Mundo de descobertas

Julie Delpy fala ao ‘Estado’ sobre seu novo filme, em que trata de juventude

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

19 de agosto de 2013 | 18h09

Você pode vê-la como a coroa desejável que discute a relação em Antes da Meia-noite, terceira parte da série que começou com Antes do Amanhecer e que o diretor Richard Linklater gostaria de continuar. A cada dez anos, ele tem reunido seus atores – e corroteiristas – para seguir adiante com a história desse casal. Até agora foram três filmes e Julie Delpy – ela! – e Ethan Hawke têm sabido encarnar as diferentes fases de um casal. O ardor da juventude em Antes do Amanhecer, as primeiras crises do casamento em Antes do Pôr do Sol e a maturidade em Antes da Meia-noite.

Eles são ótimos, Julie e Hawke, e o público está correspondendo. Julie, na próxima sexta, revela – ou confirma – outra faceta de seu talento. Ela escreve e interpreta (de novo), mas também dirige O Verão do Skylab e o filme é muito simpático. Julie conversou com o repórter pelo telefone. Havia a expectativa de que a entrevista pudesse ser feita via Skype também para TV Estadão, mas Julie desculpou-se. Estava mal, havia vomitado. “Estou acabada”, disse. Mas manteve a entrevista sem imagem porque, como acrescentou, “não vou ter tempo de falar depois”.

Antes de comentar a parceria com Linklater e Hawke, porque ela também falou de Antes da Meia-noite, Julie falou da carreira e do processo de O Verão do Skylab. Uma boa, embora um pouco triste, entrada para o longa foi o fato de Bernadette Laffont, que faz a matriarca, haver morrido um dia antes de o repórter assistir ao filme, que estreia no dia 30. “Bernadette era formidável, uma pessoa incrível, além de ser um ícone que evocava todo um período do cinema francês de autor. Ela começou com a nouvelle vague e filmou com Claude Chabrol e François Truffaut, e depois participou de outros grandes momentos do cinema da França, com Jean Eustache, com quem fez um filme essencial e visceral, A Mamãe e a Puta.”

O repórter conta que teve o privilégio de se encontrar com Bernadette em Paris, após o Festival de Cannes, em maio. “Ela lhe contou como foi recebida em Cannes ao mostrar La Mamain et la Putain?” Sim, Bernadette fez tantos filmes ousados, expondo sua beleza e sensualidade, que toda a imprensa esperava vê-la no outro papel, não no da mãe. “Ela achava a maior graça da história e ria muito quando a contava. Tomei um choque quando soube de sua morte, porque em meu filme há essa cena em que a netinha vai dar boa-noite à vovó como quem se despede, caso ela morra. Revi a cena no meu imaginário. Bernadette a representou com justeza, e agora se foi. Mas ficou em todos aqueles grandes filmes”, reflete Julie.

Skylab remete a experiências de sua pré-juventude, quando passava temporadas com a família na praia. Crises familiares, o despertar do sexo, engajamento político – e tudo isso sob a ameaça do Skylab que ameaça despencar sobre a Terra. “O filme é muito simples, mas confesso que também é ambicioso. Queria falar sobre tudo, num sentimento de urgência, como se duvidasse que fosse fazer outras coisas e quisesse deixar uma marca. A divisão esquerda/direita ficou ainda mais aguçada na sociedade francesa, e quanto ao sexo...” O repórter interrompe – Julie não teve problemas de censura? A menina vai com o pai à praia de nudismo, depois perde (acidentalmente) a virgindade.

“Entendo o que você quer dizer, mas procurei fazer o filme com sensibilidade e tato, justamente para não carregar nessas coisas e os produtores me apoiaram em minhas escolhas e decisões. Mas você tem razão. Nos EUA, teria tido problemas. Seria acusada de pedofilia.” Kryzstof Kieslowski foi muito importante na carreira de Julie Delpy e a pergunta se impõe – como foi fazer com ele A Igualdade É Branca? “Tenho uma participação também em A Fraternidade É Vermelha, mas o papel grande é em A Igualdade. O encontro com Krzystof foi decisivo para mim. Ele viu a minha intimidade como nenhum outro diretor, nem Richard (Linklater). E Krzystof me incentivou a virar diretora. Ele sabia que eu escrevia. Disse que eu colocasse minhas ideias no papel, na tela. Que não tivesse medo.”

Sobre a série com Ethan Hawke, jura que não é autobiográfica e também que nunca teve um caso com o ator. “Foi uma combinação rara. Richard (o diretor) nos deu carta branca para criar o filme com ele. Todos projetamos nossas histórias e o sucesso do primeiro filme levou aos outros dois. Não nos frequentamos, mas quando reencontro Ethan a conversa recomeça como se tivesse terminado ontem. É a verdadeira amizade, e a amizade, sob certos aspectos, conta mais que o amor. Não é fácil ter amigos para sempre, mas é a sensação que tenho.”

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