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Na Mostra, as mil e uma vidas de Mário Lago

Ator famoso, compositor de sucesso, escritor e militante comunista tem trajetória lembrada em documentário

Luiz Zanin Oricchio , O Estado de S. Paulo

22 de outubro de 2013 | 18h48

Mário Lago, de Marco Abujamra e Markão Oliveira, mostra a amplitude da vida desse homem que hoje chamaríamos de multimídia. Mário Lago (1911-2002) foi compositor, ator, radialista, escritor e poeta, entre outras virtudes. Entre as quais se destaca a de homem político. Militante comunista, sabia perfeitamente que a política impregna e determina a vida dos homens, saibam eles ou não.

O filme é um percurso amoroso, que se vale da imensa massa de material gravado e imagens deixada por Mário nas inúmeras entrevistas que concedeu, mas também em sua participação em filmes e, em especial, em novelas e séries de TV como Hilda Furacão e Grande Sertão: Veredas. Seu trabalho no rádio é relembrado em algumas gravações do tempo em que fazia parte do elenco da Rádio Nacional.

Nascido em 1911, Mário percorreu a história do século passado. Daí ter conhecido Noel Rosa na vida boêmia da Lapa de então. Em depoimento engraçado, conta que não se dava muito bem com o compositor de Feitiço da Vila, mas não abre a razão. Pelo menos diretamente. Deixa nas entrelinhas, para quem conhece sua fama de homme à femmes. Quem se incumbe de esclarecer é Sérgio Cabral, pai, dizendo que o caso foi de saias mesmo. Os dois disputaram a mesma mulher e parece que Mário levou a melhor.

O próprio Mário, em suas entrevistas gravadas, fala dos seus grandes sucessos na música popular, marchinhas como Aurora, até hoje um hit dos bailes de carnaval, ou sambas como Saudades da Amélia (com Ataulfo Alves), Nada Além (com Custódio Mesquita) e muitas outras, tendo sido parceiro também de compositores como Roberto Riberti, Benedito Lacerda, Elton Medeiros e João Nogueira.

Indo de uma profissão a outra, de uma atividade à seguinte, Mário simboliza bem o espírito de um certo Brasil, hoje desaparecido, no qual os não especialistas de talento se viravam muito bem. Era o caso de Mário Lago, que, jogando nas onze, foi construindo todo um currículo vencedor, motivado pela busca do pão de cada dia. Por exemplo, no tempo de rádio, foi responsável por um programa de grande sucesso na época, Presídio de Mulheres, que manteve a liderança da emissora durante cinco anos seguidos. Eram histórias melodramáticas de mulheres encarceradas, saídas da pena e da imaginação de Mário.

Com o golpe militar de 1964, Mário é preso. Depois de solto, vê-se desempregado. E, como relembra, a mão estendida foi a de ninguém menos que Dercy Gonçalves, que o convida para entrar em seu show. Constrangido, Mário vacila: “Dercy, eu não sei se sou adequado para isso; como ator sempre fiz papéis de homens sérios...”. A grande comediante não lhe dá tempo para pensar: “Deixa disso, Mário, o fundamental mesmo é garantir o leite das crianças”.

Comunista, Mário foi preso sete vezes em sua vida. Nunca renegou sua crença, nem mesmo quando caiu o Muro de Berlim e a União Soviética acabou. Era homem de convicção e de ação. Tanto assim que se impacientava com o cinema, com suas intermináveis repetições de cenas nas filmagens. Mesmo assim, deixou sua imagem impressa em filmes notáveis como O Padre e a Moça, de Joaquim Pedro de Andrade, e Terra em Transe, de Glauber Rocha.

Se de alguém podemos dizer que teve uma grande vida, este foi Mário Lago – e não apenas por sua extensão temporal.

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