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Mulheres negras são as super-heroínas das necessidades do mundo

No filme 'The Old Guard' e na série 'Watchmen', mulheres negras são um novo tipo de herói, não só rompendo com o modelo vigente, mas também permitindo uma mudança radical da narrativa

Maya Phillips, The New York Times

19 de agosto de 2020 | 10h00

Um playboy bilionário branco passa suas tardes combatendo os malvados usando capa e máscara. Um estrangeiro branco trabalha como jornalista, mas abandona seu trabalho para lutar e eliminar os vilões da cidade.

Tradicionalmente os super-heróis se inserem num modelo previsível: homens brancos que se tornam baluartes da justiça. No recente filme da Netflix, The Old Guard e na série da HBO indicada ao Emmy, Watchmen, mulheres negras são um novo tipo de herói, não só rompendo com aquele modelo, mas também permitindo uma mudança radical da narrativa.



A nova guarda de super-heróis não significa apenas diversidade, mas abre espaço para a possibilidade de que, especialmente hoje, com as nossas instituições e sistemas políticos sendo questionados, não existir nenhuma autoridade moral absoluta, mesmo para aqueles com a tarefa de solucionar os problemas. E apresenta indivíduos melhor equipados para compreender o peso do seu emblema e da sua máscara e a responsabilidade de um indivíduo que se qualifica como herói.

Em The Old Guard, um grupo de imortais é liderado pelo mais velho deles (uma fascinante Charlize Theron), uma combatente de olhar frio e agressiva. Na sua corrida pelo mundo eliminando os malvados, o grupo recebe um novo membro, uma fuzileira naval chamada Nile (KiKi Layne).

Quando encontramos Nile, ela está operando no Afeganistão, distribuindo doces para crianças na rua. Recebendo ordens para obter informações sobre um local onde um sujeito perigoso pode estar escondido, ela lembra seus colegas soldados para “manterem respeito”. Ela atinge o alvo, mas é visivelmente afetada quando ele sobrevive. Imediatamente, ela corre para estancar o sangue, mas fica vulnerável a um ataque de faca fatal, do qual se recupera milagrosamente.

Filmes e séries de TV adoram um novato otimista e a jovem e simpática Nile certamente o é. Mas sua etnia também a insere num outro clichê. Mulheres negras com frequência são apresentadas como estandartes de ação ética. Elas presenciam erros da justiça e silenciosamente suportam a dor ou valentemente revidam; de qualquer maneira são a resiliência e a bondade personificadas. O que nos transporta também para as narrativas do super-herói: lembremos de Misty Knight em Luke Cage, Tempestade nos filmes de X-Men, e mesmo à Okoye de Pantera Negra.



Embora as mulheres negras sejam raramente protagonistas dessas séries, com frequência são pilares de força e a base moral da equipe. Em The Old Guard, Nile é a novata de olhar brilhante e a força moral e assim serve como um complemento de Andy e os outros.

No ano passado Watchmen também terminou com a iniciação de uma heroína negra, mas ofereceu um exame mais complexo da sua relação com a polícia, o heroísmo e o fazer a justiça com as próprias mãos. No quadrinho original que leva o mesmo nome, Alan Moore e David Gibbons produziram uma história belíssima, mas não apresentaram nenhum herói de cor e nem abordaram o tema da raça.

A série da HBO, criada por Damon Lindelof como uma sequência da original, é reacionária, posicionando a narrativa em torno da raça e apresentando uma heroína negra como protagonista: uma policial chamada Angela Abar (Regina King) que se vê envolvida no mundo dos super-heróis e numa trama megalomaníaca pelo poder definitivo.

 


Depois de se tornar imortal, ser rejeitada por seus pares militares, Nile, em The Old Guard,  é marginalizada por um Exército com uma história ambígua moralmente de atrocidades, interferência estrangeira e agendas políticas e se torna a mais nova combatente de um outro Exército que também é ambíguo moralmente, mas racionalizado no universo do cinema. Angela, ao contrário, rompe com a polícia e seu histórico de comportamento racista; atuando independentemente, de acordo com sua própria moral, ela se torna divindade.

A questão não é se ela fica infalível, mas é uma mulher que encontrou poder fora de uma estrutura fraturada. Embora isto e a sua identidade não a tornem irrepreensível, suas experiências como uma mulher negra, policial e depois fazendo justiça com as próprias mãos dão a ela uma compreensão mais nuançada de justiça. Ela tem potencial para ser um herói ainda maior do que alguns que temos visto.

 


Tanto The Old Guard como Watchmen apresentam universos fascinantes com seres poderosos que querem fazer as coisas certas. Mas mesmo nesse mundo supostamente protegido a justiça não é uma dádiva. O personagem mais ajustado para trazer mudança é aquele que conhece o sistema por dentro e por fora e entende o que significa ser esmagado por ele. Essas mulheres negras não são perfeitas, mas são precursoras de uma revolução heroica. Porque quando uma mulher negra coloca uma máscara ela é a imagem mais próxima do tipo de herói que mundo realmente necessita.



TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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