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Música brasileira é tema de filmes que estreiam nesta sexta

A canção brasileira para encher os olhos: 'Versificando' e 'Patativa do Assaré' chegam aos cinemas

Lauro Lisboa Garcia, O Estado de S. Paulo

22 de maio de 2009 | 10h30

 Durante um bom tempo a memória da música brasileira ficou relegada a certos nichos, como museus e acervos particulares. A partir de meados dos anos 1990, o mercado editorial passou a investir com mais dedicação em biografias e songbooks de grandes nomes e vertentes da MPB. Com igual intensidade o cinema abraçou o filão nesta década. Sempre se fez filmes sobre música brasileira, mas atualmente há uma tremenda "ebulição", como diz Walter Carvalho, que está rodando um documentário sobre Raul Seixas. Hoje estreiam na cidade Versificando, de Pedro Caldas, e Patativa do Assaré - Ave Poesia, de Rosemberg Cariry.

Veja também:

trailer Trailer de Versificando

trailer Trailer de Simonal - Ninguém Sabe o Duro que Dei

trailer Trailer de Patativa do Assaré - Ave Poesia

trailer Trailer de Titãs: A Vida Até Parece Uma Festa

O forte de Patativa do Assaré (1909-2002) era o verso falado, mas ele também foi cantador e teve pelo menos dois importantes poemas musicados: A Triste Partida - grande êxito na voz de Luiz Gonzaga (1912-1989) - e Vaca Estrela e Boi Fubá, propagado por Fagner, clássicos sobre o flagelo da seca no Nordeste e a triste sina dos retirantes. Além desses, há outros dois documentários musicais nacionais em cartaz: Simonal - Ninguém Sabe o Duro Que Dei, de Claudio Manoel, Micael Langer e Calvito Leal, e Titãs - A Vida Até Parece Uma Festa, de Branco Mello e Oscar Rodrigues Alves.

O crítico Amir Labaki, idealizador do festival É Tudo Verdade, diz que os filmes mais procurados do evento são os relacionados a música, como Simonal, exibido em primeira mão na edição de 2008. Em 2004, detectando uma tendência de crescente interesse do público por esse tipo de produção, Labaki organizou a mostra retrospectiva Ver a Música. "Fizemos uma pesquisa com cineastas e críticos de música para eleger os dez clássicos brasileiros do gênero", lembra. Maria Bethânia, a preferida dos documentaristas, estrelava dois dos títulos eleitos.

"Nessa retrospectiva a gente afirmou que há uma tradição importante no cinema brasileiro de fazer retratos ligados à música, desde Nelson Cavaquinho, feito por Leon Hirszman em 1969. Mas cadê o documentário sobre Pixinguinha? E João Gilberto? Apesar de ter uma tradição, não há grandes documentários apresentando esses personagens para o grande público", diz o crítico. "Há ainda um continente a ser descoberto, este País é riquíssimo em música. Então, hoje, que a produção em geral do documentário cresceu, é natural que se haja um número maior de filmes desse gênero sobre música."

Além disso, Labaki aponta um dado importante de mercado que é o filme sobre Vinicius de Moraes, de Miguel Faria Junior, de 2005. "Vinicius é o documentário brasileiro de maior sucesso recente. Conseguiu mais de 250 mil pessoas em salas de exibição, o que para documentário brasileiro nos últimos 15 anos é um número bastante forte. Além disso, deve ser um dos que mais venderam DVD. Nelson Freire (de João Moreira Salles) não foi grande sucesso em sala, mas também vendeu bem em DVD."

Para Roberto Berliner - realizador do premiado A Pessoa É Para o Que Nasce (sobre as Ceguinhas de Campina Grande) e sócio da produtora TV Zero, que realizou Simonal -, o importante para despertar maior interesse do público é retratar artistas que tenham uma boa história para ser contada. "O filme de Martin Scorsese sobre os Rolling Stones, Shine a Light, foi um fiasco de bilheteria. Eram shows muito bem filmados, com as melhores câmeras, tudo perfeito, com tudo pra dar certo. E não deu. Porque só a música não basta. Sem uma história forte não rola."

O que não falta para o cineasta Walter Carvalho, que codirigiu Cazuza - O Tempo Não Para, com Sandra Werneck, é componente dramático na biografia de Raul Seixas (1945-1989). "É um personagem trágico, muito complicado. Por isso dei o nome do filme de O Início, o Fim e o Meio, tirado de uma música dele. Não queria terminar o filme como ele terminou", conta. Ele já entrevistou 54 pessoas e retoma a empreitada no segundo semestre.

Carvalho acredita que haja uma "coincidência" nessa ênfase do cinema brasileiro atual em contar a história de cantores, grupos e compositores. Mas aponta também como fator importante as facilidades tecnológicas, com suportes eletrônicos digitais, para se trabalhar com os arquivos de imagens e na própria filmagem complementar.

Ele ainda não viu Waldick - Sempre no Meu Coração, mas diz que adorou que Patrícia Pillar o tenha feito. "Imagina se ela fosse esperar conseguir patrocínio para fazer um filme em 35 mm, em 16 mm. Não faria. O fato de poder contar com uma tecnologia mais acessível - pelo menos na captação, depois você se vira -, possibilitou que ela se aproximasse de Waldick Soriano." Carvalho lembra que desde as expedições de Mario de Andrade (1893-1945) pelo Nordeste, já havia "uma vontade de trazer a questão da música popular" do Brasil.

Wladimir Carvalho, irmão de Walter, volta suas lentes para o rock de Brasília, centrado em Renato Russo. Tom Jobim, Humberto Teixeira, Herbert Vianna, Bezerra da Silva, Novos Baianos, Nana Caymmi, Elza Soares, Demônios da Garoa e Miltinho estão entre os retratados em outras produções. Daqui a duas semanas entra em cartaz Um Homem de Moral, de Ricardo Dias, sobre o compositor e cientista Paulo Vanzolini. Em junho também chegam às telas o ótimo Lóki, de Paulo Henrique Fontenelle, sobre o mutante Arnaldo Baptista, e Cantoras do Rádio, de Gil Baroni e Marcos Avellar, com Carmélia Alves, Violeta Cavalcanti, Carminha Mascarenhas e Ellen de Lima.

A linguagem predominante no setor é dos documentários de longa-metragem, mas há também os curtas  e biografias dramatizadas em caprichadas produções, como Noel - Poeta da Vila, de Ricardo Van Steen (recém-lançado em DVD para venda), e Cazuza - O Tempo Não Para. O maior sucesso nesse setor foi 2 Filhos de Francisco, a tocante história da dupla sertaneja Zezé Di Camargo e Luciano filmada por Bruno Silveira. Lançado em 2005, o filme foi visto por 5,4 milhões de espectadores, campeão de bilheteria absoluto do gênero.

Com orçamento bem mais modesto e dependentes da vontade dos distribuidores, os documentários não seguem a mesma tendência. "Mas Simonal teve um boca a boca muito forte, foi ?comprado? pela imprensa e está indo bem de bilheteria, principalmente no Rio. Com isso, de alguma maneira as pessoas passam a olhar o documentário de maneira diferente", diz Berliner. "Simonal teve uma repercussão que raros documentários brasileiros têm e conseguiu uma inserção de mercado também raríssima, com exibição em mais de dez salas em São Paulo", aponta Labaki. Para Berliner "é muito saudável tudo isso que está acontecendo". "Porque estamos dando a esses artistas o espaço nobre que eles mereciam." colaborou Luiz Zanin Oricchio

MPB Nas Telas

EM CARTAZ

Patativa do Assaré - Ave Poesia, de R. Cariry

Simonal - Ninguém Sabe o Duro Que Dei, de Claudio Manoel, Micael Langer e Calvito Leal

Titãs - A Vida Até Parece Uma Festa, de Branco Mello e Oscar R. Alves

Versificando, de P. Caldas

PARA ESTREAR

Cantoras do Rádio, de Gil Baroni e Marcos Avellar

Um Homem de Moral (Vanzolini), de Ricardo Dias

Lóki (Arnaldo Baptista), de Paulo Henrique Fontenelle

Herbert de Perto, de Roberto Berliner e Pedro Bronz

Onde a Coruja Dorme (Bezerra da Silva), de Marcia Derraik e Simplício Neto

O Homem Que Engarrafava Nuvens (Humberto Teixeira), de Lírio Ferreira

O QUE VEM POR AÍ

A Música Segundo Tom Jobim, de Nelson Pereira dos Santos

Melodies Between Worlds (Nana Caymmi), de Georges Gachot

O Início, o Fim e o Meio (Raul Seixas), de Walter Carvalho e Evaldo Mocarzel

Filhos de João - Admirável Mundo Novo Baiano, de Henrique Dantas

Maysa - Quando Fala o Coração, de Jayme Monjardim

DESTAQUES EM DVD

Noel - O Poeta da Vila, de Ricardo Van Steen (foto)

O Mistério do Samba, de Carolina Jabor e Lula Buarque de Hollanda

Brasileirinho - Grandes Encontros do Choro Contemporâneo, de M. Kaurismäki

Fabricando Tom Zé, de Décio Matos Jr.

Cartola - Música Para os Olhos, de Lírio Ferreira e Hilton Lacerda

Paulinho da Viola - Meu Tempo É Hoje, de Izabel Jaguaribe

Nelson Freire - Um Filme Sobre Um Homem e Sua Música, de João Moreira Salles

Vinicius, de Miguel Faria Jr.

Cazuza - O Tempo Não Para, de Sandra Werneck e Walter Carvalho

Maria Bethânia - Música É Perfume, de G. Gachot

2 Filhos de Francisco, de Breno Silveira

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