'Mutum' leva ao cinema o universo de Guimarães Rosa

Sandra Kogut mostra o universo rural rude e isolado filtrado por sua sensibilidade

Alysson Oliveira, da Reuters,

07 de novembro de 2014 | 18h37

A premiada documentarista Sandra Kogut (Passaporte Húngaro) estréia na ficção com o longa Mutum, no qual adapta o livro Campo Geral, de Guimarães Rosa.  Veja também:Trailer de 'Mutum'   O filme foi lançado na Quinzena dos Realizadores, no Festival de Cinema de Cannes deste ano, e foi o grande vencedor do Festival do Rio, em setembro. Mutum entra em cartaz neste feriado em São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte. Apontado pelo escritor mineiro, falecido em 1967, como seu livro preferido, Campo Geral conta a história de um menino, Miguilim, que vive com sua família num lugar chamado de Mutum. O garoto mora com os pais, os irmãos e a avó, no meio do sertão de Minas Gerais. Embora exista uma narrativa de formato convencional, o que soma força são as experiências do menino, que nem sempre sabe interpretar os fatos do mundo adulto. Em Mutum, o protagonista atende pelo nome de Thiago (Thiago da Silva Mariz). O universo rural, rude e isolado é filtrado por sua sensibilidade - não apenas visual, mas também sonora. O garoto não compreende bem o mundo adulto. Seu grande encanto é a ingenuidade. Quando volta da crisma na cidade grande, ele traz um presente para os irmãos: fotos de mulheres nuas, achando que são imagens de santas. Mais tarde, Thiago assiste a uma briga entre o pai (João Miguel, de Cinema, Aspirinas e Urubus) e a mãe (Izadora Fernandes). Sentindo-se incapaz de resolver o conflito, o menino chora. O irmão mais novo, Felipe (Wallison Felipe Leal Barroso), adoece, e, novamente, Thiago não consegue fazer nada. A trajetória do menino vai sendo guiada por esses momentos de impotência que o fragilizam, fortalecendo seu processo de amadurecimento. Ao colocar em cena momentos diretos da narrativa do livro original, Sandra e sua co-roteirista, Ana Luiza Martins Costa, mantêm-se fiéis ao universo do escritor, ao mesmo tempo sem abrir mão de dotar o filme de personalidade própria. Muito disso se deve à experiência como documentarista da diretora. Assim, sua câmera nunca é invasiva, permitindo retratar a autenticidade da maioria dos atores, que são novatos - muitos deles nem conheciam o cinema antes dessa experiência. O fato de ser rodado em locação, com pessoas que conhecem o cotidiano de uma fazenda como a retratada no filme, só contribui para reforçar a delicadeza e segurança com que se constrói a narrativa. Tão importante quanto a imagem, em Mutum, é o som. Aqui, a ausência de trilha sonora obriga a prestar atenção no som ambiente, como os ruídos da vida de Thiago, os animais, o vento, a água, enfim, os sons da natureza, que representam a pureza da alma de Thiago. Mutum é, assim como Campo Geral, uma história de amadurecimento. Tanto no livro, quanto no filme, ao final da jornada, o garoto já não é mais o mesmo. Pode ter perdido sua ingenuidade, mas sua sensibilidade chega ao final intacta - apesar de o mundo ao redor eventualmente conspirar contra isso.

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