"Mulher", produção de 1931, é exibido no Rio

Mais um título da Cinédia, Mulher, estréia em cópia restaurada, hoje, no Cine Odeon-BR. É uma produção de 1931 dirigida por Octávio Gabus Mendes, avô dos atores Tato e Cássio Gabus Mendes e pai de Cassiano Gabus Mendes, autor de novelas e pioneiro da televisão brasileira, que já morreu. Mulher é um filme revolucionário pelo tema, uma história de amor plena de erotismo e com alguma crítica social, pela produção com cenários e figurinos elaborados, pela narrativa e por ter sido uma dos primeiras produções nacionais com trilha sonora pré-gravada em vitaphone, sistema em que o som é registrado em discos tocados simultaneamente com a exibição da imagem. "A importância dessa restauração é devolver um filme de categoria às novas gerações que pouco conhecem da produção brasileira de antigamente", comemora Alice Gonzaga, filha do fundador da Cinédia, Adhemar Gonzaga, e incansável batalhadora da preservação da obra do pai e da memória do cinema nacional. Para isso, fundou o Instituto de Preservação da Memória do Cinema Brasileiro, que facilita burocraticamente a obtenção de recursos. "Se Deus quiser, boa parte dos 24 filmes que ficaram, dos 56 produzidos pela Cinédia, estarão em condições de exibição, em 2005, quando comemoramos 75 anos de sua fundação." Ela já conseguiu alguns feitos, como a restauração de O Ébrio, patrocinada pela Riofilme, a distribuidora da prefeitura do Rio, e Alô, Alô, Carnaval!, pela BR-Distribuidora. Ambos foram lançados comercialmente com resultados expressivos - 22 mil espectadores para o primeiro e 8 mil para o segundo - e têm lançamento em DVD previsto para novembro deste ano e março de 2005, respectivamente. Além disso, a verba de R$ 300 mil da BR-Distribuidora permitiu a duplicação de três outros títulos que também serão exibidos nas próximas semanas: 24 Horas de Sonho, de Chianca Garcia; Romance Proibido, de Adhemar Gonzaga, e Anjo do Lodo, de Luiz de Barros. São processos diferentes para salvar um filme. "A restauração é uma intervenção sobre o material, que resgata as características originais da obra, montagem, fotografia, som, etc.", explica Alice. "Já a duplicação é a cópia do material deteriorado, como ele se apresenta. Custa menos que a restauração, mas transfere para outro suporte os problemas que o tempo trouxe aos filmes, do estado das cópias às sucessivas remontagens. É importante duplicá-los enquanto se aguarda a oportunidade de restaurá-los." Mulher é o terceiro título restaurado pelo risco que corria de se perder e por causa da sua importância na Cinédia e na filmografia nacional. Lançado em 1931, a produção começou em 1929, quando Adhemar Gonzaga voltou de Hollywood, disposto a aplicar aqui as novidades tecnológicas criadas então. Chamou Octávio Gabus Mendes, então crítico de cinema, para dirigir o que seria uma superprodução, estrelada por Carmem Violeta e Celso Montenegro. Eles viviam uma história de amor pouco convencional, com uma narrativa inovadora e com cenas eróticas e avançadas para a época. Afinal, nudez e sexo, mesmo só insinuados (como a corda de violão que se rompe com a virgindade perdida da mocinha), não eram comuns na época. "Além de recuperar a imagem, restauramos a edição de Gabus Mendes, o que só foi possível graças às anotações dele que estão na Cinédia. O trabalho, então, foi restaurar os fotogramas avinagrados (processo de deterioração química que dá à película um cheio característico) e recolocá-los na ordem original", conta o pesquisador Hernany Hefner, que coordenou o trabalho em parceria com a Cinemateca Brasileira, que cuidou da imagem, e a Rob Filmes, que cuidou do som. "Na verdade, mudei duas cenas de lugar e inseri uma terceira, mas os intertítulos (falas legendadas entre as cenas dos filmes mudos) foram refeitos e reordenados. O filme retornou à versão do diretor e até a trilha sonora restaurada contribuiu para se chegar a esse resultado." A música pontua a história de Mulher de uma forma que só mais tarde aconteceria no cinema. Composta e regida por Alberto Lazzoli, que depois integraria a lendária equipe de maestros da Rádio Nacional (com Radamés Gnatalli, Léo Perachi e Pixinguinha), mistura orquestra, piano, violão, valsas e choros, para comentar cada cena. Estava gravada em discos de 30 centímetros de diâmetro, que seguiam para as salas de exibição com a película e ambas rodavam simultaneamente. "É um processo do início do cinema sonoro, abandonado depois em favor do som gravado na película. Por isso, inexistem equipamentos para reproduzi-los. Tínhamos vários discos, em estados diversos de conservação", conta Roberto Carvalho, da Rob Filmes "Gravamos tudo digitalmente, tiramos os melhores trechos e deu para reconstituí-la inteira, com boa qualidade, mas o processo durou um ano." Mulher fica em cartaz no Cine Odeon-Br até o dia 24, sempre às 13 horas. Os outros três títulos duplicados serão exibidos em seguida: Romance Proibido, de 25 de junho a 1.º de julho; Anjo do Lodo, de 2 a 8 de julho, e Horas de Sonho, de 9 a 15 de julho, sempre no mesmo horário. São Paulo verá os quatro filmes a partir do dia 25 de julho, na Cinemateca Brasileira. Ainda este ano, o Canal Brasil duplicará e exibirá Salário Mínimo, Samba da Vida e Marido de Luxo.

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