, tem dificuldade em acostumar-se à mentalidade do interior. Mais ainda quando se interna no campo e passa a conviver com vaqueiros, com “gaúchos” de verdade, loucos para colocar à prova o almofadinha da cidade.

A simplicidade da filmagem é notável. O que não significa ingenuidade, muito pelo contrário. Num diretor jovem, até surpreende a depuração de meios, de alguém que não busca impressionar o público com firulas cinematográficas inúteis. Mesmo porque, parece prevalecer um ideal de autenticidade sobre qualquer tipo de esteticismo. O “herói” nada tem de glamouroso. Os gaúchos parecem ser, de fato, empregados em fazendas, cujo cotidiano está mais ligado ao gado do que às sutilezas retóricas. Nesse exercício de depuração, que consiste em ir ao que interessa, Manolo Nieto nos mostra um Uruguai mais rural, que não estamos acostumados a ver, e centra sua atenção naquele que é o desafio do protagonista – encontrar o seu lugar de filho no contexto de um pai ausente. Tanto em seu aspecto social como no psicológico o filme é consistente.

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