Josh White/Academy Museum Foundation
Josh White/Academy Museum Foundation

Museu da Academia de Hollywood vai abrigar 237 mil filmes históricos

O museu, que tem um brasileiro em sua equipe, será aberto em setembro e vai exibir ainda roteiros e objetos cênicos

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

22 de março de 2021 | 15h39

A pandemia do covid-19 adiou um dos mais ambiciosos planos da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, entidade responsável pela festa do Oscar: a inauguração do Academy Museum of Motion Pictures, o Museu da Academia do Cinema. Prevista para dezembro do ano passado, a abertura está programada agora para 30 de setembro, quando, espera-se, o público poderá frequentar presencialmente o espaço – antes, em abril, como aquecimento, haverá uma série de programas virtuais, aproveitando a atenção despertada pela 93.ª premiação do Oscar.

Trata-se de um espetacular espaço em Los Angeles, que vai abrigar mais de 237 mil filmes e vídeos históricos, além de 85 mil roteiros originais (publicados, ou não, desde 1910) e 133 mil objetos cênicos de grande valia, como uma das tabulas de Os Dez Mandamentos (1956) ou uma biga de Ben Hur (1956).

O câmpus do museu, com cerca de 28 mil metros quadrados, projetado pelo arquiteto Renzo Piano, vencedor do Prêmio Pritzker, apresenta sete andares de galerias de exposições imersivas permanentes e temporárias, o Estúdio de Conservação Debbie Reynolds, espaços para eventos especiais, um café e uma loja. O novo edifício esférico – feito de vidro, aço e concreto e que parece flutuar sobre o chão – é conectado ao Edifício Saban por meio de pontes de vidro e abriga a Sala David Geffen, um espaço de cinema de última geração com 1.000 assentos e cuja programação será administrada por um brasileiro, Bernardo Rondeau (leia abaixo), e o Terraço Família Dolby, que vai oferecer uma vista deslumbrante de Hollywood Hills.

“Sabemos que estamos trabalhando para a inauguração do Academy Museum em um momento de grandes desafios, mas também de grande conhecimento”, disse Bill Kramer, diretor e presidente do museu. “Ao longo do século passado, o cinema refletiu e impactou os principais problemas e eventos históricos. As histórias que contamos no Academy Museum fazem parte dessas histórias mais amplas, e temos o compromisso de destacar o impacto social do cinema.”

E um detalhe não escapa aos organizadores: como tratar o “lado sombrio” da história do cinema, que inclui as acusações de assédio sexual sofridas por vários homens nos últimos anos, como o produtor Harvey Weinstein e o ator Kevin Spacey. “Não pretendemos ignorar a história problemática”, disse a atriz Laura Dern, que comandou um tour virtual, na semana passada, a alguns órgãos de imprensa, como o Estadão. Ela citou a polêmica campanha #OscarsSoWhite por causa da falta de artistas negros, a baixa presença de mulheres e a forma como a Academia tratou a atriz negra Hattie McDaniel, na cerimônia de 1940, que indicou os melhores do ano anterior.

Primeira artista negra a receber um Oscar, de atriz coadjuvante, por seu papel em ...E o Vento Levou, Hattie não pôde comparecer à estreia do filme por causa da cor de sua pele. E, na cerimônia do Oscar, ela não conseguiu entrar no Hotel Ambassador, que praticava a segregação racial, até que os produtores intercederam e seu acesso foi liberado, mas ela precisou se sentar em uma mesa separada, longe dos demais atores. Ao receber a estatueta, Hattie não suportou e chorou.

O Museu da Academia pretende também lembrar o assédio sofrido pela atriz indígena americana Sacheen Littlefeather, que discursou no lugar de Marlon Brando quando ele recusou o Oscar de melhor ator (por O Poderoso Chefão), na festa de 1973, para denunciar o tratamento dispensado aos indígenas pelas autoridades dos EUA. E ainda o fato de que atrizes europeias interpretaram personagens chinesas em Terra dos Deuses, de 1937.

“Não queríamos apagar filmes e artistas e momentos que pudessem ser incômodos. Queríamos encará-los de frente e contextualizá-los, por meio de nossa exposição permanente”, explicou Bill Kramer.

Doação. A porta de entrada do museu será em um prédio inaugurado em 1939, então ocupado pela May Company. Transformado em patrimônio histórico e cultural em 1992, o edifício foi cedido para a Academia e agora se chama Edifício Saban, em homenagem aos benfeitores Cheryl e Haim Saban. As doações, aliás, foram decisivas para a construção do museu, uma obra iniciada há 5 anos e várias vezes interrompida por falta de verbas – o término foi garantido depois que uma campanha de arrecadação de fundos conseguiu US$ 368 milhões, que correspondem a 95% do total necessário (US$ 388 milhões), de nomes como Barbra Streisand e Tom Hanks.

Em sete andares, o fã terá a oportunidade de conhecer inúmeros itens que, de alguma forma, fazem parte de seu imaginário cinematográfico, desde os sapatinhos vermelhos usados por Judy Garland em O Mágico de Oz (1939), passando pelas portas do fictício Rick’s Café, frequentado por Humphrey Bogart em Casablanca (1942), ou a capa de Drácula usada por Bela Lugosi no filme de 1931, até chegar ao único molde ainda existente da mandíbula do tubarão criado para o longa que consagrou o jovem Steven Spielberg, em 1975.

É a reprodução de um dos modelos do bicho (o único agora existente) que impressiona: chamado Bruce, o tubarão estará suspenso no grande vão e poderá ser visto de todos os andares. E o acervo tem outros itens, como mais de 85 mil roteiros, 100 mil objetos de produção, 190 mil filmes e 12,5 milhões de fotografias, além de 1.700 objetos pessoais que pertenceram a figuras lendárias como Katharine Hepburn, Cary Grant e Alfred Hitchcock. Haverá ainda espaço para objetos raros, desde rudimentares câmeras de filmar usadas no início do século passado até o primeiro modelo do Steadicam, estabilizador criado por Garrett Brown em 1974 e que dá a impressão de que a câmera flutua, evitando trepidações na imagem – um belo exemplo de seu uso está no filme O Iluminado (1980), de Stanley Kubrick.

O museu contará com várias galerias, algumas com exposições permanentes, outras com temporárias. E sempre haverá convidados para a curadoria dessas salas. Spike Lee e Pedro Almodóvar já estão confirmados entre os primeiros diretores convidados para organizar exposições temporárias dedicadas a outros cineastas. “Quero ver ônibus escolares amarelos estacionados em fila dupla em frente ao museu, e que essas belas mentes jovens sejam iniciadas no cinema”, brincou Lee, também no vídeo promocional, comandado por Laura Dern.

Para marcar a inauguração do espaço, está prevista a exposição Histórias do Cinema, que vai ocupar três andares – haverá galerias dedicadas aos mundos e personagens criados em filmes de ficção científica e fantasia por meio do trabalho colaborativo de designers de produção, artistas de efeitos visuais e figurinistas; outras que vão destacar o papel dos documentários e filmes narrativos em refletir sobre questões sociais; também serão lembradas as técnicas de animação tradicional, stop motion e animação digital.

A fase online, preparatória, começa em 22 de abril quando o site do museu será ativado com conteúdo histórico reflexivo sobre o Oscar e Hollywood – lembrando que a 93.ª cerimônia vai ocorrer três dias depois. Haverá ainda o Breaking the Oscars Ceiling, um diálogo apresentado pela curadora do museu Diane von Furstenberg com mulheres que alcançaram marcos históricos do Oscars.

Entre as convidadas, as atrizes Sophia Loren, Whoopi Goldberg e Marlee Matlin e a cantora e compositora Buffy Sainte-Marie.

“O cinema molda nossa compreensão da história e da cultura, de outras pessoas e de nós mesmos, de maneiras profundas e duradouras”, comenta Jacqueline Stewart, diretora artística e de programação do museu. “Os filmes promovem diálogo e empatia.”

Brasileiro cuida da sala de exibição do Museu da Academia

Bernardo Rondeau é um carioca formado em cinema em Nova York e que mora desde 1987 nos Estados Unidos. Filho de pais com grande importância na divulgação do cinema americano no Brasil (os jornalistas Ana Maria Bahiana e José Emílio Rondeau), ele trocou, há cinco anos, a função de programador de filmes do Lacma (o Museu de Arte de Los Angeles) para trabalhar na Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. E agora ele será o curador das duas salas de projeção de filmes do novo Museu da Academia.

“A ideia é que as salas tanto tenham programação própria como dialoguem com exposições que estarão nas galerias”, conta ele ao Estadão, em entrevista por Zoom. “E a ideia não é só celebrar atores e diretores mas também os profissionais como roteiristas e cenógrafos, porque a arte é colaborativa.”

Assim, uma das primeiras homenagens será para o animador e produtor japonês Hayao Miyazaki, um dos mais importantes criadores de desenhos animados do planeta. Pelo Studio Ghibli, ele dirigiu e produziu filmes essenciais como A Viagem de Chihiro e Meu Amigo Totoro. “Vamos exibir todos os trabalhos que ele dirigiu e também os que produziu pelo Ghibli.” Também serão mostrados, nas galerias, storyboards, layout e pôsteres, na maior exposição dedicada a Myazaki fora do Japão.

Disposto a também explorar a história dos diretores afrodescendentes americanos e sua contribuição para o cinema, Rondeau prepara uma seleção de filmes de Haile Gerima, etíope de nascimento, mas atualmente vivendo nos Estados Unidos, autor de trabalhos destacados como o documentário A Batalha de Adwa.

O brasileiro vai cuidar da programação de duas salas – a maior, com mil lugares, vai se chamar David Geffen, em alusão ao magnata que ajudou a criar, entre outras empresas, a DreamWorks, e outra, com 288 lugares, que se chamará Ted Mann, homenagem ao empresário americano que presidiu a cadeia Mann Theatres. “Essa, por ser menor, será como uma cinemateca, onde poderemos nos aventurar mais no cinema independente”, conta o brasileiro. “A sala David Geffen será destinada aos visitantes em geral e até poderá abrigar uma pequena orquestra.” Também estará capacitada para exibir longas em nitrato, uma película rara e que poucas salas no mundo têm condição de apresentar.

Bernardo Rondeau vai trabalhar com um maravilhoso acervo, que conta com cerca de 250 mil filmes, nos quais se destacam cópias raras e diversos títulos preservados, como se espera de um bom museu. “Pretendemos ser o local ideal para mostrar a cinematografia de todo o mundo”, comenta ele, que não se esquece do cinema latino – e do brasileiro, em particular.

Admirador de cineastas contemporâneos como Kleber Mendonça Filho (“Bacurau é um espanto, não é um típico longa brasileiro”) e Gabriel Mascaro, ele espera criar duas séries sobre momentos distintos do cinema brasileiro, que possam revelar detalhes da nossa cinematografia ao público estrangeiro, que conhece, em geral, o Cinema Novo e Carmen Miranda.

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