'Mulheres sem Homens' revela a luta pela democracia no Irã

Belo filme da diretora Shirin Neshat conta de modo delicado a vida de quatro mulheres no Irã dos anos 50

Flávia Guerra, de O Estadod e S. Paulo,

10 de setembro de 2009 | 15h27

A diretora iraniana Shirin Neshat usa verde em sinal de protesto contra o presidente de seu país, Mahmoud Ahmadinejada, acusado de fraudar as últimas eleições. Foto: Reuters

 

VENEZA - Sob mais de dez minutos de aplausos, a diretora iraniana Shirin Neshat agradeceu ao público que lotou a Sala Grande do Festival de Cinema de Veneza, após a exibição de seu filme Zanan Bedoone Mardan (Mulheres sem Homens). O filme, que conta de modo delicado e até mesmo surreal a vida de quatro mulheres no Irã dos anos 50, teve recepção mais que positiva durante a sessão de gala. O longa, que concorre ao Leão de Ouro, mostra, em paralelo, o período em que um golpe de estado, que teve apoio inglês e liderança norte-americana, derrubou o então governo democrático e restituiu o poder ao xá.

 

De manhã, a recepção da imprensa já havia sido emocionante. Diretora e equipe fizeram questão de usar lenços verdes em apoio ao movimento atual contra o atual presidente do país, Mahmoud Ahmadinejad, acusado de fraudar as últimas eleições.

 

Ao fim da sessão de gala, Shirin voltou a repetir que fez seu filme para que o mundo veja que o povo iraniano quer lutar pela democracia e pela liberdade. "E sobretudo as mulheres sempre lutaram por estes valores. Não importa o período, mostrar que a liberdade e a democracia são algo muito importante para os iranianos. Mais uma vez o verde deu o tom à sessão mais emocionada e emocionante do festival até agora.

 

Vale lembrar que, ainda que se passe em 1953, Mulheres sem Homens revela acontecimentos que influenciam até hoje a história do Irã. Após os golpe, o país se encaminhou para a Revolução Islâmica de 1979. Tal fato, por sua vez, conduziu o país ao governo de Ahmadinejad. "É até irônico como tudo foi uma coincidência. Mas de fato as cenas da repressão naquele 1953 são muito parecidas com as do último verão", comentou Shirin. "Há um século os iranianos lutam contra ditadores, que mudam de forma e ideologia. E tanto naquele período quanto hoje, nós mulheres somos símbolos desta batalha. Jamais esqueceremos a estudante Neda, que foi assassinada em pleno protesto, na frente do mundo todo", disse ela à plateia. E finalizou: "Nossa luta continua. E espero que este filme seja testemunho disso."

 

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