Warner Bros.
‘Mulher-Maravilha 1984’. Gal Gadot dá vida novamente à icônica super-heroína: nova armadura dourada para triunfar Warner Bros.

‘Mulher-Maravilha 1984’. Gal Gadot dá vida novamente à icônica super-heroína: nova armadura dourada para triunfar Warner Bros.

'Mulher-Maravilha 1984': 'Quero o meu amor de volta', afirma a atriz Gal Gadot

Existe gente que minimiza o impacto da cultura de massas, mas Diana surgiu com o timing perfeito, no bojo do movimento #MeToo, com que as mulheres questionaram o machismo na indústria; no novo filme, tudo acontece de forma muito orgânica

Imagem Luiz Carlos Merten

Luiz Carlos Merten , O Estado de S. Paulo

Atualizado

‘Mulher-Maravilha 1984’. Gal Gadot dá vida novamente à icônica super-heroína: nova armadura dourada para triunfar Warner Bros.

Dezembro de 2019. A CCXP regurgita de gente. Milhares de pessoas comprimem-se para tentar ver Gal Gadot e a diretora Patty Jenkins na maior sala montada no complexo da São Paulo Expo. Há um ano, quem poderia imaginar que um certo vírus, surgido na China, iria se alastrar pelo mundo e fazer de 2020 a experiência infernal que ainda está sendo? Depois de toda a loucura da CCXP, foi num hotel encravado na natureza, no Morumbi, que o Estadão encontrou-se com a estrela e a diretora do filme fenômeno de 2017, Mulher-Maravilha. Existe gente que minimiza o impacto da cultura de massas, dos comics, mas Diana/Wonder Woman surgiu com o timing perfeito, no bojo do movimento #MeToo, com que as mulheres questionaram/desmontaram o machismo na indústria. Mas 2018 também viu a afirmação de um certo Pantera Negra. Quem poderia imaginar que, no fim de 2020, Chadwick Boseman já teria partido? Foi-se, mas o Black Lives Matter varreu o planeta como Wonder Woman havia feito antes.

Ao Estadão, Gal Gadot antecipou, na ocasião, o que era possível antecipar de Mulher-Maravilha 1984, que estreia nesta quinta, 17, nos cinemas brasileiros. E a diretora Patty Jenkins – “Tive a visão do que deveria ser esse filme enquanto estava fazendo o primeiro. Ninguém poderia prever que o filme se transformaria num fenômeno, mas havia boas chances de que fizesse sucesso e a gente tivesse uma sequência. No primeiro filme, Diana salva o mundo na 1.ª Guerra Mundial, mas perde Steve, o amor de sua vida. Na maior parte do tempo, era um filme cinzento. A guerra e seu cortejo de destruição. A ideia me veio como num raio. O 2 teria de ser muito colorido – excessivo. Quando se pensa em excesso no cinema, o que vem? Os anos 1980. Afirmada a personagem, o que mais esperar? Que Diana/Mulher-Maravilha seja a James Bond do mundo dos super-heróis. Fazendo um filme comecei a sonhar o outro. Não apenas o estilo dos anos 1980, mas ambientado em 1984, um ano emblemático”.

E Gal, linda – dessa mulher emana uma luz. Ela não parece uma superstar. Olha o repórter no olho, e ri – uma risada radiante, de quem está de bem com a vida. Qual será a grande novidade de MM84, Gal? “Quero o meu amor de volta”, ela diz. Mas Steve/Chris Pine morreu no fim do outro filme? Como poderá (re)viver? Em flash-back? E como, se o filme se passa mais de 60 anos adiante? Sem spoiler, espere o filme para ver. Mas tudo acontece de uma forma muito orgânica. “Cobre se não for assim”, agora é a diretora que fala. Gal já falava, há um ano, da eletrizante cena que abre o filme. Não exatamente a primeira, que é uma cena dela menina, sendo confrontada com a ética. Não mentir, não trapacear. No filme anterior, já fomos apresentados ao laço da verdade, e ele vai voltar. A cena de que Gal falava é a segunda na estrutura montada por Patty. Uma ação num shopping, cheia de piscares de olhos cúmplices.

Mulher-Maravilha virou ícone, as crianças projetam-se nela. Não apenas as crianças. De cara, Diana é apresentada a Kristen Wiig como Barbara, a cientista pouco confiante de si mesma que imediatamente já está soltando o verbo. Gostaria de ser segura como Diana. Na época, nem a atriz nem a diretora falaram de um detalhe fundamental nessa primeira parte, de abertura. Os saltos altos. Diana move-se com graça no alto de seus saltos. Barbara é um desastre, tropeça, quase cai. Se o cinema pode ser uma caixa (máquina?) de sonhos para fornecer ao público aquilo que deseja, só agora, depois de assistir a MM84, faz sentido uma frase de Patty – “Cuidado com seus sonhos”. Eles podem se realizar, mas, em geral, cobram um preço. Há uma pedra misteriosa, que surge na trama para realizar o sonho das pessoas. O de Barbara é ser como Diana, é se transformar numa superfêmea predadora alfa – mais poderosa que a Mulher-Maravilha. O de Diana é ter Steve de volta. E quem vai se apropriar da pedra, para dominar a mente das pessoas realizando os sonhos delas, é um tal Maxwell Lord, interpretado por Pedro Pascal. Uma coisa que Patty já havia antecipado, mas, claro, só agora faz sentido. “Será”, ela dizia há um ano, “um filme sobre duplos”.

Diana e Barbara, a Mulher-Maravilha e sua versão para o mal. Steve e Lord, o herói e seu antinomio. Lord está sempre falando para o filho de seu sonho de se realizar como herói aos olhos do menino. Sua obsessão por poder fará dele um monstro. E essa é a história. Gal, uma israelense que foi Miss em seu país e fez participação secundária em filmes como os da série Velozes e Furiosos, já falava na grande mudança que ocorre com a personagem. “O primeiro filme era sobre Diana descobrindo seus poderes e olhando a humanidade de fora. Agora, ela faz parte dessa humanidade e se vulnerabiliza. Sofre com a solidão e tem de fazer uma escolha trágica.” Alguma novidade em especial no novo filme? “Existem muitas novidades, porque desde o início Patty deixou claro que não seria simplesmente oferecer mais do mesmo. Felizmente, o estúdio lhe permitiu ousar. É uma história de amor e verdade, na qual Diana precisa de um novo uniforme para triunfar.” Esse uniforme – uma armadura dourada – foi sendo revelado ao longo do ano em publicações especializadas dos EUA. Será decisivo no embate definitivo entre Diana e sua rival, Barbara/Cheetah.

A estrela e a diretora adquiriram consciência do que representa ter feito um filme como MM, o 1. “O filme surgiu no momento em que o mundo e a indústria estavam prontos para uma heroína como ela. Agora, com todo excesso, acho que Patty tem uma consciência mais clara do que fizemos. Gostaria que MM vivesse mais vezes, mas só se for assim. Como uma mulher e heroína do nosso tempo. Vivi numa das regiões mais conflagradas da Terra (o Oriente Médio). Para mim, toda mulher é uma heroína, desde que não perca a humanidade nem a compaixão”, conclui Gal.

Veja o trailer de 'Mulher-Maravilha 1984':

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

'Mulher-Maravilha 1984': Pedro Pascal e Chris Pine falam sobre os homens do filme

Ao lado de Chris Pine, ator conta suas lembranças no período dos anos 1980, em que o filme é situado

Mariane Morisawa, Especial para o Estadão

16 de dezembro de 2020 | 05h00

LOS ANGELES — A estrela de Mulher-Maravilha 1984 é do sexo feminino, lógico. Mas isso não quer dizer que os homens não tenham papéis de destaque, começando pela volta inesperada de Steve Trevor, o namorado de Diana Prince que ela conheceu na época da Primeira Guerra Mundial e que – atenção para o spoiler de Mulher-Maravilha – morreu no primeiro filme. Como ele consegue retornar do mundo dos mortos e ainda no mesmo corpinho de Chris Pine, aos 40 anos, é um dos mistérios da continuação. “Você vai ter de assistir para descobrir” é a resposta do ator quando indagado sobre o assunto em entrevista ao Estadão, em Los Angeles, em janeiro. 

Pedro Pascal interpreta Max Lord, um empresário-vilão criado à imagem e semelhança do Lex Luthor de Gene Hackman nos filmes originais do Superman, do Gordon Gekko de Michael Douglas em Wall Street – Poder e Cobiça e... de Donald Trump. “Ele era um personagem importante dos anos 1980”, disse Pascal ao Estadão. “E era uma representação daquela mentalidade de ter tudo e ir atrás disso custe o que custar. Infelizmente, Max Lord provavelmente teria idolatrado Trump na época.”

Nascidos respectivamente em 1975 e 1980, Pedro Pascal e Chris Pine viveram bastante aquele período. “Meus pais eram muito jovens, então iam a shows o tempo todo – e me levavam junto”, contou Pascal, que viu The Police aos 4 e depois Madonna, Tears for Fears, Rolling Stones. Sua mãe era obcecada por Prince e parava tudo o que estava fazendo sempre que ele aparecia na tela da MTV. Assistiu a Rambo – Programado para Matar aos 7. “Eram os anos 80!”, explicou. Também usava roupas Benetton e Fiorucci. Pine, por sua vez, se lembra de ter feito seu amigo Andrew chorar na frente do Chinese Theater, em Los Angeles, depois de verem E.T. – O Extraterrestre por não acreditar que o personagem era real – Andrew achava que sim. “Me lembro também de ter de sair da sala na cena de sexo de Top Gun”, contou. “E eu tinha todos os tipos de roupa de cama de Star Wars disponíveis.”

A relação de Diana e Steve fez com que se lembrasse, aliás, de pares como Michael Douglas e Kathleen Turner em Tudo por uma Esmeralda (1984) e Kate Capshaw e Harrison Ford em Indiana Jones e o Templo da Perdição (1984). “Foi muito legal ter a chance de fazer um desses relacionamentos românticos que existem desde o início do cinema”, disse Pine. “Achei muito bacana a ideia de casar um romance com uma produção de ação de US$ 200 milhões. Porque quase não vemos mais filmes românticos.” De jeito nenhum, ele ficou incomodado com a posição de “namorado”. Na verdade, deu a ele perspectiva sobre o papel que tantas atrizes precisam interpretar no cinema. “Mas gostei de deixar a parte da ação pesada para a Gal”, contou. “Não precisar acordar todo dia às 5 foi ótimo.”

Pedro Pascal, que assistiu ao primeiro filme como espectador apenas, achou a experiência de ver uma super-heroína na tela grande emocionante. “Foi uma coisa muito estranha ir às lágrimas numa sequência de ação, mas foi o que aconteceu comigo quando a Mulher-Maravilha cruza a terra de ninguém”, disse. “Foi lindo ver uma super-heroína que tem poder na sua feminilidade, cuida dos outros e é fera no que faz. Foi uma experiência valiosa para todos porque é a experiência de todos.”

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Crítica: Em 'Mulher-Maravilha 1984', o sonho está ligado ao desejo

Na ficção de Mulher-Maravilha 1984, a era do poder do homem terminou

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

15 de dezembro de 2020 | 19h17

Qualquer espectador vai concordar – não é fácil dar sequência a um grande sucesso, mais ainda a um filme fenômeno como foi Mulher-Maravilha. Mas vale prestar atenção em duas observações que a diretora Patty Jenkins faz na entrevista – ela diz que seria interessante transformar Diana/Wonder Woman na James Bond dos filmes de super-heróis. E acrescenta que situar a história nos anos 1980 lhe permitiria recriar uma década que foi de excessos, e não apenas nos filmes.

O cinema nasceu contemporâneo da interpretação dos sonhos, por Sigmund Freud. Já houve gente que definiu ver um filme como sonhar acordado. O sonho está muito ligado ao desejo, e ele está no centro do novo filme. Existe essa pedra que realiza os desejos das pessoas. A dra. Barbara Minerva quer ser como Diana. Quer caminhar por si mesma sobre seus saltos altos. Só que a Mulher-Maravilha em que ela se transforma – Cheetah – perde a humanidade. Vira uma aberração.

Atenção – o texto tem spoiler. Todo mundo tem desejos. O de Diana é ter de volta Steve. O de Maxwell Lord é ser um herói aos olhos do filho, mas a obsessão pelo poder arruína tudo. 

O fato de o filme situar-se em 1984 está longe de ser mera coincidência. George Orwell, o mundo ditatorial, a supressão da individualidade. O mundo vira um caos, maior do que já é. Todo mundo tem de abrir mão de seu desejo individual para que o coletivo possa funcionar. Barbara tem de desistir de Cheetah, Diana, de Steve.

Nesse mundo de mulheres poderosas, qual é o papel do homem? Steve é o verdadeiro herói, porque ele sabe o que é melhor para o mundo, e para Diana. Diz a frase mais simples e bela – “Eu vivi uma boa vida”. Sacrifica-se pelo coletivo. O que é o tal empoderamento feminino? Diana tem de se fragilizar para se empoderar de novo com a nova armadura dourada que a torna invencível. E Lord tem de abrir mão de ser o inconsciente coletivo sonhado por todos para ser... pai. É só quando se perde tudo, abandona tudo, que se pode recomeçar. Diana está, de novo, pronta, no desfecho. Pronta para o quê? Amar?

O filme é excessivo, mas bom. Toda a construção simbólica tem a ver com o que diz Steve ao pilotar o avião. Dominar o vento, o ar. Saber quando elevar-se. O avião fica invisível, oculta-se. O salto alto faz o movimento contrário – revela. Na ficção de Mulher-Maravilha 1984, a era do poder do homem terminou. Todo poder às mulheres. Amor e verdade movem Diana. Permitem-lhe acionar o laço e cavalgar raios. O verdadeiro nome dessa mulher, o seu diferencial, é compaixão. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.