Murilo Salles fala de ficção, documentário e da casa como personagem de 'O Fim e os Meios'

Cineasta invade as telas com três novas produções

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

03 de dezembro de 2015 | 05h00

Murilo Salles tem percorrido o Brasil fazendo debates sobre seu novo longa de ficção, O Fim e os Meios. No fim de semana, foi em Maceió - o filme passa-se no meio da política e o senador interpretado por Emiliano Queirós é alagoano. Na terça, 1.º, o debate foi em São Paulo e, quarta, 2, à noite, em Brasília. No encontro com o repórter, pela manhã, a pergunta era inevitável - ele não estava apreensivo de mostrar seu filme no Congresso, num momento tão explosivo da vida pública brasileira? “Tem gente que me cobra um tratado sobre a corrupção, mas essa nunca foi a intenção. Comecei esse filme há sete anos, antes de tudo isso (Petrolão, Lava-Jato...). Se tivesse feito um filme sobre a corrupção, ele estaria datado, seria mais ingênuo que é. Reduzo a corrupção do filme ao mínimo porque o que me interessa são as relações. Mas a tese permanece válida - a corrupção mata.”

O Fim e os Meios é um de três filmes de Murilo Salles que estão estreando nesta quinta, 3, na cidade. Os outros dois são documentários - Aprendi a Jogar com Você e Passarinho Lá de Nova Iorque. Antes que você comece a pensar que se trata de uma overdose de Murilo Salles, é bom considerar que o diretor, há tempos, andava fora de circuito, frequentando somente festivais. Seu retorno é bem-vindo, até porque se trata de um diretor talentoso, que curte a experimentação - de formas e gêneros - e que faz cinema para refletir o Brasil. Pergunte e ele vai responder que não é um pensador do Brasil, como Glauber. Não é um pensador macro, acrescente-se. Murilo Salles faz filmes que comem pelas bordas. O Fim e os Meios retrata o grande mundo da política da perspectiva do baixo clero, dos assessores. Aprendi a Jogar e Passarinho refletem o fazer da arte e da cultura do ponto de vista da periferia. 

Os filmes nasceram com esse propósito. “Queria refletir um pouco sobre essa produção cultural que antes era desprezada pela elite e hoje domina o mercado e atravessa as classes sociais. Aprendi a Jogar é sobre o DJ Duda e a cantora Milka Reis, que tentam estourar uma música. A dupla é de Samambaia, cidade satélite de Brasília, e rompe barreiras para atingir seu objetivo. Minha montadora descobriu que a música havia sido composta para um filme e isso nos levou a Passarinho, ao Cícero Filho, cineasta do interior do Maranhão que, também contra tudo e todos, tentava refazer uma cena de seu filme Flor de Maio.” 

Todos esses personagens - e filmes e situações - permitem que Murilo investigue duplamente a linguagem, e o País. Seu documentário se nutre da ficção, sua ficção é documental. Lá e cá, o que o move é a paixão do cinema. Ex-diretor de fotografia, ele admite que tem um prazer ‘quase sensual’ em armar os planos. E arma bem, como você vai ver. O Fim e os Meios tem locações em vários lugares do Brasil. Parece um filme caro, mas não é. No país em que o dinheiro parece estar indo para o ralo, a economia, transformada em ‘método’, não é a menor das qualidades de Murilo Salles.

Murilo Salles escreveu o papel de Cíntia Rosa em O Fim e os Meios para uma atriz branca. O filme é sobre esse casal que vai para Brasília - ela, como repórter na sucursal de um grande jornal; ele, como marqueteiro de um senador alagoano que tenta a reeleição. Mas Murilo não estava satisfeito com seu casal. Parecia... Ajustadinho demais? Num estalo, ele decidiu que a personagem seria negra. “Não mudei uma palavra do diálogo, mas só isso já subverteu a dramaturgia do filme. No debate do fim de semana, em Alagoas, o fato de ela enlouquecer de desejo pelo genro do senador esquentou os ânimos muito mais que o contexto da corrupção da história.”

Na trama, Cíntia se envolve tanto com o genro do senador (Marco Ricca) - sua ‘fonte’ - que chega a ser suspensa no jornal. Fazem sexo selvagem na casa dela, na ausência do marido (Pedro Brício). “É uma cena intensa que originou um debate vivo. Muita gente dizendo que foi estupro, e o curioso é que os homens pensaram isso mais que as mulheres. Elas aceitaram mais a erupção do desejo da Cíntia. De qualquer maneira, a conotação racial se impôs e virou um debate sobre a permanência da casa grande e da senzala na vida brasileira.” 

Em São Paulo, a presença de colegas cineastas no debate (Roberto Gervitz, Hermano Penna, etc.) realçou a discussão política, que Murilo não maximiza. “O filme não é sobre política nem corrupção, embora tenha ambos”, esclarece. “O filme é sobre relações e sobre gente. Não tem heróis. Todo mundo é um pouco bom e um pouco ruim porque a vida é assim, o mundo é assim. Não queria idealizar.”

Assim como faz seus documentários com equipe técnica reduzida, o diretor também gosta de pouca gente no set de suas ficções. “Na verdade, acho que as duas coisas estão interligadas. A montagem de um documentário pode ter muito de ficcional. E, da mesma forma, sinto que filmo minhas ficções com um documentarista.” Décadas depois, Murilo Salles faz uma revelação - “O jogo final de Todos os Corações do Mundo (seu documentário sobre a Copa do Mundo de 1994) é trucado. Em várias partidas, uso lances de diferentes jogos e nunca ninguém notou. Nada que adultere o que se passou, mas efeitos necessários à fluidez da montagem.”

E ele faz outra revelação. “Sou meio Dziga-Vertov”, e logo pede, ‘pelamor de Deus’ (“Vão me matar!”) que o repórter esqueça o que disse. Mas vale manter, não para denunciar a ‘presunção’ de Murilo, mas porque é o oposto. Ela faz parte de sua sinceridade, até humildade. “Muitas vezes, nem vou ao set de meus documentários e deixo que outros filmem. Sinto que minha presença constrange alguns entrevistados.” E ele conta que Leo, seu assessor, criou um clima de camaradagem com o DJ Duda (de Aprendi a Jogar com Você) e o cineasta Cícero Filho (de Passarinho de Nova Iorque) que seria quebrado, se ele estivesse o tempo todo no set. Seu documentário não é de intervenção, como era o de Eduardo Coutinho, por exemplo, mas de montagem. Tudo isso o público poderá conferir com a dose tripla de trabalhos do diretor, a partir desta quinta, 3, nos cinemas.

Quando se pergunta sobre seus temas, ele fala no singular. “É o Brasil.” Murilo não filma para ‘pensar’ o Brasil - “Sou cineasta, não sociólogo” -, mas para retratar o País. Agora mesmo, está num dilema. Vai fazer outro documentário sobre a vida que gravita na Baía de Guanabara. “Será um filme sobre essas pessoas anônimas, que comparo a escorpiões na areia. O título provisório é Baía de Guanabara, mas gostaria que fosse Utopia, porque é uma utopia dessas pessoas sobreviver em condições tão adversas.” Não será esse, também, o tema dos três filmes que estão estreando? Um jeito brasileiro? “É, cara, mas minha dúvida é se vou ao set, ou não. Se fico o tempo todo, ou não. Quero interferir o mínimo possível, deixar todo mundo à vontade.”

Seu trabalho, ele sabe, é na montagem, e nisso pensa como Stanley Kubrick, que dizia que cinema é montagem. Certo? Meia-verdade. Pois Murilo tem o olho do fotógrafo, que nunca deixou de ser. (Vai lançar um livro de fotografias no ano que vem.) Nunca Fomos Tão Felizes, seu longa de 1984, é um dos grandes filmes da história do cinema brasileiro. Aqueles suntuosos movimentos de câmera no apartamento deserto estão de volta na casa de O Fim e os Meios. A casa é uma personagem como o triângulo - a casa da qual a personagem de Cíntia se aliena, movida por um desejo tão intenso quanto, às vezes, brutal. “Cara, que bom que você está dizendo isso. Ninguém fala, mas é verdade. Os movimentos da câmera dentro da casa constroem o progressivo isolamento dela.” E Murilo completa - “A escolha das locações, para mim, é tão decisiva quanto o elenco.” Tudo bem, mas seu elenco, e Cíntia Rosa, é excepcional.

 

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