Musas estão de volta às telas brasileiras

Pense nas mais belas atrizes do cinema brasileiro, pense nas maiores estrelas. Sua lista poderá incluir Vera Fischer e Malu Mader, mas estará incompleta se nela não estiverem Odete Lara e Norma Bengell. Algumas das imagens mais impressionantes do cinema no País passam pelo corpo e pelo rosto dessas mulheres. O vestido de bolinhas colado ao corpo de Odete em O Boca de Ouro, de Nelson Pereira dos Santos; o outro vestido, parecendo uma mortalha negra que represava a sexualidade da protagonista de Na Garganta do Diabo, de Walter Hugo Khouri; a prostituta torturada pela corte de homossexuais ensandecidos de A Rainha Diaba, de Antônio Carlos Fontoura. Odete é uma deusa nesses filmes. Norma não é menos esplendorosa fazendo o beicinho de Brigitte Bardot em O Homem do Sputnik, de Carlos Manga, no nu frontal - o primeiro do cinema brasileiro - de Os Cafajestes, de Ruy Guerra, ou como a mulher angustiada de Alberto Sordi em O Mafioso, que fez na Itália, com direção de Alberto Lattuada.Norma e Odete fazem parte do imaginário de todo macho brasileiro que se preze. Todo cinéfilo as tem no panteão das grandes. A súmula da beleza, do talento e do mistério de ambas pode ser conferida em Noite Vazia, o mergulho de Khouri na solidão e na incomunicabilidade dos paulistanos dos anos 60. Agora, Norma e Odete estão ressurgindo nas telas, jovens e lindas. Não, não é um ciclo dedicado às duas - e ele seria muito bem-vindo, porque, com certeza, iria mapear momentos definitivos do cinema brasileiro. Mas as duas voltam à ordem do dia em cinebiografias inéditas. Um filme para cada uma delas e sobre cada uma delas.Norma vai renascer na tela no filme que ela própria pretendia realizar e agora deverá ter Daniel Filho como diretor, embora a atriz dificilmente deixe de usar seu poder de interferir na produção. Ela quer contar sua história, desde o teatro rebolado até a consagração nas telas e palcos do Brasil e da Europa. O filme de Norma é, por enquanto, um projeto. Poderá marcar o ressurgimento da estrela, após o imbróglio das contas de seu longa O Guarani. A suspeita de desvio de verbas e enriquecimento ilícito torpedeou o currículo da atriz, que sonha agora renascer.O filme de Odete já está pronto. Chama-se Lara e é dirigido por Ana Maria Magalhães. No livro Eu Nua, Odete contou sua experiência destrutiva nos labirintos do sexo. Não é essa Odete que interessa a Ana Maria. A atriz e diretora privilegia em seu filme aquela Odete que dá seus passos rumo à paz interior. A mulher que logra dominar seus demônios por meio da adesão ao budismo.Narcisismo - Alguém poderá considerar excessiva a ego-trip de Norma, fazendo um filme para contar a própria história. Em entrevista à Agência Estado, ela se defende dessa possível acusação de narcisismo. Diz que foi (ainda é) uma transgressora e quer ensinar as novas gerações a transgredir também. Conheceu muita gente fantástica, passou por muitos movimentos culturais, viveu amores intensos. Quer contar as coisas que a marcaram.Odete não transgrediu menos as normas estabelecidas. Algumas das cenas mais fortes de sexo do cinema brasileiro a tiveram como protagonista. O penteado que ressalta o rosto leonino de Noite Vazia realça a personalidade da mulher que aceita tudo, até o homossexualismo forçado, por dinheiro. Em Copacabana Me Engana, seu primeiro filme com Antônio Carlos Fontoura, o sexo desempenha de novo um papel fundamental e poucos filmes revelam tanto a cara da classe média, em pleno regime da ditadura militar.Guerreiras, transgressoras. Odete poderia repetir a autodefinição famosa do diretor norte-americano Elia Kazan, na sua entrevista ao crítico francês Michel Ciment: "Não gosto de tudo o que fiz, não fiz tudo o que gostaria, mas esta é a minha vida." Ela não tem arrependimento de nada, sabe que a vida desregrada dos anos 60 e 70, aquela busca de um absoluto que a consumia e que tentou encontrar nas drogas, no sexo, terminou por levá-la à purificação. Numa entrevista à Agência Estado, disse que a idade lhe permitiu ver que não deveria nem queria mais alimentar aquele mito de devoradora sexual. Não era feliz. Nenhum amor ou paixão conseguia ser pleno porque ela insistia em procurar nos outros algo que só poderia encontrar em si mesma. Hoje, vive a plenitude, mas foi um longo caminho.Glauberianas- Houve algo parecido com Norma Bengell. A atriz que surpreendeu o Brasil ao casar-se com um bonitão italiano, Gabriele Tinti no próprio set de Noite Vazia, daquela maneira talvez quisesse mostrar que arte e vida, para ela, eram uma coisa só. O sexo também foi importante em sua vida. Ela virou mito sexual, mas não precisou descer aos abismos de Odete Lara para renascer. Arte: ambas colaboraram com Glauber Rocha, o furacão baiano. Odete fez O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro e Câncer, com Glauber. Norma fez o último filme do mais polêmico autor do cinema brasileiro: A Idade da Terra.Filha de um imigrante italiano, Odete foi marcada pelo suicídio da mãe, quando tinha apenas 6 anos. Mais tarde foi o pai que se matou. Ela achava que seria esse o seu caminho. Foi datilógrafa e secretária. Virou manequim e participou do primeiro desfile de moda da história do País, promovido por Pietro Maria Bardi. Foi garota-propaganda (na extinta TV Tupi) e integrou o elenco do Teatro Brasileiro de Comédia, o famoso TBC. Em 1955, trabalhou na peça Santa Marta Fabril S.A. e o autor, Abílio Pereira de Almeida, entusiasmado com a atriz, apadrinhou sua carreira no cinema, em O Gato de Madame, ao lado de Mazzaropi. O resto é história. A mulher que viveu no limite hoje gosta de dizer que se afastou da experiência dos extremos. Aprendeu, no budismo, que o equilíbrio está no centro. Trilha o caminho do meio, como diz. Não interferiu em nada no processo criativo da diretora Ana Maria Magalhães. Vive isolada em Nova Friburgo, de vez em quando faz uma novela (de Gilberto Braga, amigo e admirador), há três anos lançou um CD com poesias de Vinicius de Moraes.Mais uma coincidência: ambas foram cantoras. E Norma foi vedete e manequim, antes de se impor como (grande) atriz. Há três anos, ela anunciou que iniciaria, em novembro de 1998, a rodagem da ficção de tons biográficos baseada em sua vida. O projeto foi sendo adiado, um pouco pela má recepção de crítica para O Guarani, mas principalmente pelos problemas com as contas daquela adaptação do romance de José de Alencar. Na entrevista, Norma diz que sofreu muito. Com o apoio de amigos, está dando a volta por cima, mas se recusa a falar sobre o episódio O Guarani. Foi uma das mães da retomada do cinema brasileiro nos anos 90 e o seu beijo na boca do então presidente Itamar Franco, que simbolicamente reabriu o caminho para a produção de filmes no País, após a política de terra arrasada da era Collor, provocou uma polêmica quase tão grande quanto a de Os Cafajestes. Norma, teu nome é transgressão.

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