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'Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos' demarcou carreira de Almodóvar

Recheado de exageros, longa seduziu público e crítica em todo mundo com seu humor incorreto e situações de sexo

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

01 de novembro de 2015 | 04h00

Em 1988, Pedro Almodóvar já era um autor reconhecido internacionalmente, mas os EUA ainda resistiam a assimilar sua estética ‘marginal’. Desde os curtas e, depois, através de Pepi, Luci e as Outras, Labirinto de Paixões, Maus Hábitos, O Que Fiz para Merecer Isso?, Matador e A Lei do Desejo, entre 1974 e 87, ao longo de 13 anos de muita provocação, Almodóvar tornou-se a representação da ‘movida’ no cinema. O termo designa a euforia que se seguiu à derrocada do franquismo. De repente, a Espanha, inebriada, descobriu a democracia.

A liberação dos costumes permitiu que Almodóvar e toda uma geração de gays espanhóis saíssem do armário. Ele saiu ruidosamente e, em Labirinto de Paixões, além de diretor e roteirista, reservou-se um papel, invadindo a tela, invadindo a tela vestido de mulher, de brincos e meia-arrastão. Ay, Pedrito! Os excessos foram só uma fase, não importa quando tenha durado. No já citado ano de 1988, algo se passou, e foi o primeiro passo de Almodóvar no rumo de seu amadurecimento como ‘autor’,.

Mujeres al Borde de Um Ataque de Nervios/Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos marcou uma nova etapa do diretor. Lançado na América como Women on the Verge of a Nervous Breakdown, o filme seduziu o público e os críticos. Jane Fonda comprou os direitos para uma refilmagem que nunca saiu, mas seria feita por Herbert Ross. Em seu guia de filmes, Leonard Maltin diz que se trata de ‘uma ultrajante e altamente estilizada comédia sobre como uma subestrela reage ao ser abandonada pelo amante’. Como alguém pode ser uma subestrela? É simples. Carmen Maura trabalha com dublagem e, como tal, dá voz às maiores divas nas telas e TVs da Espanha, mas ela, pessoalmente, é pouco conhecida e pode até ser desconhecida do público.

Ao redor de Carmen Maura, que processa com espalhafato a dor da perda, movimenta-se uma colorida fauna de amigas e admiradores gays. Julieta Serrano, Maria Serrano, Antonio Banderas e uma atriz de feições tão peculiares que muita gente passou a definir Rossy De Palma como a versão “live action” de um quadro cubista de Pablo Picasso. Em todo o mundo, o público embarcou na viagem das mulheres histéricas de Almodóvar, e embarcou é bem o termo. O filme dá a impressão de nunca estar parando. Estão sempre ocorrendo coisas. A extravagância dá o tom, o humor é incorreto, as situações (e os mal-entendidos e subentendidos) de sexo compõem boa parte do relato, mas o melhor de tudo, melhor até que Maura e sua crise, é o motorista do táxi com estofamento de zebra.

Almodóvar admitiu que se inspirou no motorista de táxi interpretado por Robert De Niro no filme de Martin Scorsese, de 1976, mas foi além. O taxi driver de Almodóvar transforma seu carro numa mistura de bar e drogaria. Quer um drink? Tem. Quer droga? Tem. Sem o táxi driver, não seria fiel ao original. Miguel Fallabela começa sua adaptação por ele, o que já é uma garantia.

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