Musical sobre Elis Regina não mostra seu lado mais sombrio

Autor e diretor optaram por não mencionar abuso de álcool e de cocaína, provável causa da morte da cantora em 1982

Roberta Pennafort/Rio , O Estado de S. Paulo

25 de outubro de 2013 | 18h27

Elis - A Musical, peça autorizada pelos três filhos da cantora, não é uma biografia chapa-branca, afirma o autor, Nelson Motta. Não é sequer uma biografia, e sim uma recorte de breve vida de Elis Regina de Carvalho Costa (1945-1982), da chegada ao Rio, menina de 18 anos de Porto Alegre, à sagração como a maior cantora do país das cantoras.

Responsável também pelo texto do musical sobre Tim Maia, em que são explícitos os vícios em drogas e álcool, ele explica que, desta vez, optou por deixar o lado sombrio de fora. “Não era uma característica da Elis, um aspecto marcante. No Tim Maia, isso entrava no contexto da personalidade dele”, contava ele anteontem, pouco antes do início de um ensaio.

Elis, defendida em seu jeito camicase de ser e de cantar pela atriz/cantora Laila Garin, aparece bebendo bem, mas não cheirando cocaína. Sua morte, provavelmente por esses abusos, não está em cena.

Com o filho de Tim, Carmelo Maia, Nelson precisou entrar em acordo antes da estreia – não por causa da questão das drogas, mas por conta de seu litígio com a última mulher do pai, que tem papel grande no musical, e detalhes da encenação. Com João Marcelo Bôscoli, Pedro Mariano e Maria Rita, não houve problemas.

A peça estará no próximo dia 8 no Oi Casa Grande, no Rio, e em março em São Paulo. Em sua primeira direção teatral, Dennis Carvalho lembra que não se trata de um documentário, daí não ser necessário dar cabo de Elis em todas as suas dimensões. “É uma trupe de atores contando uma história, fazendo uma homenagem. Não tenho nada contra quem usa drogas, eu usei por muitos anos, mas, se fôssemos entrar nessas coisas, a peça teria quatro horas”.

Dennis foi amigo de Elis, como Nelson (com quem ela teve um romance por um ano). Ambos foram às lágrimas no ensaio ao ouvir Laila como Elis. “Precisamos do patrocínio de uma fábrica de lenços de papel, porque muita gente vai chorar!”, brincava Dennis, finda Redescobrir, a última das 26 músicas selecionadas.

Fisicamente, Laila, escolhida entre 200 candidatas a Elis, não poderia ser mais diferente da Pimentinha – a não ser pelo fato de ser baixinha. Vai usar perucas sobre os cabelos ruivos e crespos e lentes de contato para esconder os olhos absurdamente azuis. A voz ganhou mais graves; o sotaque baiano, já amainado pelos dez anos no Sudeste, sumiu.

O que a aproxima de Elis é a entrega à música e à emoção que ela traz. “Assisti a muitos vídeos dela, peguei o gestual para cantar, os braços. Mas não faço concessões: o movimento sai apenas quando é de verdade. Mais do que os trejeitos, eu quis a interpretação”, explica.

Laila contracena principalmente com Felipe Camargo, que faz o primeiro marido de Elis, o compositor Ronaldo Bôscoli, cafajeste na medida certa, sempre depreciando a mulher – “filha de lavadeira”, “sem classe”, “cafona”, “jeca”, ele xinga –, e Claudio Lins, o segundo, o músico César Camargo Mariano.

Entraram na narrativa as brigas conjugais, o gênio ruim, a soberba de quem se sabia especial – “Elis se achava o máximo, e era”, conta Nelson – e os encontros com artistas como Milton Nascimento, Tom Jobim e Henfil. Tudo pontilhado por clássicos de um repertório único, como Arrastão, Casa no Campo, Fascinação, Como Nossos Pais, Madalena, O Bêbado e o Equilibrista. São canções de que Elis se apropriou de tal maneira que poucos artistas tiveram a desfaçatez de regravá-las.

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