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Mundo estaria perdido caso todas as mulheres fossem como a protagonista de ‘A Filha Perdida'

Filme reforça o dito popular de que ser mãe é ‘padecer no paraíso’ e estar 24 horas por dia à disposição dos filho

Dirce Waltrick do Amarante, Especial para o Estadão

26 de janeiro de 2022 | 16h00

Neste início de ano, dois filmes lançados na Netflix causaram frisson nas redes sociais e desencadearam inúmeras análises em jornais e revistas: a comédia satírica Não Olhe Para Cima, do norte-americano Adam McKay, e o drama, ou dramalhão, A Filha Perdida, da também norte-americana Maggie Gyllenhaal. Este último é uma adaptação do livro La Figlia Oscura (A Filha Perdida, na tradução brasileira), da festejada escritora italiana Elena Ferrante.

Vale lembrar aqui Linda Hutcheon, para quem “talvez devêssemos pensar o fracasso de certas adaptações não em termos de fidelidade a um texto anterior, mas de falta de criatividade e habilidade para tornar o texto adaptado algo que pertence ao seu adaptador e que é, portanto, autônomo”. Não li o livro de Ferrante, portanto, falarei do filme como obra autônoma, destacando a figura da mãe, ao redor da qual orbita todo o seu enredo e que foi evidenciada nas críticas a respeito dele, principalmente por mulheres e mães que se viram representadas pela protagonista: uma mulher de 48 anos, professora de literatura e tradutora, mãe de duas moças, que foram abandonadas por ela quando crianças e deixadas aos cuidados do pai por três anos. Embora a progenitora tenha voltado ao lar, esse lapso maternal a marcou para sempre e essa lembrança vem à tona enquanto ela passa férias na Grécia e observa uma mãe com uma filha na praia.

Tratando-se de ficção, não se pode esperar um realismo extremo, mas no filme tudo parece muito forçado e risível. A professora chega à Grécia, nos dias de hoje, com uma mala cheia de livros, segundo informa ao carregador, mas não leva o computador e parece não abrir a tal mala. Se abrisse, certamente, o filme seria mudo, pois em uma parte do tempo ela estaria lendo e em outra parte traduzindo ou escrevendo. Aliás, a vida acadêmica é retratada de forma caricata e os clichês são tantos que conseguiriam constranger um estudante na primeira fase de qualquer curso.

No passado, a protagonista, já casada e mãe de duas meninas, se apaixona por um professor, depois de assistir a uma palestra proferida por ele. Na sua fala cheia de gracinhas, o mestre cita nomes de pensadores, teóricos e escritores que não estão ligados a um tema específico, e, depois, recita um poema para ela, que, embora tenha um sentido, dentro de um filme feminista, parece reforçar apenas seu pedantismo acadêmico. Mas, ainda assim, essa moça tão inteligente se apaixona por ele. Eis o primeiro sinal de que ela não está bem.

 Mas vejamos a figura das mães do filme. Numa praia paradisíaca, a protagonista de repente se vê retratada em outra mãe acompanhada da filha. Só ali, naquele momento, depois de anos, ela revê sua história. Parece estranho ela ter se fixado nessa mãe particularmente como se nunca tivesse cruzado com outras mães com filhos ao longo de sua trajetória, como, por exemplo, as alunas da universidade onde leciona e que estariam tão mais próximas da história dela. Essa mãe na praia não trabalha, desfruta o sol e está em busca de realização sexual, algo que a protagonista, quando tinha a idade dela, também buscava.

Além disso, outro ponto em comum entre essas duas mães é o fato de serem pequeno-burguesas. A Filha Perdida fala, parece-me, de e para mulheres pequeno-burguesas que trabalham porque querem, por satisfação pessoal, não porque precisam sustentar a família. Concomitantemente, cuidam dos filhos e da casa. Elas sofrem de uma espécie de “problema sem nome”, como se denominou no século passado a angústia sofrida pelas mães donas de casa dos subúrbios norte-americanos, tema do livro A Mística Feminina, de Betty Friedan.

A propósito, as filhas da protagonista estavam sempre em casa com ela. Pergunto se não iam ao jardim de infância. Ou será que os pais eram a favor do ensino domiciliar? As mães, por mais culpadas que se sintam, quando deixam os filhos no colégio sentem um certo alívio e uma sensação de dever cumprido. 

As mães com recursos financeiros costumam deixar os filhos com as babás. De modo que todas aquelas atividades mencionadas acima podem ser realizadas praticamente sem culpa (onde há uma mãe, há culpa) a qualquer momento. Basta chegar em casa e fazer um agrado aos pequenos ou levar presentes para eles, como o fez a protagonista do filme, quando retornou de uma viagem. 

O que dizer das mães sem recursos financeiros que são obrigadas a trabalhar com ou sem a ajuda dos maridos para sustentar a prole? Muitas dessas mulheres deixam seus filhos em casa, por vezes sozinhos, para ir cuidar dos filhos de outras mães. Não poucas deixam os filhos pequenos com tias, mães, etc., para tentar a vida em outra cidade, com o sonho de mais tarde mandar buscar a prole. Quanto de culpa elas carregam? Teriam tempo para pensar em culpa ou estariam mais preocupadas com a sobrevivência dos filhos? Os filhos ficam traumatizados? 

No filme, algo que chama a atenção é o comportamento das crianças. As filhas da protagonista não param de gritar nem mesmo quando ela está ao telefone ou trabalhando. A menininha da praia perde a sua boneca e deixa a mãe desesperada por dias. O que acontece com essas mães que não conversam com os filhos? A protagonista, tão inteligente, poderia conversar com as meninas, acreditando que elas, mesmo crianças, são capazes de entender. Talvez a mãe pudesse ler um texto de Adorno em que ele compara a inteligência das crianças às antenas do caracol.

Essa mãe à beira de um ataque de nervos poderia explicar que ela gosta de estudar, de trabalhar e que, quando ela estiver trabalhando, elas não podem ficar interrompendo-a toda hora. Poderia inventar uma atividade para fazerem enquanto ela estiver trabalhando; e também ensinar respeito e limites. O mesmo serve para a mãe da menina que perdeu a boneca, que deveria conversar seriamente com a filha. Essas mães são reféns dos filhos, porque acreditam que estar disponível para eles 24 horas por dia é uma forma de amor, porque foram ensinadas a pensar assim. Foram ensinadas também que ser mãe é padecer no paraíso, de modo que não podem sentir prazer, a menos que ele esteja relacionado às suas crias. O filme parece reforçar esse dito popular. Está aí a grande discussão que ele levanta. 

A propósito da boneca, a protagonista leva o brinquedo para a sua casa, furta o objeto da menina, mesmo sabendo do desespero da criança. O fato de ela levar consigo uma boneca, interagir com ela e escondê-la no armário da cozinha é uma prova concreta de que essa mulher precisa de ajuda, ela não representa todas as mães nem mesmo as pequeno-burguesas; se representasse, o mundo estaria perdido. Se os espectadores pensarem que todas as mulheres são de fato assim, logo iremos, na primeira tensão pré-menstrual, para o sanatório.

Essa protagonista está doente e não se importa se vier a matar alguém... sem spoiler.

 

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