Na competição de Brasília, periferia de SP explode na fita

Começou bem a mostra competitiva do 39.º Festival de Brasília, com a apresentação de Jardim Ângela, documentário de Evaldo Mocarzel, ambientado num dos bairros mais pobres da periferia paulistana. O filme foi bem aplaudido e merece a boa recepção. Trata-se de uma obra vigorosa e que deve muito à capacidade do diretor em aceitar o acaso, ou seja, aquilo que a sorte lhe traz.Explica-se: Mocarzel dirigiu-se à periferia para ministrar uma oficina de cinema aos moradores. Isto é, ensinar-lhes os rudimentos da técnica cinematográfica para que eles pudessem fazer seus próprios filmes. No caso, um filme, experimental, ambientado no próprio bairro, sobre a questão do alcoolismo. Acontece que a realidade, ou seja, os problemas do local invadem o set de filmagem. As pessoas, quando podem filmar (ou escrever, ou pintar) falam de si mesmas. E de seus problemas. A questão, subjacente: que imagem quero passar ao outro? Os meninos e meninas que participam da oficina acabam debatendo essa alternativa: passar uma imagem ´positiva´, que vê a luz no fim do túnel, ou a realidade brutal, com toda a violência que ela comporta?Todo cineasta precisa ter sorte, Evaldo teve e soube aferrar-se a ela: encontrou um personagem, Washington, que conduz a narrativa com sua inteligência e vivacidade. Chamar-se Washington talvez seja a menor das ironias na existência desse garoto de 18 anos, cujas marcas de bala no corpo são como tatuagens da sua trajetória de vida.O filme não é condescendente e a realidade obriga o diretor a enfrentar o real cru que tem diante dos olhos, sem a proteção do humanismo cristão que enfraquecia alguns dos seus trabalhos anteriores. Ao mesmo tempo, a oficina funciona como um tela protetora, que permite aos moradores se expressar e falar livremente da sua realidade. Essa realidade, ao mesmo tempo, explode na oficina e a implode, uma vez que vai além da sua proposta inicial. O ponto de partida seria a proposta humanista de democratização da imagem. O brutalismo do real acaba se impondo e, dessa imposição, nasce o filme. ´Não havia documentário até o momento em que Washington mostra seus ferimentos de bala, espontaneamente; se eu fizesse isso, seria sensacionalismo, mas ele o fez, e o filme nasce daí´, diz Mocarzel.Há um detalhe extracinematográfico que foi exposto no debate aqui em Brasília. Washington, depois da filmagem, acabou abrindo sua própria boca de fumo; uma gangue rival arma uma cilada e ele leva sete tiros. Não morre, fica um tempão na UTI, sai e é abrigado por uma ONG. Hoje, quer levar sua mensagem aos jovens de periferia para que não entrem no mesmo caminho que ele trilhou. "A minha conclusão", diz Mocarzel, "é que o ser humano não precisa apenas de uma segunda chance, precisa de muitas outras chances, de 20 chances se necessárias forem para encontrar seu caminho."De qualquer forma, Jardim Ângela é o resultado feliz do encontro de um documentarista com algo que o ultrapassa, o fascina ao mesmo tempo que lhe provoca repulsa. O real, enfim, e não a realidade idealizada com a qual sonha a classe média quando pega sua câmera digital na mão e sai por aí com a ilusão de que vai salvar o mundo.

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