'Mulher-Maravilha’ é um grande filme de super-heroína

'Mulher-Maravilha’ é um grande filme de super-heroína

O sucesso do longa é mérito da diretora Patty Jenkins, mas atriz Gal Gadot e o casal Znyder na produção ajudaram

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

20 de junho de 2017 | 22h00

Talvez seja o momento mais belo de Mulher-Maravilha. Steve/Chris Pine despede-se de Diana, a esplendorosa Gal Gadot. “Deixe-me salvar o dia. Você salva o planeta.” Wonder Woman! Demorou para que a heroína dos quadrinhos ganhasse um filme só dela. Mas valeu a espera. Mulher-Maravilha pertence à nova geração de blockbusters e super-heróis. A máquina de Hollywood a serviço dos autores. Christopher Nolan e seu Batman sombrio, Zack Snyder e Superman como personagem de tragédia e, para contrabalançar toda essa gravidade, a euforia dos Guardiões da Galáxia de James Gunn. Há agora um equilíbrio entre tragédia e alegria na Diana de Themyscira, a Mulher-Maravilha de Patty Jenkins.

A primeira mulher a realizar um filme de super-heróis, no caso, de super-heroína. Como uma diretora de filmes independentes (Monster – Desejo Assassino, de 2003) veio parar à frente de uma máquina gigantesca como essa? A própria Patty gosta de dizer que, quando chegou, meio caminho estava andado. Se o cinema, como dizia o grande crítico francês Michel Mourlet, começa e se dilata na epiderme dos atores, a atriz, que já estava escolhida, foi determinante para o sucesso da empresa. Gal Gadot, uma ex-Miss Israel, teve formação militar, e isso transparece na sua constituição física. Parece-se com a sereia Ísis Valverde, e coincidência ou não, Diana salva Steve das águas, quando ele, piloto de guerra, fugindo dos alemães, vem dar na praia de Themyscira.

Que lugar é esse? Para seguir adiante, talvez seja preciso destacar a importância dos produtores – o casal Deborah e Zack Snyder. Pergunte a Rodrigo Santoro, que fez com eles 300. Zack é um visionário que sabe tudo sobre quadrinhos. Tem o filme pronto na cabeça. Deborah – parceira na arte e na vida – fornece-lhe, como produtora, as ferramentas.

Até certo ponto, Mulher-Maravilha repete a estrutura em três atos do Superman de Zack, que ele havia tomado emprestada a Richard Donner (Superman – O Filme, de 1978). Mulher-Maravilha começa com o mito. Quando houve a guerra dos deuses, Zeus, para proteger a humanidade de seu irmão Ares, criou a ilha das amazonas. É aí que, no começo, e com o visual de 300, Diana faz sua formação guerreira, com a mãe e a tia (Connie Nielsen e Robin Wright, magníficas).

O homem, salvo das águas, irrompe nesse universo. Com Steve, Diana vai cumprir seu destino – enfrentar o temível Ares. Como guerreira, ela introduz, na aventura, o mito. Para os companheiros de Steve, quando vem para o lado de cá, combater os alemães na 1.ª Grande Guerra, é um enigma. Não para o índio, que também se move no território mítico. Mas é avançar demais. O filme narra uma belíssima história de amor. Desenha uma heroína feminista. Na sua ilha, Diana flagra Steve nu, após o banho. Dialogam sobre o sexo, e ele transfere a conversa para o relógio, que rege seu dia. Diana diz que não quer ser regida... Pelo tempo ou pelo pênis?

Na verdade, o tempo é o tema de Patty Jenkins, daí o flash-back. Mais tarde, quando Steve se deita com ela a conversa prossegue. Homens são necessários para a procriação, não para o prazer. Um manifesto lésbico? O diálogo é ambíguo, espirituoso. Após a batalha para libertar a aldeia, Diana e Steve têm sua noite de amor e sexo – que Patty não mostra. O afeto e o prazer transparecem nos olhares. A revelação da identidade de Ares e a batalha final seguem a tradição dos blockbusters, mas o intimismo das relações, e a justeza dos detalhes, mostram que um olhar feminino é muito bem-vindo nesse universo viril.

 

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