Columbia Pictures
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Mulheres os produziram, cinéfilos e críticos gostaram, mas elas não foram indicadas

As mulheres avançaram muito em Hollywood desde 2017, quando movimentos como o #MeToo e Time’s Up se propagaram – mas talvez o setor cinematográfico, ainda predominantemente masculino, esteja tentando pisar no freio

Nicole Sperling e Brooks Barnes, The New York Times

01 de janeiro de 2020 | 06h00

LOS ANGELES — Elizabeth Cantillon trabalha em Hollywood há três décadas, primeiro como executiva na Sony Pictures, onde ajudou a gerir a franquia de James Bond e agora como produtora. Em outras palavras, ela viu de tudo. Mas a atual corrida para o Oscar deixou-a boquiaberta. Onde estão as mulheres?  

“É como O Império Contra-ataca”, disse Elizabeth, depois de diretoras e atrizes de filme ficarem amplamente ausentes da lista de indicados ao Globo de Ouro. O Screen Actors Guild também agiu similarmente, deixando de fora Adoráveis Mulheres de Greta Gerwig e The Farewell de Lulu Wang. E a previsão é de que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas também ignorará as cineastas quando as indicações ao Oscar forem anunciadas em 13 de janeiro.

As mulheres avançaram muito em Hollywood desde 2017, quando movimentos como o #MeToo e Time’s Up se propagaram – mas talvez o setor cinematográfico, ainda predominantemente masculino, esteja tentando pisar no freio, disse Elizabet Cantillon, que é membro da Academia desde 2017. “Acho que houve apoio à resistência e depois acharam que não se devia ir tão rápido”.

Para as pessoas que têm este mesmo ponto de vista – e há muitas em Hollywood, tanto homens como mulheres – a falta de tração no caso das mulheres cineastas nesta temporada de prêmios é particularmente irritante porque há muitas candidatas de valor.

 The Farewell, filme dirigido e escrito por Lulu Wang, e Booksmart, com Olivia Wilde estreando na direção, receberam críticas melhores do que os três principais filmes candidatos ao Oscar: Era uma vez em Hollywood, de Quentin Tarantino, História de um Casamento, de Noah Baumbach, e O Irlandês, de Martin Scorsese.

As Golpistas, de Lorene Scafaria, estrelado por Constance W e Jennifer Lopez, contabilizou uma bilheteria de US$ 150 milhões em todo o mundo e forneceu um relato convincente da crise financeira. Queen & Slim, o thriller de Melina Matsoukas, nos ofereceu uma nova diva na figura de Joedi Turner-Smith e uma nova linguagem para discutir a experiência negra.

Adoráveis Mulheres, filme escrito e dirigido por Greta Gerwig, é uma nova visão subversiva de um romance clássico.

Há vários de uma dezena de filmes tendo mulheres diretoras à frente que seguramente estão entre as 100 maiores bilheterias de 2019, um aumento de 10% em relação à norma dos últimos 12 anos e uma grande melhora em comparação com a porcentagem de 3,6% no ano passado. A frustração com a ausência de mulheres nas discussões sobre melhor diretor aumentou com a marginalização de mulheres em filmes como O Irlandês, que tem uma duração de três horas e meia, mas com pouco espaço para personagens femininas atuarem, salvo para fumar e na posição de meras espectadoras. (A frase de Anna Paquin em O Irlandês vale uma busca no Google).

Indagado por que Margot Robbie tem tão poucas intervenções em Era uma vez...em Hollywood, Quentin Tarantino descartou a pergunta. As mulheres existem à margem no filme Uncut Gems, com Adam Sandler no papel de um contrabandista de diamantes cheio de adrenalina. O filme Richard Ewell de Clint Eastwood, sobre um ataque à bomba durante os Jogos Olímpicos de 1996, tem uma repórter (interpretada por Wilde, oferecendo sexo para um agente do FBI em troca de informação). O drama Ford versus Ferrari é a história de dois homens. O Farol, um thriller em branco e preto, também é a história de dois homens. Os Dois Papas, é a história de dois homens. Um Lindo Dia na Vizinhança também é uma história de dois homens (mas pelo menos foi dirigido por uma mulher, Marielle Heller).

“Existe uma crença de que histórias sobre homens são mais importantes do que aquelas sobre mulheres”, disse Amy Pascal, ex-chairwoman da Sony Pictures e a força por trás da produção de Adoráveis Mulheres. “Não acho que isto é verdade. E não acredito que isto torne algum filme mais comercial.”

Algumas pessoas também estão espantadas com o grande número de filmes candidatos ao Oscar que mostram homens (brancos) lamentando as mudanças ocorrendo no mundo.

“Não sou mais relevante” (diz o assassino interpretado por Robert De Niro em O Irlandês). “Sou muito velho para carros de corrida (Christian Bale em Ford versus Ferrari). “Sou um ator acabado” (Leonardo de Caprio em Era uma vez...em Hollywood). “Nova York se tornou um lugar horrível" (Joaquin Phoenix em Joker). “Sou a vítima neste divórcio" (Adam Driver em História de um Casamento).

Esta é uma manifestação do “pânico masculino – a necessidade de proteger seu campo”, como perguntou Peter Bart, editor do Deadline.com numa coluna de 23 de novembro?

Toda temporada de prêmios é imperfeita de algum modo – às vezes de vários modos. (Os próximos Oscar podem reconhecer algumas atuações de artistas asiáticos, mas também poderá não ter candidatos negros). E não é provável que isto mude diante do caráter muito imprevisível da produção de filmes, o que foi lançado nos cinemas, quando e quem toma essas decisões.

Sasha Stone, que dirige o Awards Daily, um site de entretenimento, viu-se na posição de defender os eleitores do Globo de Ouro esta semana. “Escolham uma mulher, qualquer filme de uma mulher parece ser a mensagem. Muitas vozes influentes se recusam a aceitar a possibilidade de que os cinco melhores filmes do ano foram dirigidos por homens.”

Mas Stacy L. Smith, professor da Universidade do Sul da Califórnia, que fez do estudo dos preconceitos de gênero na mídia o trabalho da sua vida por meio da Annenberg Inclusion Initiative, vê a situação de maneira diferente.

“As indicações ao Globo de Ouro são um manual ilustrativo do viés de liderança. Temos um ano em que as mulheres foram muito aclamadas, em que elas estão mostrando suas proezas angariando grandes bilheterias e onde há um número maior delas, de maneira que não se pode afirmar ali não há aí um pool de talentos.”

E acrescentou: “As mulheres não eram consideradas porque o modelo do que significa ser um líder, ou um diretor, é de caráter masculino, e se trata de colocar no topo histórias dirigidas por homens”.

Ao contrário da Hollywood Foreign Press Association, o pequeno grupo (88 membros votantes) por trás do Globo de Ouro, A Academia vem trabalhando ativamente para mudar sua demografia, observou Smith. A Academia admitiu milhares de novos membros nos últimos três anos, com ênfase nas mulheres e pessoas de cor.

Mas o grupo que vota no Oscar (nove mil profissionais de cinema) continua 68% masculina e 84% branco, segundo dados da academia.

Neste ponto, muitos dos que fazem prognósticos para os Oscars – Anne Thompso, do Indiewire, Glenn Whipp do Los Angeles Times, Tim Gray, da Variety - estão prevendo que a academia indicará apenas homens para a categoria de melhor diretor. Outras poderão ser similares. Os candidatos à frente para roteiro adaptado são todos homens, com exceção de Greta Gerwig, segundo o Gold Derby, site que faz prognósticos dos prêmios. Somente uma mulher, Lulu Wang, está entre os favoritos na categoria de roteiro original.

As mulheres competem nas categorias de penteados e make-up. Mas um homem é o favorito nessa disputa (Kazu Hiro, pelo make-up de efeitos especiais em O Escândalo).

Enquanto o Screen Actors Guild aplaudia filmes de cineastas masculinos com suas indicações, as mulheres mais poderosas em Hollywood se uniam no café no evento Women in Entertainment, do The Hollywood Reporter.

O tema tácito era irmandade. Reese Witherspoon proclamou seu alívio de que seus dias de ser a única mulher num set de 150 homens foi graças à sua influência como produtora e sua realização que durante grande parte da sua carreira foi isolada de outras mulheres. E Wilde, que dirigirá uma comédia para a Universal Pictures como sequência de Booksmart, deu o pontapé inicial nas festividades com um discurso em que citou nomes de um grupo de cineastas que a inspirou este ano, incluindo todas as mulheres mencionadas acima, além de Alma Har’el (Honey Boy), Ava DuVernay (Olhos que condenam) , Elizabeth Banks (As Panteras) e Laure de Clermont-Tonerre (The Mustang).

“Hollywood está derrubando os portões e os abrindo para nós entrarmos”, disse ela.

Quem dera todas as instituições que realizam premiações fizessem o mesmo.

Tradução de Terezinha Martino

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