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Museu Lasar Segall inicia programação para lembrar os 30 anos da morte de Andrei Tarkovski

Mostra 'Espelho Tarkovski' reverencia o escultor do tempo

Luiz Carlos Merten, Impresso

02 Dezembro 2016 | 20h55

Completam-se neste mês de dezembro, no dia 29, 30 anos da morte de Andrei Tarkovski. Antecipando a data, o Museu Lasar Segall promove deste sábado, 3, até o próximo, 10, o evento Espelho Tarkovski. Além de retrospectiva de filmes, contempla debate, lançamento de livro e duas edições do ‘Sábado Russo’, com gastronomia típica.

Há um culto a Tarkovski. Um dos oficiantes era ninguém menos que Ingmar Bergman, que chegou a declarar, diante de O Sacrifício, que era o filme que gostaria de ter realizado. O Sacrifício é de 1986, ano da morte do autor russo – no exílio, em Neuilly sur Seine, na França. Exatamente 20 anos antes, em 1966, ele provocou comoção com seu segundo longa, para muitos críticos o maior de sua carreira – Andrei Rublev. É a cereja do bolo da programação de cinema deste sábado.

Começa às 14 h com a exibição de Um Dia na Vida de Andrei Arsenievitch, de Chris Marker, que será seguido da palestra O Exílio de Tarkovski, por Neide Jallageas, e da leitura de Esculpir o Tempo, por Marina Tenório. Finalmente, às 17 h, haverá a exibição de Andrei Rublev. Rememorando – Tarkovski formou-se cineasta na Escola do Estado. Foi um aplicado aluno de Mikhail Romm, que dirigiu grandes filmes, mas, como assinala Jean Tulard no Dicionário de Cinema, não evitou os cânones do realismo socialista. Tarkovski estreou, instantaneamente consagrado – com o Leão de Ouro de Veneza, em 1962 –, com A Infância de Ivan.

O filme parecia direcionar Tarkovski à vertente de Romm – as dificuldades de um jovem órfão que se destaca contra as forças de ocupação nazistas na (então) URSS. Quatro anos depois, Tarkovski muda o tom e sua evocação do célebre pintor de ícones não apenas dessacraliza a Rússia medieval como cria o paradigma. Tarkovski, como Andrei Rublev, não aceita trabalhar de encomenda. Começaram aí seus problemas com o regime comunista. Com a ficção científica Solaris – definida, na época, 1972, como o 2001 russo –, ele tentou embalar suas críticas na fantasia, mas as autoridades desconfiaram da manobra, e o filme foi acolhido com reservas na URSS.

O mesmo ocorreu com O Espelho e Stalker, uma nova ficção científica. Tarkovski ganhou o mundo – foi fazer Nostalgia na Itália e O Sacrifício na Suécia. Mas lhe faltava a pátria mãe. O Sacrifício, apesar da presença icônica do bergmaniano Erland Josephson, é impregnado pela literatura russa. A busca do sagrado, num mundo que perdeu (seu) sentido. Os elementos estão contaminados. O professor incendeia sua casa. No mundo devastado, seu filho tenta recomeçar, regando uma árvore seca. Tarkovski virou mito, a partir de sua morte precoce (aos 54 anos). Dois grandes filmes – imensos – não representam pouco, justamente O Sacrifício e Andrei Rublev, com o episódio do sino. Como artista, Tarkovski dizia que tinha de esculpir o tempo. Sua arte introspectiva favorece a reflexão.

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