Musa da Nouvelle vague, Fanny Ardant estrela 'Os Belos Dias'

Ela vive dentista aposentada que se envolve com um professor de informática mais jovem

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

10 de outubro de 2013 | 19h59

Musa da Nouvelle vague, Fanny Ardant chegou à maturidade e faz papel de vovó. Mas de uma senhora da “melhor idade” muito cheia de vida e disposta a correr riscos. Em Os Belos Dias, de Marion Vernoux, ela é Caroline, dentista aposentada que, aos 60 anos, recebe de presente das filhas trintonas a matrícula num clube de terceira idade chamado Les Beaux Jours - traduzido literalmente para o título do filme em português.

No clube, Caroline tentará preencher seus dias aprendendo a fabricar potes, participando de peças de teatro, grupos de terapia e também tentando se atualizar no uso de computadores. Numa dessas aulas de informática, pinta um clima entre aluna e professor. Ela, tentando vencer o tédio e a dor da perda da melhor amiga, há pouco vitimada de câncer. Ele, um adicto de sexo, cheio de vida, com a idade aproximada das filhas de Caroline. O filme tem origem no livro Une Jeune Fille aux Cheveaux Blancs (Uma moça de cabelos brancos), de Fanny Chesnel, que também trabalhou como corroteirista.

Os Belos Dias se esforça para não cair na rotina das histórias de amores assimétricos pela diferença de idades. E, em boa parte, consegue driblar as obviedades desse tipo de história. Porque, se o desejo funciona em qualquer fase da vida, também é preciso admitir que diferenças grandes de faixa etária trazem problemas reais, que vão além dos preconceitos habituais. Estes existem, ainda mais quando a pessoa mais velha do relacionamento é a mulher. É aceitável que o homem maduro tenha uma amante jovem. O contrário é mais difícil de assimilar, sem que se encontre qualquer razão lógica para essa diferença de tratamento. Em todo caso, combater esse preconceito machista parece ser uma das preocupações de Os Belos Dias, mesmo porque é um filme dirigido por mulher e baseado em romance escrito por outra.

Sem evitar um ou outro clichê, Os Belos Dias não cede à tentação da pieguice ou do melodrama. Usa do bom humor, mas não evita as dificuldades. Os três envolvidos na história – mulher, marido, amante jovem – vivem seus conflitos da maneira como se pode prever. Caroline (Fanny Ardant) redescobre as alegrias da paixão e do sexo, mas não escapa à sensação de culpa. O jovem amante, Julien (Laurent Lafitte), seduzido por aquela mulher mais velha, não consegue evitar a tentação das mais jovens. E o marido de Caroline, Philippe (Patrick Chesnais), cheio de dignidade, tem de suportar um caso amoroso de sua mulher a uma altura da vida em que isso é considerado improvável. Em suma, há desejo, amor, e também sofrimento.

Nada que seja levado para o lado do trágico, pois, afinal, Os Belos Dias é apenas um simpático filme que toca em algumas questões difíceis, mas não nasceu para trazer qualquer angústia mais profunda ao público. A direção é simples, direta, sem complicações, e os intérpretes são ótimos. A começar por Fanny Ardant. Ela é uma bela sexagenária, mas a voz, sussurrada, é a mesma de quando deixou Gérard Depardieu alucinado em A Mulher do Lado, de François Truffaut. Isso em 1981.

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