Ariela Bueno
Ariela Bueno

'Mulheres Alteradas' mostra o dia a dia feminino feito de sonhos e desilusões

Adaptação da HQ de Maitena, longa prova que a vida delas é bem semelhante no mundo todo

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

05 Julho 2018 | 06h00

Nas entrevistas que deram ao Estado sobre Mulheres Alteradas - que estreia nesta quinta-feira, 5 -, Alessandra Negrini e Deborah Secco falaram de suas personagens no longa de Luís Pinheiro, uma adaptação da HQ da argentina Maitena Burundarena.

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O filme conta as histórias cruzadas de quatro mulheres em momentos críticos de suas vidas. Alessandra (que vive a personagem Marinati) fez uma confissão interessante. Embora interprete a mais poderosa e independente das quatro alteradas, disse que entendia todas pelo simples motivo que elas lhe pareciam a mesma mulher em diferentes momentos, e ela já passara por todos. Deborah, que interpreta Keka, que tenta salvar seu casamento, disse que se identificava mais com o marido Dudu - vivido por Sergio Guizé -, que empurra com a barriga e deixa para a mulher a decisão de terminar com o casamento.

Monica Iozzi, que faz Sônia, com dois filhos para criar e sonha com um fim de semana de solteira, identifica-se mais com a irmã da ficção, que vai ajudá-la na tarefa. Monica também faz a confissão mais curiosa. “Quando vim para São Paulo para fazer teatro, meu primeiro emprego foi na Livraria Cultura, no setor de arte. E foi lá que descobri a Maitena, que estava saindo no Brasil naquele momento. Maitena costuma dizer que as mulheres não são iguais, mas passam pelas mesmas coisas. E eu me encantei ao descobrir que essas coisas são mesmo iguais, no Brasil, na Argentina e não sei onde mais. Mas é preciso uma sensibilidade especial para captar e expressar isso.”

Mulheres Alteradas não nasceu como um projeto do diretor Luís Pinheiro. A proposta partiu da produtora O2. Mas por que um homem se interessa por essas histórias de mulheres? “Porque eu gosto delas, ora. Com a Andréia Barata, produtora, e o Caco Galhardo, roteirista, buscamos na Maitena as questões atemporais. Os pensamentos que não se conectam com o momento, mas que vão sempre pintar na cabeça das mulheres. E havia também uma questão de forma. Como adaptar a linguagem dos quadrinhos para o cinema? Como conciliar com o plano-sequência, que me atrai muito. Esse foi o desafio.” Pinheiro conseguiu. As comédias brasileiras têm tentado e, às vezes, conseguido expressar as questões urgentes das mulheres. Mas com uma proposta sólida e eficiente de linguagem, é a novidade de Mulheres Alteradas.

Claro que não se trata de uma questão transcendental para se ficar pensando, mas por que Monica Iozzi se chama assim? Provavelmente pelo mesmo motivo de outras tantas Monicas da geração dela. Sua irmã mais velha adorava a Turma da Mônica e, quando a mãe anunciou que ia ganhar uma irmãzinha, a menina bateu pé - “Vai ser Mônica.” E foi. O que nenhuma das duas, nem o pai, a mãe, poderia imaginar era que, tanto tempo depois, Monica Iozzi faria a mãe da Mônica no filme que Daniel Rezende realiza.

“Estou igualzinha. Chega a ser emocionante”, confessa. Monica fazendo a mãe da Mônica? “Não poderia recusar, principalmente quando me informaram que a sugestão partiu da Mônica do Mauricio de Sousa.” Dois filmes baseados em HQs, Mulheres Alteradas, que estreia nesta quinta, e Turma da Mônica, adaptado de Laços? “É coincidência, não foi nada planejado. E nos dois os diretores não se prenderam à linguagem do quadrinho. Tanto o Daniel como o Luís Pinheiro (de Mulheres Alteradas) deram liberdade, mas não pediram nada parecido com caricatura. Ambos se preocuparam com a espessura humana das personagens. A coisa dos quadrinhos ficou por conta de cor, cenário, montagem.”

O repórter pergunta, por curiosidade, se Monica viu O Pequeno Nicolas, que Laurent Tirard adaptou das tiras de Goscinny. “Vi, sim. Levei minha sobrinha, que adora o personagem.” O repórter elogia a leveza do filme e pergunta se é isso que Daniel Rezende está buscando? “Embora minha participação seja pequena, bisbilhotei muito. Pedi para ver cenas filmadas e senti essa leveza, sim.” E a Sônia de Mulheres Alteradas? “Não sou essa mãe de filhos estressada, que sonha com uma noite de solteira. Sou muito mais a Leandra (a irmã).”

O diretor Pinheiro tem uma linguagem sofisticada. Cultiva os planos-sequência. Como foi filmar o diálogo das irmãs no carro? “Estávamos no Minhocão e acho que tivemos de repetir umas cinco vezes. Essa coisa de filmar na rua é complicada porque é sujeita a interferências no som, enquadramento. Mas eu sou metida a perfeccionista e, por mim, repetia mais.” Embora tenha cursado teatro, para ser atriz, Monica reconhece ter uma trajetória nada óbvia. “Fui repórter num programa de política, mas já queriam uma coisa mais descontraída. Fui ser apresentadora no CQC e no Vídeo Show. Apesar das diferenças, acho que ambos me aparelharam bem. Treinei muito a improvisação, e hoje ela me serve bastante.”

Encerrada, pelo menos por hora, a fase de apresentadora, Monica está feliz emendando trabalhos de atriz. “Admiro muito a Amora Mautner e não vacilei quando ela me chamou para fazer Assédio. Também fiz um episódio da nova temporada de Carcereiros, como a funcionária que, na cadeia, lê as cartas dos presos e se apaixona por um deles. A história é muito romântica, numa série tão violenta. Tudo isso é para o ano que vem, com o filme da Turma da Mônica.”

Temas triviais, como celulite, explicam êxito

O leitor brasileiro descobriu o trabalho de Maitena em 2003, quando a Rocco lançou aqui o primeiro volume de Mulheres Alteradas, seleção de tiras publicadas na Argentina entre 1993 e 1994. Lá, foi um sucesso por falar de temas absolutamente femininos, como preocupações com celulite, idade, moda, filhos e crises amorosas em capítulos com títulos sugestivos como “as injustiças mais machistas” ou “os seis primeiros passos clássicos de uma recém-separada”.

Maitena inspirava-se no cotidiano, em conversas com amigas, leitura de jornais e revistas, programas de televisão. Em 2010, o livro ganhou um versão teatral de mesmo nome, que estreou em São Paulo e circulou nacionalmente. O sucesso justificava-se pelo espírito do texto: apresentar a mulher com inteligência./ UBIRATAN BRASIL 

 

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