Mundo do cinema volta sua mira contra o capitalismo e a crise

O comunismo e o terrorismo disputaram durante anos o título de vilão favorito do cinema. Agora o capitalismo, tendo como assistente malévolo a globalização, parece estar disposto a arrancar deles esse lugar. Pelo menos 11 dramas e documentários exibidos no Festival de Cinema de Berlim deste ano lançam um olhar sobretudo crítico sobre o mundo dos bancos e das grandes empresas, a disparidade às vezes chocante entre ricos e pobres e a realidade áspera das migrações econômicas. Ao questionar a ideia longamente tida como natural no Ocidente de que o livre mercado é o caminho para o progresso e a globalização é uma força para o bem, os filmes encontraram eco junto a plateias cada vez mais céticas, cientes da tempestade econômica que está se agravando no mundo real. O Festival de Berlim, que todos os anos destaca centenas de filmes novos, foi aberto este com "Trama Internacional", thriller estrelado por Clive Owens e Naomi Watts. Ao apontar como vilão um banco que manipula dívidas no mercado, o filme deu o tom do festival. Para seu diretor, Tom Tykwer, o fato de o filme ter se antecipado à realidade econômica acabou sendo uma coincidência lamentável. "O fato de a bolha financeira ter se rompido no momento em que o filme está sendo lançado é algo que não me deixa feliz. É deprimente", disse ele. Como outros em Berlim, o cineasta alemão tinha consciência da ironia do fato de seu filme ter sido feito com dinheiro de uma grande instituição financeira, admitindo que "é quase impossível rastrear a origem real do dinheiro". Críticos acham que, ao tratar da crise econômica, os diretores estão levando adiante o tipo de cinema político que ganhou força no final da presidência de George W. Bush, marcada por filmes sobre questões como a guerra do Iraque e a saúde pública. "Eu diria que o cinema já estava bastante político, especialmente a partir do final do mandado de Bush", disse Jay Weissberg, da publicação especializada Variety. "As pessoas estavam iradas com a situação e havia um clima de solidariedade no ar, então foi fácil fazer filmes sobre isso. Acho que será a mesma coisa com a crise econômica."

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.