Festival do Cinema Latino-Americano
Festival do Cinema Latino-Americano

Na 14.ª edição, o Festival do Cinema Latino-Americano faz aposta na diversidade

Com 148 títulos de 16 países, mostra que começa nesta quarta, 24, em São Paulo, compõe rico painel das tendências do cinema continental

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

24 de julho de 2019 | 03h00

Com foco no Chile, o Festival do Cinema Latino-Americano que começa nesta quarta, 24, e prossegue até 31, traz a São Paulo uma variada programação de 148 títulos de 16 países, compondo um painel muito rico das tendências do cinema continental. Com curadoria de Jurandir Müller e Francisco César Filho, o Chiquinho, o festival deste ano não fugiu à regra das manifestações culturais e cinematográficas no País – está tendo o orçamento mais pífio de sua história. “Mesmo assim, está apresentando mais filmes do que qualquer uma de suas edições anteriores. É um milagre de cooperação, e temos de agradecer aos consulados e embaixadas que abraçaram o festival, e estão sendo parceiros valiosíssimos”, destaca Chiquinho.

O Chile é um bom exemplo, e não é de agora. Nos últimos anos, o Conselho Nacional da Cultura e das Artes do país transandino tem desenvolvido programas para garantir visibilidade internacional ao cinema do Chile. O resultado manifesta-se na expressiva participação em grandes festivais europeus e até no Oscar de filme estrangeiro para Uma Mulher Fantástica, de Sebastián Lelio.

“É uma dinâmica muito moderna, que tem nos permitido exibir filmes chilenos regularmente nos últimos anos, e com a presença de convidados importantes”, explica Chiquinho. E ele acrescenta: “O 14.º Festival, que agora começa, vai promover uma série de encontros e debates. A par dos filmes, creio que, nunca fomos tão fundo antes na discussão de modelos viáveis, política e economicamente, para o cinema latino-americano e caribenho. Serão mesas e grupos de trabalho muito interessantes, nesse momento que está sendo tão grave da história da cultura, e do cinema, no Brasil e no mundo, porque as restrições que nos afligem fazem parte de uma nova mentalidade infelizmente planetária”.

Só um olhar sobre os homenageados deste ano já dá conta do que promete a edição de 2019 do festival. Pode ser que, por diferenças culturais e de idioma, o público não identifique imediatamente o ator Patricio Contreras, de 71 anos. Nascido no Chile e radicado na Argentina, vem marcando presença na produção audiovisual do Prata desde os anos 1970. Estreou com No Toquen a La Nena, de Juan José Jusid, em 1976, e participou de obras que fizeram história, como No Habrá Más Penas ni Olvido, de Hector Olivera, e A História Oficial, primeiro filme argentino a vencer o Oscar, em 1985, e Gringo Velho, os dois de Luís Puenzo.

Contreras é também muito conhecido na América hispânica como ator de teatro e TV. Ele se envolveu completamente na proposta do festival, e vem com tudo, devendo ministrar uma oficina, Atuação para Audiovisual, na terça, dia 30, a partir das 10h30, na bibliotecas do Memorial.

Homenagens. O festival abre-se nesta quarta com o novo filme de Helena Ignez, Fakir. E, assim como Contreras, deve homenagear três destacadas personalidades brasileiras. A atriz Léa Garcia tem sido uma ativista de questões ligadas aos negros na sociedade e na cultura brasileiras. São mais de 60 anos de uma história que remonta a Orfeu do Carnaval, ou Orfeu Negro, o polêmico filme com que o francês Marcel Camus ganhou a Palma de Ouro em Cannes, em 1959. Cláudia Priscilla não tem sido menos guerreira na discussão das questões da comunidade LGBTQ e Tata Amaral, seu nome representa militância feminista e política. 

A programação, vale lembrar, é toda gratuita (ou cobra preços acessíveis, R$ 12 e R$ 5), ocorrendo no Memorial da América Latina, seu reduto mais tradicional, e também no Cinesesc, em duas salas do circuito Spcine – Olido e CCSP – e na Sala Umuarama, do Instituto CPFL, de Campinas. Sesc, Spcine e CPFL são os patrocinadores, com a Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo.

Com uma quantidade tão grande de filmes – em uma semana que promete ser intensa –, o festival programou obras representativas de cada um dos homenageados. Para mostrar um pouco a arte de Léa Garcia, o festival resgata uma raridade – Compasso de Espera, único filme realizado (em 1973) pelo consagrado diretor de teatro Antunes Filho, que morreu em maio. Anote aí que a sessão será no encerramento, dia 31, no Cinesesc, às 20h30. As três homenageadas brasileiras também participam de uma mesa, Mulheres no Cinema, com mediação de Marina Person, no mesmo dia 31, às 14h30, no CCSP. 

A prioridade, porém, são os lançamentos. A Mostra Contemporâneos traz filmes estrangeiros inéditos, entre eles produções de Cuba (A Música das Esferas, de Marcel Beltrán), Argentina (Eu, Menina, de Natural Arpajou), e os dois diretores estão entre os convidados internacionais, Chile (Cuecas Rasgadas, de Arnaldo Valsecchi), Colômbia (Menina Errante, de Ruben Mendoza), México (Asfixia, de Kenya Márquez), Paraguai (3-1=2 Rodando, de José Alcazar), Uruguai (Pornô para Iniciantes, de Carlos Ameglio) e Venezuela (Eu Impossível, de Patricia Ortega).

Chiquinho recusa-se a fazer indicações. “Você (o repórter) sabe melhor que eu que o bom é cada um fazer as próprias descobertas.”

Entre os brasileiros, o longa de Helena Ignez é totalmente inédito, o mesmo ocorrendo com o novo Cristiano Burlan, Ensaio Sobre o Fracasso, e Eldorado – Mengele, Vivo ou Morto?, de Marcelo Felipe Sampaio. Já exibido no exterior, No Coração do Mundo, de Maurílio Martins e Gabriel Martins, fará sua estreia nacional. 

Graças à parceria com a Spcine, parte da programação poderá ser vista por streaming, na Spcine Play, incluindo uma seleção virtual de obras de Cristiano Burlan. Uma delas já é um dos melhores filmes brasileiros deste ano, Antes do Fim, com Helena Ignez e Jean-Claude Bernardet. Por falar no crítico e, agora, ator, no dia 25, no CCSP, às 19h, sua contribuição artística será analisada pela montadora Vânia Debbs e por dois diretores com quem Bernardet tem trabalhado regularmente, Kiko Goifman e o já citado Cristiano Burlan.

 

FILMES EM DESTAQUE NO FESTIVAL

Fakir

O longa de Helena Ignez que abre o festival aborda o fenômeno do faquirismo no Brasil, traçando os perfis de homens e mulheres que dominaram o corpo e a mente, e se tornaram conhecidos pelos jejuns prolongados

 

Eu, Menina

A argentina Natural Arpajou vem apresentar seu filme sobre a menina estranha que tenta decifrar os mistérios do mundo adulto e encontrar o amor num mundo hostil. Quase metade da seleção de Contemporâneos é dirigida por mulheres

 

Menina Errante

Da Colômbia, e do diretor Ruben Mendoza, vem esse outro retrato de menina. Após a morte do pai, três irmãs levam a caçula que nunca viram até a casa de uma tia distante. A mais jovem projeta nelas suas ansiedades futuras

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