"Mulher-Gato" estréia agressiva e sensual

É ruim, mas quem disse que só por causa disso você não vai se divertir com Mulher-Gato? Colocando as coisas em perspectiva, a única possibilidade de o espectador divertir-se com o novo filme sobre heróis dos quadrinhos que estréia hoje em salas de todo o Brasil é deitando (e rolando) sobre os defeitos que a aventura do estreante Pitof tem em larga escala. Para início de conversa, a Mulher-Gato de Halle Berry pouco ou nada tem a ver com a personagem que Bob Kane criou nos comics e que foi imortalizada por Julie Newmar, entre outras intérpretes, na TV, nem por Michelle Peiffer em Batman - O Retorno, de Tim Burton. A nova Mulher-Gato é uma fantasia masculina cuja heroína troca o feminismo à Camille Paglia por doses maciças de perversão. Tão importantes quanto os modelitos que Halle veste é o andar felino que ela aprendeu em aulas de capoeira, para caminhar expondo o bumbum. Bye-bye Jennifer López. Halle Berry exibe o derrièrre mais impressionante do cinema em Mulher-Gato. Hollywood ficou pragmática. Se é isso que o público quer, pronto, está dado. Não há muito o que dizer sobre o filme propriamente dito, exceto que o francês Pitof - pseudônimo de Jean-Christophe Comar -, responsável pelos efeitos das fantasias de Jean-Pierre Jeunet, investe tanto em tecnologia de pós-produção para mostrar sua Catwoman pulando para lá e para cá que, se essas cenas fossem retiradas, sobraria, quem sabe, um curta-metragem que contaria de forma mais acelerada (e até engraçada) a trama do filme. Nos quadrinhos, antes de virar heroína, a protagonista se chama Selina Kyle. No cinema, ficou sendo Patience - e paciência é mesmo necessário para se ingressar no clima. Desenhista industrial, ela descobre o que não devia sobre uma certa marca que destrói as mulheres que deveria embelezar e morre logo nas primeiras cenas. Sobrevive graças ao beijo de um gato (felino de quatro patas) que a dota de poderes que remontam ao velho Egito. Um pouco de esoterismo, acredita Pitof, pode incrementar a trama. O que incrementa mesmo é a luta entre Halle Berry e Sharon Stone - tão esticada que vai demorar um pouco até que você consiga dizer com certeza que é a estrela de Instinto Selvagem - ou as cenas de brigas, filmadas como de sexo, e as de sexo, filmadas como de briga, entre Halle e Benjamin Bratt, que faz o policial de plantão. Sim, o filme é divertidamente horrível, mas se você acha que uma produção de US$ 90 milhões, mesmo fracassando nas bilheterias americanas, tem de ter pelo menos uma boa cena - essa tem. O jogo de basquete de Halle e Bratt vale o preço do ingresso.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.