Guilherme Maia/Divulgação
Guilherme Maia/Divulgação

Murilo Benício filma ‘Divórcio 190’, finaliza longa como diretor e vem aí em série

Ator contracena com Camila Morgado no filme de Pedro Amorim e coestrela minissérie com Débora Falabella

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

10 Julho 2016 | 05h00

RIBEIRÃO PRETO - Murilo Benício sai correndo do meio da plantação e chega ao ponto em que Camila Morgado, de arma na mão, dispara contra seu carro – o carro do personagem. O repórter acompanha a cena pelo vídeo da produção. A composição do plano é horizontal, como num western. Vastas paisagens. No set, o calor é de derreter. Se fosse asfalto, daria para fritar um ovo, e no entanto é um sábado de inverno, mas é Ribeirão Preto. Calor senegalesco. Murilo transpira. “Estou adorando isso aqui”, ele confessa, durante a pausa para almoço. A cena filmada é de Divórcio 190, o novo longa de Pedro Amorim, diretor de Mato Sem Cachorro e Superpai. O primeiro, com Bruno Gagliasso, fez mais de um milhão de espectadores, o segundo não chegou à metade, mas também não foi nenhum fiasco. Com seu terceiro longa, Amorim, descobre outra paisagem para o cinema brasileiro (leia abaixo).

Nem são tantos filmes, como ator, no currículo. Mas Murilo Benício filmou com autores – Os Matadores, de Beto Brant, O Monge e a Filha do Carrasco, de Walter Lima Jr., Orfeu, de Cacá Diegues. Na TV, participou de novelas que fizeram história, incluindo a mítica Avenida Brasil, de João Emanuel Carneiro. Deveria fazer A Regra do Jogo, mas caiu fora. Que bola de cristal o advertiu de que não seria, nem de longe, o sucesso anunciado? “Não teve bola de cristal nenhuma, mas novela é uma obra coletiva. Se eu estou bem é toda uma equipe pegando junto para que isso ocorra. Não senti isso, esse esforço coletivo, mas é você (o repórter) dizendo que foi uma porcaria.”

Avenida Brasil foi importante na teledramaturgia brasileira. Foi decisiva para Murilo, mas por outro motivo. Débora Falabella e ele iniciaram o romance que todo mundo sabe. Continuam vivendo em casas separadas – ele mora no Rio, ela em São Paulo. Vivem na ponte aérea, mas Murilo constrói uma casa (no Jardim Botânico, no Rio) para abrigar as famílias, no plural. “Nós dois valorizamos muito família, filhos. Vamos juntar todo mundo.”

Débora coestrela com Murilo a minissérie Nada Será Como Antes, sobre a passagem do rádio para a TV, nos anos 1950, trama de Guel Arraes e direção de José Luiz Villamarim. “Não sei se o título final será esse, mas até onde sei a estreia é agora, depois da Olimpíada.” Ele gostou muito de fazer. “O Zé (Villamarim) tem sido parceiro. Foi um dos diretores de Avenida Brasil, fizemos Amores Roubados. A série é engraçada. Tem todas as trapalhadas de uma TV que ia se descobrindo, e tem um romance bem bonito entre Débora e eu.” Débora também estrela o longa de estreia de Murilo Benício na direção – O Beijo no Asfalto. O cinema já adaptou duas vezes a peça famosa de Nelson Rodrigues. “Minha busca era ter o Nelson numa leitura bem simples, sem edição nenhuma, à procura de uma linguagem minha”, explica. O Beijo fez sensação, na origem, por causa da homossexualidade embutida na trama. Um homem é atropelado, está morrendo e pede um beijo ao sujeito que o socorre. O beijo vira motivo de escândalo, e Lázaro Ramos, que faz Arandir, tem a vida virada pelo avesso. No melhor estilo de Nelson, as paixões são intensas e desencontradas. Selminha, a mulher de Arandir, confunde-se com a suposta homossexualidade do marido. Sua irmã – a cunhada – o deseja, bem como o pai de Selminha. Sim, o sogro!

Na declaração acima, Murilo fala de uma linguagem dele para abordar o universo de Nelson. Que linguagem é essa? “Não quis simplesmente adaptar a peça, refazendo os filmes anteriores. Por melhor que fizesse, outros já teriam feito. Na minha versão, um grupo de atores faz leituras para encenar a peça. Também não estou inventando. Al Pacino já fez isso com o Ricardo III de Shakespeare e, antes dele, houve Tio Vânia em Nova York, do (Louis) Malle. Já montei a narrativa realista do texto, agora vou desconstruir com o documentário sobre os atores. Tenho bastante material e, por conta disso, a montagem definitiva ainda tarda um pouco. Recomeço quando terminar aqui (a filmagem).”

Num encontro na redação do Estado, Lázaro Ramos havia cantado a bola para o repórter. “Ele (Murilo) disse que botou dinheiro do bolso para fazer o filme?” Sim, ele disse. “Não tenho vocação para sair pedindo dinheiro. Entrei num edital, fui aprovado, mas o dinheiro, feitos uns descontos, seria muito menos que preciso. A Débora (a mulher) foi uma que me incentivou a filmar logo. Botei dinheiro meu.” O primeiro longa como diretor ainda nem está pronto e Murilo pensa no outro – vai adaptar a peça Pérola, de Mauro Rasi. “Vi a montagem (com Vera Holtz) e me marcou. Trabalho na adaptação, mas não será como O Beijo.” Débora Fallabela será a atriz? “Não, que é isso? Não somos esses casais grudados, que só trabalham juntos.” Quem, então? “Estou fechando com a Drica Moraes.”

Sobre Divórcio 190, Murilo revela animação. “O roteiro é muito bom, tem uma pegada de humor de irmãos Coen. É uma comédia de ação, mas o humor é denso, tratado como drama. Acho que pode surpreender.” Sobre o colega diretor, é todo elogios. “Pedro (Amorim) sabe o filme que está querendo fazer. Camila e eu fazemos um casal que vai para a guerra, uma coisa meio Sr. e Sra. Smith.” Sobre dirigir-se a si mesmo, descarta, pelo menos por ora. “É muito difícil. O que sei é que virar diretor me deu outra percepção das dificuldades de um set”, acrescentou Benício.

'Divórcio 190' aposta no entretenimento de qualidade

A paisagem parece de western, como nos filmes dos irmãos Coen. Pense em Fargo, Onde os Fracos Não Têm Vez. Um vasto cenário horizontal, mas não é nenhuma planície. Uma plantação de tomate. Terra vermelha. “Estou aqui como diretor contratado”, conta Pedro Amorim, que já fez Mato Sem Cachorro e Superpai. O fato de o projeto não ter nascido dele não significa que seu envolvimento seja parcial. “Uma coisa que me atraiu no convite do Tuba (o produtor LG Tubaldini Jr.) foi o fato de a ação sair do eixo (Rio/São Paulo) para revelar o interior do Brasil.”

Murilo Benício e Camila Morgado fazem casal que começa do nada. Viram o Rei e a Rainha do Tomate. Tiveram de substituir os SSs por RRs. “Aqui (em Ribeirão) tem muito dinheiro”, reflete o produtor no set. Na trama, com o tempo, o casal se afasta. Um incidente banal causa a separação, e a guerra. Com roteiro de Paulo Cursino, o humor mira nos irmãos Coen, o que pode parecer ambicioso, mas é real. Camila não deixa por menos. “Fiz minha lição de casa e incorporei um toque de David Lynch, o estranhamento de Coração Selvagem.”

O produtor faz as contas. “As pessoas estão pensando duas vezes antes de ir ao cinema. Com ingresso, pipoca, refrigerante e estacionamento, sai muito mais caro que a mensalidade da Netflix.” Sua aposta é entretenimento de qualidade, para motivar o público. Aguarde por Divórcio 190.

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