"Musa" de Guédiguian vem ao Brasil

Ariane Ascaride chegou na segundade manhã a São Paulo. À tarde, conversou com a reportagem noHotel Crowne Plaza. Uma obra na Rua Frei Caneca transformouaquela região da Paulista num caos. "Adoro esta confusão",disse a atriz de A Cidade Está Tranqüila e Marie-Jo e SeusDois Amores. À noite, ela participou da pré-estréia do segundo que estréia no dia 22 na cidade. Houve um debate, na seqüência.Os dois são filmes de Robert Guédiguian, o diretor francês quevirou arauto contra a globalização. Ariane também é chamada de"musa" de Guédiguian. Acha graça: "Ninguém é mais avesso aessas coisas do que Robert." Conta que tem uma confiança irrestrita em Guédiguian.Ele fez 11 filmes, ela está em todos. Com o primeiro, DernierEté, de 1981, participaram, fora de concurso, da seleçãooficial de Cannes. Com Marie-Jo, voltaram, este ano, àCroisette. Ariane era considerada favoritíssima ao prêmio demelhor atriz. "Tentei fechar meu ouvido e ficar indiferente aessas histórias", ela diz. Mas confessa: "Todo ator do mundosonha com um prêmio de interpretação em Cannes; por mais que euquisesse ficar distante, meu ouvido estava ali, acompanhandotudo." Admite que ficou triste: "Um dia e meio", acrescenta,rindo. Onze filmes com Guédiguian e, por um deles, Marius etJeannette" - exibido na Mostra Internacional de Cinema em SãoPaulo e, depois, no Mostra na Cultura, quando ainda havia ohorário - ganhou o César, o Oscar do cinema francês. Faz semprea mesma personagem nos filmes de Guédiguian. Permanece sempre a mesma para, paradoxalmente, mudar.Pegue Marie-Jo, por exemplo. Guédiguian lhe disse que queriafazer um filme romântico. O filme romântico do diretor nãodifere tanto assim dos demais. Há essa mulher que não conseguese decidir entre dois homens, existe até uma cena ardente desexo - que foi novidade para ela -, mas Ariane acha queMarie-Jo, sendo diferente, é igual a todas as mulheres quevem interpretando, há 20 anos, no cinema do autor. Umapersonagem com os pés enterrados no social. Eles são todos de Marselha - Guédiguian, ela, os atoresJean-Pierre Darroussin e Gérard Meylan. Moram (menos Meylan) emParis, mas o diretor não abre mão de manter Marselha comocenário de seus filmes. "É a nossa cidade, o nosso clima, anossa luz, a nossa gente", diz. Gente, justamente. Arianeconcorda que não é uma atriz como as outras. Sem desdouro nenhumpara suas colegas. Não consegue fazer senão filmes de autor,sobre personagens em que acredita, histórias que sejamverdadeiras para ela. "O cinema não é uma carreira para mim, éa minha vida", confessa. E não apenas para ela. Guédiguian eseus atores formam uma trupe, como no teatro. Filmam juntos, reúnem-se para discutir o mundo. "Aspessoas estranham, perguntam se é assim mesmo, se a gente não secansa; não, não nos cansamos porque o cinema para nós não ésimples diversão; compartilhamos as mesmas idéias políticas, asmesmas convicções e é isso que nos mantêm unidos, que reaviva anossa colaboração." Quando o diretor lhe propôs a personagem de Marie-Jo,ela aceitou logo, mas percebeu que seria difícil de representar."Todos sonhamos com duas vidas; pode até ser inconsciente, maseu duvido que uma pessoa, vivendo uma vida, não pense, nummomento ou outro, se a sua vida não poderia ser diferente." Marie-Jo tem esse marido a quem ama e, de repente, surge na vidadela esse outro homem, a quem também passa a amar. "Não é umahistória de amor burguês, segundo a velha forma da mulher, domarido e do amante; Marie-Jo não quer dissimular, não sabedissimular." Ela cita a cena em que a protagonista, tendo ido para acama com o outro, deita-se à noite ao lado do marido e, enquantoele dorme, abre seu coração. "Ela ama tanto o marido e viveuuma experiência tão forte que, se há uma pessoa no mundo a quemgostaria de relatar o que houve, seria ele." Revolução - Isso leva a uma discussão sobre o amor comoato revolucionário. "O amor tem essa dimensão: as pessoas podemir ao fundo delas mesmas, superar-se por causa de amor." Amor erevolução, para ela, têm de andar juntos. Quando o repórter adefine como uma atriz politizada, ela põe logo aspas nesse´politizada´. "Se você quer dizer com isso que eu me preocupocom a situação do mundo, com as outras pessoas, sim, soupolitizada." E explica: o pai integrou a Resistência, durante a2.ª Grande Guerra, o avô pertenceu ao movimentoanarco-sindicalista. "Criei-me ouvindo palavras de ordem sobreigualdade e fraternidade; ensinaram-me que todas as pessoas têmdireitos iguais." Conta que deve ser bem pouco inteligenteporque, por mais que pense, não consegue atinar porque algumaspessoas possuem tanto e outras tão pouco. "Tem gente que aceita isso, eu não posso", confessa.Acrescenta que muitas pessoas que se alienam do sofrimento dosoutros, dos direitos dos outros, não o fazem por maldade e sim,por desinformação. "A justiça social também é uma questão decultura, de informação; a arte, e não apenas a arte, claro, temesse compromisso de informar e conscientizar." É um discurso deesquerda e ela admite que chegou a ser membro do PartidoComunista Francês. Robert Guédiguian, também. "Ele se desligouem 1978, desiludido com o partido, eu, em 1980; o partido tevesempre figuras extraordinárias, grandes inteligências comoAragon, mas virou um fóssil." O mundo mudou muito, mas ela prefere acreditar que "umoutro mundo é possível", como foi o slogan do Fórum MundialSocial, em Porto Alegre, em fevereiro, ao qual esteve presenteGuédiguian. "Vou acreditar nisso até o último dia da minhavida; pode ser que não veja esse outro mundo diferente, mas issonão significa que ele não seja possível. Não podemos serindiferentes ao que ocorre ao nosso redor." Guédiguian tinha 14anos em Maio de 68. Costuma dizer que foi muito marcado por aqueles eventosextraordinários. Ela diz que tinha um pouco menos, mas não muitomenos, e viu, naquele maio mítico, a ´quase´ confirmação de umapromessa que sempre fez parte de sua vida. Acha que não énostalgia de velhos esquerdistas. Confessa que não apenas ela eGuédiguian, mas muita gente na França está de olhos postos noBrasil, que acaba de eleger um presidente de esquerda. Acha queLula tem uma tarefa difícil pela frente, mas considera que asociedade civil, que lhe deu essa quantidade incrível de votos,tem agora o compromisso de apoiá-lo no rumo da concretização daspromessas. "Mas eu não preciso vir dizer isso para vocês; vocêssabem." Revela seus segredos de atriz. Interpreta, em "A CidadeEstá Tranqüila" e "Marie-Jo", mulheres trabalhadoras. Quetipo de preparação ela fez? "Baseei-me em minha mãe, que tem operfil dessas mulheres", conta. Para aprender algumas funções,conversou com as mulheres que as desempenham na vida, mas dizque é uma atriz, não vai querer fazer como elas. "Possoinspirar-me para certos gestos essenciais, mas vou lá, observodurante cinco minutos ou meia hora, não posso pretender averacidade de quem vive aquilo." O gesto é essencial, dequalquer maneira. Mas para ela há outra coisa que é fundamental- os sapatos. "Quando preparo uma personagem, preciso sempre saber otipo de sapato que ela usa. A partir do sapato, construo umaidéia de vida e comportamento da personagem." A mãe de ACidade Está Tranqüila e Marie-Jo usam diferentes tipos desapatos. Havia, no atual filme, um desafio muito grande: a cenade sexo era fundamental para tornar Marie-Jo verossímil, masaparecer nua... "Tive apoio do meu companheiro de cena, porqueele também aparecia nu, pela primeira vez, na tela." Todo mundoé tão amigo que ela se sentiu mal, meio incestuosa, no set. Admite o que talvez seja um chavão: "Desnudar-me emcena foi difícil, mas pôr a nu os sentimentos de Marie-Jo foimais difícil ainda." Adora o filme. Não a incomoda nem o final,que tanta polêmica causou em Cannes. Há críticos que gostam dofilme até o final que lhes parece moralista. "Não discuto umfinal de Robert (Guédiguian). Crio a personagem, não souresponsável pelo roteiro." Mas diz que é absurdo: "Só quem nãoconhece Robert pode achar que aquilo é moralismo dele."

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