MARCO ANTONIO TEIXEIRA/MIGDAL FILMES
Fenômeno. O ator como Dona Hermínia: ‘Ela é a nossa heroína. Todo mundo tem mãe, todo mundo pode se identificar com o amor de mãe’ MARCO ANTONIO TEIXEIRA/MIGDAL FILMES

Na disputa com os blockbusters, ‘Minha Mãe É Uma Peça 3’ leva a melhor

Filme confirma Paulo Gustavo como o maior fenômeno de bilheterias do País

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

12 de janeiro de 2020 | 06h00

Na entrevista que deu ao Estado, pouco antes da estreia de Minha Mãe É Uma Peça 3, o ator Paulo Gustavo disse que não temia a concorrência de Star Wars: Episódio IX. Poderia parecer bravata do astro, mas a Força, realmente, esteve com ele. Hoje, enquanto você estiver lendo este texto, A Ascensão Skywalker já desacelerou, foi substituído por outros blockbusters de Hollywood, e Dona Hermínia segue poderosa. Até sexta-feira, 10, Minha Mãe É Uma Peça 3 – que estreou há três semanas, no dia 26 de dezembro – havia atingido a marca de 6 milhões de espectadores.

As projeções indicam que, neste domingo, 12, o filme deve chegar a 6,5 milhões de pessoas, talvez mais. “A gente só consegue projetar o limite quando o filme começa a cair num padrão persistente, e isso nem de longe está ocorrendo. Nosso público aumentou na segunda semana”, conta o produtor e distribuidor Bruno Wainer, da Downtown, associado à Paris Filmes. “Todas as manifestações de amigos e das redes sociais anunciam que o filme virou um fenômeno. Nosso objetivo era fazer comédia com emoção, e conseguimos. Minha Mãe 2 fez 9,5 milhões de espectadores e eu estou otimista de que vamos ultrapassar. Isso é raro. Em Hollywood, somente Toy Story 3 superou a renda do anterior”, diz a diretora Susana Garcia. O próprio Paulo Gustavo conta – “Fui ao Shopping Village Mall (na Barra, no Rio), que tem cinco salas. Quatro exibiam a gente, a quinta sala era de Star Wars. Esperei a saída e as pessoas vinham chorando do Minha Mãe”.

Na entrevista anterior, o senso crítico do repórter o levara a duvidar de que aquele final pudesse ser efetivo. Todas aquelas dedicatórias – ao marido, aos filhos, à mãe, à irmã. Paulo Gustavo nunca teve dúvidas. “Desde que iniciamos o projeto, o Paulo queria que a bandeira do filme fosse o amor. O casamento do Juliano, a maternidade da Marcelina, tudo ia colocar Dona Hermínia à prova. E ela ia reagir com aquele discurso no casamento do filho. Orgulhosa de ele estar sendo quem é. Aquele discurso deu um trabalhão danado. Encontrar as palavras exatas, justas. Nada de mais, nem de menos. E quando o Paulo disse que queria as dedicatórias, já estava no clima. Bora!”, lembra a diretora.

Em um país com muitos casos de homofobia e preconceito, como entender que o maior fenômeno de bilheteria seja um gay assumido, pai de gêmeos, que representa vestido de mulher e faz o público rir e chorar? “É a emoção”, acredita Susana. “É a verdade”, diz o próprio Paulo. “As pessoas sentem que eu sou verdadeiro. O filme tem casamento homoafetivo, que ainda pode ser um tema-tabu, mas, desde o início, eu disse que queria. Mas não para chocar, não para provocar. Não preciso empunhar bandeira nenhuma porque eu já sou a bandeira.” 

Dona Hermínia contra Hollywood? “Dona Hermínia é a própria Hollywood, a nossa Hollywood”, reflete Paulo. “Mesmo fragilizada, sozinha, com os filhos vivendo a vida deles, ela é a nossa heroína. Todo mundo tem mãe, todo mundo pode se identificar com o amor de mãe.” E a mãe do próprio Paulo? “Tem horas que eu acho que ainda não caiu a ficha dela. Minha mãe virou a mãe de todo o mundo. Nas redes sociais, aonde ela chega, a mãe do Paulo, a Dona Hermínia real, é sempre alvo do maior carinho. Acho que consegui, e sem agredir ninguém. Tudo o que faço é em nome da superação, da inclusão. Nesse País tão dividido, as pessoas têm necessidade de afeto, e é disso que o filme fala.”

Bruno Wainer lembra – “Em 2009, lançamos Divã, que era um filme da Lília Cabral. O Paulo tinha duas cenas. Fazia o cabeleireiro, e as duas foram para o trailer. Era muito engraçado, e teve 100% de aproveitamento. Um tempo depois, a (produtora) Iafa Britz me procurou: ‘Lembra aquele cara, ele está com uma peça que quero que você veja’. Fui. Estava cheio, era uma sala pequena, o que seria o nosso off-Broadway. A ideia do filme começou a surgir ali. A Iafa foi a mãe da criança, e não pense que foi fácil. Possíveis investidores não botavam fé. Não tinha roteiro, só uma sucessão de piadas. Um chegou a perguntar: ‘E por que esse cara, por que não Marieta Severo no papel?’. Foi preciso vencer muito preconceito, mas o filme foi feito, estourou. O primeiro foi mérito da Iafa, que batalhou. Dei minha contribuição, talvez se outro não se interessasse, não tivesse ido adiante. Mas o Paulo é um fenômeno e ia terminar estourando. O segundo filme foi insistência minha, assumo.”

No Brasil onde as leis de patrocínio estão em debate, Minha Mãe É Uma Peça 3 custou R$ 13 milhões financiados sem incentivo. Globo, Telecine, Universal e Fox colocaram dinheiro vivo, mas cerca de 80% do total vieram das pré-vendas das janelas. Todos querem Dona Hermínia. E agora, face ao estrondoso sucesso – além de Episódio IX, Minha Mãe 3 já deixou para trás Frozen 2 –, teremos o 4? Não se depender de Paulo. A própria Susana Garcia confirmou que será um ano de muito trabalho para ela, mas a prioridade agora é a série. “Assinei para fazer quatro temporadas de Minha Mãe para a Globoplay e o Multishow. Serão 45 episódios e eu vou realizar todos.” 

Mãe universal. Susana não acredita no ‘vamos fazer’. Paulo Gustavo pode ser um fenômeno de comunicação – como Dona Hermínia, no Vai Que Cola, embora tenha feito só o primeiro, ou nos filmes com a irmã dela, Mônica Martelli –, mas Susana é adepta do planejamento, e isso significa em todas as etapas. Na fase do roteiro, ela grudou em Paulo anotando todas as ideias, as possíveis cenas, os possíveis diálogos. Cada cena era escrita e reescrita exaustivamente e, quando Susana dizia ‘encadernada!’, isto é, pronta, não era verdade. No dia seguinte, vinha cheia de ideias. Paulo, que criou a personagem, não cessa de elogiar a Susana diretora. “Quero sempre fazer o melhor para o público, e a beleza do filme, o bom gosto, o acabamento, tudo é mérito da Susana. Além do ouvido (para os diálogos), ela tem o olho da diretora.”

Dona Hermínia não vai acabar nunca, avalia Iafa Britz, que comete uma pequena indiscrição, tão deliciosa que o repórter não se furta a acrescentar ao texto. Sua mãe (judia) identificou-se tanto com Dona Hermínia que dizia que o filme era sobre ela, e não sobre a mãe de Paulo, Dona Déa. Na verdade, isso apenas reitera o que já foi dito. Dona Hermínia é a mãe universal. Bruno Wainer diz que Paulo conseguiu o mais difícil, quase impossível – conectou-se com o inconsciente coletivo. Outro diretor, André Pellenz, já dizia isso do primeiro filme. Vida longa a Dona Hermínia.

 

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Identificação com personagens mantém comédia no topo

Filmes brasileiros fazem apenas 13% da bilheteria das produções internacionais, mas produtores apontam caminhos possíveis

Guilherme Sobota, O Estado de S.Paulo

12 de janeiro de 2020 | 06h00

Apesar do sucesso incontestável de Minha Mãe É Uma Peça 3, a maior bilheteria do cinema brasileiro em 2019 com apenas uma semana de exibição no ano, a renda dos títulos nacionais exibidos nos últimos 12 meses corresponde a apenas 13% da renda dos filmes internacionais, segundo dados divulgados nesta semana pela Agência Nacional de Cinema (Ancine).

Os filmes brasileiros arrecadaram R$ 315 milhões, ante R$ 2,4 bilhões das produções estrangeiras – os dois números cresceram cerca de 13% em relação a 2018.

Ainda no final de dezembro de 2019, o presidente Jair Bolsonaro assinou o decreto que define as cotas de telas para 2020 – depois de passar o ano sem regulamentar o dispositivo, que prevê obrigatoriedade na ocupação de um porcentual de salas nos complexos de cinema por filmes nacionais. Há uma expectativa do mercado de que essa seja a última cota de tela assinada pelo presidente. A Medida Provisória que regulamenta o setor, de 2001, prevê a manutenção das cotas somente até setembro de 2021.

O número mínimo de produções brasileiras a serem exibidas varia conforme a quantidade de salas que cada empresa possui. Com apenas uma sala, a empresa deve exibir por 27 dias pelo menos 3 filmes brasileiros. Uma companhia que tenha mais de 200 salas deve exibir por no mínimo 57 dias, pelo menos, 24 filmes nacionais. Há uma redução de 20% da cota obrigatória para espaços que voluntariamente exibirem filmes nacionais depois das 17h.

A ocupação do parque exibidor brasileiro por filmes nacionais foi de 14% em 2018, segundo o relatório mais recente sobre o assunto, também da Ancine.

Com esses números e o sucesso de Minha Mãe É Uma Peça 3 em mente, a reportagem buscou produtores do cinema nacional para atualizar a discussão sobre a ocupação das telas e sobre como buscar caminhos para que os filmes nacionais obtenham bilheterias mais polpudas – embora nem sempre seja esse o (único) propósito de obras de arte.

“A cota de tela é algo muito bem-visto pelas distribuidoras de filmes brasileiros”, explica o diretor de distribuição da O2 Play, Igor Kupstas. “Faz diferença para nós. A cota e as políticas de incentivo ao audiovisual nos ajudam a inclusive tentar encontrar e gerar outros fenômenos como o Paulo Gustavo (protagonista de Minha Mãe É Uma Peça). Não é só ter lugar para filme pequeno, filme médio ou grande, mas garantir uma presença do cinema nacional. É bastante importante para negociar o filme com o circuito.” Para ele, é também fundamental ampliar o número de salas de cinema no Brasil (eram 3,3 mil em 2018, um número próximo ao do ano de 1975, segundo a Ancine). 

Um consenso é de que as obras de comédia têm um custo-benefício muito favorável para produções nacionais e, por conseguinte, uma competição menos injusta com as produções internacionais.

“A comédia é um dos mais longevos e bem-sucedidos gêneros cinematográficos brasileiros”, explica um dos sócios da Conspiração Filmes, Leonardo M. Barros. “Tem sido assim desde a época das chanchadas e o gênero tem se renovado e reinventado ao longo do tempo. Vale lembrar que a chamada Retomada do cinema nacional começa com uma comédia (Carlota Joaquina) e nessas três décadas tem apresentado consistência de bons resultados através de uma fascinante variedade de estilos como atestam títulos como Se Eu Fosse Você, A Mulher Invisível, Os Normais, Minha Mãe É Uma Peça, Vai Que Cola, Os Penetras, Meu Passado Me Condena, De Pernas pro Ar, Cine Hollywood, Até Que a Sorte nos Separe, Os Farofeiros, Loucas pra Casar e dezenas de outros.”

Para ele, a variedade de estilos dentro do gênero e o talento dos diretores, atores e roteiristas envolvidos nas produções se somam à capacidade de se comunicar com o público brasileiro como as razões do sucesso duradouro das comédias.

Kupstas, da O2 Play, acrescenta que, no Brasil, o “laboratório” da comédia – a experimentação do material que antecede a decisão de uma produtora bancar um filme, por exemplo – é um pouco mais favorável em relação a outros estilos de filmes. “A comédia brasileira é muito particular, é um humor apenas nosso, que permite, por exemplo, uma piada na feira de rua”, diz. Para ele, essa identificação é outro dos motivos que mantêm as comédias no topo do ranking das bilheterias. “O próprio Paulo Gustavo lapidou muito o personagem e o estilo dele no teatro, circulando com a peça, aprimorando texto e atuação e assim conquistou público”, acrescenta.

Barros lembra outros dois gêneros: a cinebiografia e os filmes de temática religiosa. “Em ambos os casos, há forte proximidade e identificação com o público brasileiro e penso que esses gêneros continuarão a crescer”, opina. Para Kupstas, o terror ainda é um espaço em aberto. “Ainda não conseguimos dominar o gênero, mas algumas pessoas estão tentando. Brasileiro gosta de terror, filmes americanos funcionam bem no mercado. Temos espaço para buscar esse nicho.”

O caminho para maior ocupação, segundo Barros, “é o de sempre e é duplo”. Produzir filmes originalmente brasileiros, buscando comunicação com as plateias do País, e em paralelo, gerar obras de excelência artística que também consigam viajar para festivais internacionais. “Temos talentos artísticos e técnicos para os dois caminhos.”

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Dona Hermínia é libertária sem escandalizar famílias

Personagem de Paulo Gustavo brilha em 'MInha Mãe É Uma Peça 3'

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

12 de janeiro de 2020 | 06h00

Quem poderia supor que essa mãe desbocada, com bóbis no cabelo, marcaria com sua irreverência a já meio cansada comédia nacional?

Talvez uma primeira aproximação esteja nesse termo, “irreverência”. Há exceções, por sorte, mas os filmes em particular, e as obras artísticas em geral, parecem sofrer o peso dos tempos. Fica difícil fazer humor cáustico sem que algum grupo se sinta ofendido. E fazer humor comportado é a mesma coisa que não fazer humor. 

De maneira mais ou menos sutil, as pressões por um humor “mais conveniente” se generalizam. Junto com o necessário respeito aos grupos já discriminados, vão-se embora a espontaneidade e o arrojo. Nesse sentido, Dona Hermínia parece um sopro de liberdade. Num mundo em que toda palavra precisa ser medida para evitar reações e punições nas redes sociais, Dona Hermínia parece dizer o que lhe vem à cabeça. E não precisa ofender ninguém para ser engraçada e assumir uma posição libertária. 

Nas salas de cinema, dá para ver como a plateia reage e se diverte com a fala ligeira e desconcertante de Dona Hermínia. O roteiro é elaborado e os diálogos são reescritos várias vezes – mas o resultado passa espontaneidade, raciocínio veloz, respostas na ponta da língua. Paulo Gustavo usa essa técnica de falar bem rápido, de modo que o espectador fique enganchado no diálogo, sem tempo para se distanciar. Domingos Oliveira fazia a mesma coisa.

Essa, a forma. O conteúdo é progressista, o que nem sempre ocorre com a comédia. O “humor” racista, homofóbico, misógino, que debocha de pobres e grupos frágeis é apenas reacionário. Tem por efeito reforçar a estrutura injusta da sociedade e ridicularizar quem a ela se opõe. O humor libertário é inclusivo. Questiona preconceitos e abre a cabeça do público para aquilo que é diferente dele. Esse, o mérito de Dona Hermínia: num tempo careta, é progressista e põe em xeque preconceitos – sem escandalizar a facilmente escandalizável família brasileira. Afinal, mãe é mãe e merece respeito. 

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