Div
Div

Mulheres dão o tom da Mostra neste sábado

Yoani Sánchez é tema de documentário que acompanha sua conturbada passagem pelo Brasil; Deborah Secco põe tudo abaixo em 'Boa Sorte'

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

18 de outubro de 2014 | 03h00

Deborah Secco é arrasadora como a drogadita de Boa Sorte. No filme de Carolina Jabor, ela já é interna no instituto psiquiátrico para o qual os pais enviam o personagem de João Pedro Zappa. Ele se apaixona por ela. Está a ponto de destruir-se. O que Deborah – sua personagem – faz é o elemento diferenciador de Boa Sorte. A grosso modo, pode-se dizer que Carolina Jabor fez Um Estranho no Ninho, o clássico de Milos Forman, em versão nacional. A dupla principal tem química. Deborah é excepcional no papel. É uma atriz de cinema. Representa com os olhos, dando razão a Nicholas Ray, que dizia que o cinema é a melodia do olhar.

As mulheres dão o tom do sábado, 18, na 38.ª Mostra. Deborah, com seu talento, sua beleza. Mas tem também Yoani Sánchez. É uma personagem da era da internet, das redes sociais. Yoani, com seu blog, tornou-se um ícone da contestação ao regime cubano. Por isso mesmo, tem seguidores e opositores. Durante muito tempo, ela lutou por um visto e o direito de sair de Cuba para conhecer o Brasil. Uma mudança na legislação permitiu-lhe finalmente realizar o sonho. 

No Brasil, foi agredida verbalmente por simpatizantes do regime cubano, que a acusaram de ser agente da CIA. Surpreendentemente, mas não tanto, ganhou a defesa do senador petista, que agora se despede do Congresso, Eduardo Suplicy.

Um documentário que passa neste sábado, 18, domingo, 19, e quarta-feira, 22, na Mostra resgata a viagem de Yoani. Chama-se mesmo assim: A Viagem de Yoani. Peppe Siffredi e Raphael Bottino são os diretores. Eles dão a palavra a Yoani. Ela conta que construiu seu primeiro computador e criou um blog sem ter acesso à internet em casa. O blog Generation Y estourou, com milhões de views. Yoani tornou-se a porta-voz dos descontentes da sua geração. 

Não é raivosa. Yoani não nega o regime cubano em bloco. Reconhece os avanços na educação e na saúde, mas pertence a uma geração que tem usado as redes sociais para tentar mudar o mundo. Seu protesto encontra ressonância nas críticas de Eduardo Suplicy, que não é exatamente, ou não é nem um pouco, inimigo do socialismo cubano.

Por seu blog, Yoani não encontrou apenas seguidores. Ganhou prêmios, virou símbolo de resistência num país – a ilha – em crise de sobrevivência. Siffredi e Bottino não deixam de mostrar que o problema talvez não sejam Yoani e seu blog, mas o uso que os opositores do regime fazem dele, forçando a radicalização. 

No ano passado, houve protestos contra a exibição do documentário Conexão Cuba-Honduras, do cineasta Dado Galvão, no qual ela presta depoimento. A voltagem política, pró e contra, não deixa margem para a discussão estética. Quase não se fala desses filmes como 'cinema'. O curioso é que o recente Cuba Livre, de Evaldo Mocarzel, sobre a volta da atriz transexual Phedra à ilha, passou meio batido nos cinemas. A discussão da homossexualidade em Cuba também faz parte da liberdade de expressão, mas Cuba Livre, certamente mais simpático ao regime – apesar dos problemas que aponta –, não despertou míseros 10% dos posicionamentos inflamados que a simples existência de Yoani Sanchez provoca.

APOSTAS DO DIA

‘Infância’

De Domingos Oliveira (Brasil). Obra mais recente do veterano diretor carioca, mergulha em seus anos de formação e traça painel do Brasil dos anos 1950.

‘Um Cão Andaluz’ e ‘A Idade de Ouro’

De Luis Buñuel (França). Duas obras que marcaram o surrealismo no cinema, feitas em parceria entre o diretor e seu então amigo Salvador Dali.

‘Boa Sorte’

De Carolina Jabor (Brasil). Deborah Secco num papel a que seus fãs não estão habituados: ela é uma doente terminal que tenta encontrar sentido para o desfecho de sua vida.

‘Carta a um Pai’

De Edgardo Cozarinsky (Argentina). O diretor, um conhecido crítico e escritor, mal conheceu o pai, um oficial da marinha. Tenta revivê-lo a partir de velhas fotos e de sua própria memória, num filme comovente.

‘Chocolat’

De Claire Denis (França-Alemanha-Camarões). Francesa retorna à África para relembrar sua infância num posto militar – e se expóe à complexidade dos relacionamentos numa sociedade racistas. 

‘Salto no Vazio’

De Marco Bellocchio (Itália-França-Alemanha). Juiz foi criado pela irmã, que tem tendências suicidas. Quando ela se envolve com um ator, ele se vê dominado pelo ciúme.

‘Verão’

De Colette Bothof (Holanda). Anne se sente uma estranha entre seus amigos até conhecer Lena. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.