RONALD WITTEK/ EFE
RONALD WITTEK/ EFE

Na Berlinale, causa incômodo o realismo de versão de ‘Berlin Alexanderplatz'

Qurbani fez um filme de pouco mais de três horas dividido em cinco partes, mais um epílogo. Como no russo 'DAU. Natasha', não é um filme fácil, suscita reações extremas. Na coletiva, foi o filme mais aplaudido até agora 

Luiz Carlos Merten, Enviado especial

26 de fevereiro de 2020 | 18h39

BERLIM - A partir do upgrade do sul-coreano Hong Sang-soo (The Woman That Ran) e da americana Eliza Hittman (Never, Rarely, Sometimes, Always), a seleção do novo diretor artístico do Festival de Berlim, o italiano Carlo Chatrian, melhorou bastante. 

Da Rússia veio DAU. Natasha, da dupla Ilya Khrzhanovsky e Jekaterina Oertel, que não é só um filme. DAU é uma sigla. Envolve um projeto maior. Ilya e Jekaterina reconstruíram uma vila ucraniana na França e contrataram russos exilados para um experimento. 



Na ficção, a protagonista, Natasha, trabalha na cantina de um instituto russo de pesquisa. O local é fechado, mas Natasha adora beber, relacionar-se. Fala de amor, sexo e outros assuntos sem meias medidas. A segurança intervém. Os diretores fizeram um filme radical. Duas horas e meia, cenas longas, não planos-sequência. Há muita violência. A sensação é de medo, insegurança. O horror velado da Rússia de Vladimir Putin, que mereceu um comentário ácido da ex-secretária de Estado Hillary Clinton aqui na Berlinale.

DAU. Natasha não deixa ninguém indiferente. Faz o gênero “ame-o ou odeie-o”. É mais ou menos o que também se pode dizer da nova versão de Berlin Alexanderplatz, pelo cineasta alemão-afegão, de origem étnica hazara, Burhan Qurbani. No começo dos anos 1980, o diretor e ator alemão Rainer Werner Fassbinder, na época com 34 anos e mais de 30 filmes no currículo - Qurbani tem 39 -, tirou do livro cultuado de Alfred Döblin uma monumental série de mais de 15 horas. 

Há 40 anos a TV já estava fazendo cinema adulto, não se trata de uma invenção norte-americana, nem da Netflix. Berlin Alexanderplatz é um homem comum que se esforça para ser uma alma honesta na cínica e corrupta Alemanha de Weimar. Qurbani transpôs sua história para a atualidade. Francis, um imigrante africano, sobrevive no mar - a um alto preço. Ao chegar à praia, promete ao bom Deus ser um homem decente, mas liga-se a Reinhard, que será seu lado sombrio. Francis vira Franz, faz carreira na criminalidade e no tráfico, mas sempre sonhando com a salvação da alma.

Qurbani fez um filme de pouco mais de três horas - 183 min. -, dividido em cinco partes, mais um epílogo. Só para efeito de comparação, em Fassbinder eram 14 capítulos. Como no russo DAU. Natasha, não é um filme fácil. Suscita reações extremas - muito bom, péssimo. Na coletiva, foi o filme mais aplaudido até agora. 

Num cinema cada vez mais conceitual, o comprometimento de Qurbani é com os personagens. Welket Bunguê faz o imigrante de Guiné-Bissau. Ele próprio também fala o português de Portugal, mas é poliglota, respondendo às perguntas em várias línguas. A danação humana, a droga, a violência. 

Fassbinder abordava a nascença do nazismo. Qurbani reflete o mundo atual. Refugiados, imigrantes, exclusão social, drogas. O realismo é visceral, mas boa parte das críticas foi quanto ao tratamento do imigrante negro. Para completar o que para alguns é estereótipo, Francis/Franz, no filme, é uma potência sexual. Esse mergulho nos aspectos mais contraditórios da natureza humana possui uma força, e veracidade, que não podem ser ignoradas.

 

Na competição, ‘Favolacce’ aponta hipocrisia italiana

Dois italianos na competição - Favolacce/Bad Tales  e Volevo Nascondermi -, e até três, considerando-se o Abel Ferrara, Sibéria, que participa da competição como produção da Itália. Carlo Chatrian, que faz a curadoria da Berlinale, não nega a origem.

Os organizadores de mostras italianas que se realizam em São Paulo - duas, no 2º semestre - já podem ir se mobilizando para ver quem vai levar Elio Germano ao Brasil. O ator participa duplamente da seleção berlinense, como o pintor Antonio Ligabue no filme de Giorgio Diritti, e o pai de um dos garotos do segundo longa dos irmãos D’Innocenzo, e o segundo filme deles em Berlim, após Boys Cry, em 2018.

Fabio e Damiano são gêmeos e, apesar do sobrenome, estão alheios ao universo da inocência. Na coletiva, compararam seu filme, Favolacce/Bad Tales, a Beleza Americana, de Sam Mendes. O subúrbio italiano, famílias desagradáveis sob medida para provar que, de perto, ninguém é normal. De cara, numa festa, um pai olha a vizinha com volúpia e enumera as maneiras como gostaria de abusar dela. Os filhos, no banheiro, acionam sites pornôs no celular de papai. A Itália, segundo os D’Innocenzo, é o reino da hipocrisia. 

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