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Mulher é prioridade no cinema do diretor marroquino Nabil Ayouch

Indicado três vezes ao Oscar, cineasta vem ao Brasil para mostrar 'Primavera em Casablanca'

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

15 de julho de 2018 | 06h00

Nabil Ayouch tem sido o representante frequente do Marrocos no Oscar. Ele pode nem ser pré-selecionado, mas foi indicado três vezes pelo país, e com filmes que obtiveram repercussão internacional – Mektoub, As Ruas de Casablanca e Os Cavalos de Deus, em 1997, 2000 e 2012. Polêmico, fez também um documentário dando voz aos palestinos expulsos de seus vilarejos por Israel – My Land. Mas nenhum de seus filmes animou tantas discussões no Marrocos como Muito Amadas. Ao penetrar com sua câmera no mundo das prostitutas de Marrakesh, ele foi acusado de violar preceitos sagrados do Islã. Chegou a ser ameaçado de morte, e o filme foi proibido.

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Ayouch veio mostrar no Brasil seu oitavo filme no Festival Varilux deste ano. Primavera em Casablanca segue cinco personagens com destinos cruzados, que tentam sobreviver numa sociedade que os discrimina. Por meio deles, Ayouch prossegue sua crítica a aspectos controversos da sociedade marroquina. Nenhum é mais crucial que a situação da mulher. “Em todo o mundo você acompanha o movimento das mulheres que protestam por direitos, contra assédio. Seu país (Brasil) é um dos campeões mundiais de agressões a mulheres, mas nós não ficamos atrás. Em todo o Islã, a situação da mulher é de dependência. No Marrocos, o índice de analfabetismo entre mulheres é elevado. Não interessa às famílias que elas se esclareçam. Passarão a reivindicar. Mas nunca teremos modernidade se nossas mulheres não forem consideradas em pé de igualdade com os homens, mas isso é uma utopia, numa sociedade paternalista e falocrata como a nossa.”

Assim como ama filmar mulheres – e seus problemas –, Ayouch ama sua cidade, Casablanca. Basta citar o nome que imediatamente, no imaginário do cinéfilo, surgem as imagens do clássico romântico de Michael Curtiz que venceu o Oscar em 1942. Rick e Ilsa, Humphrey Bogart e Ingrid Bergman, reencontram-se no café dele. O nazismo avança no mundo, o marido dela é um líder da resistência e eles sacrificam o amor reencontrado. “Sempre teremos nossas lembranças”, dizem-se. Por ser ele próprio cinéfilo, Ayouch enche seu filme de referências. “Não deixa de ser uma espécie de brincadeira, em face da gravidade dos temas que estou abordando. O clássico de Hollywood foi feito em estúdio, numa Casablanca de mentira. E o nosso filme tem o pé na realidade. Isso talvez ajude o espectador a dar-se conta de como as coisas se misturam. Nosso filme não é sobre o Marrocos, embora o país nos interesse particularmente. É sobre o estado do mundo.”

Quando Ayouch diz ‘nosso’ engloba a atriz Maryam Touzani, também sua mulher e roteirista, que o acompanhou no Brasil. Uma das personagens que buscam sua liberdade em Primavera em Casablanca – o título busca carona nas transformações que se seguiram aos protestos que ficaram conhecidos como ‘primavera árabe’ – se chama Salima. Por ser uma mulher de espírito livre, ela enfrenta a pressão do marido e da sociedade para que se ajuste aos padrões impostos às marroquinas na forma de se vestir, comportar. Maryam Touzani nunca teve muita experiência como atriz. Além de roteirista, é jornalista e dirigiu curtas. O que a motivou foi perceber que as angústias das personagens também eram as suas. “Enfrentamos, ela na ficção, eu na realidade, as mesmas dificuldades para existir como seres humanos completos no espaço público. O maravilhoso da ficção é isso – nos permite dar voz ao que vivemos no cotidiano.”

Cabe destacar que as histórias cruzadas fazem eco a diferentes tempos no mesmo espaço – os anos 1980 e a atualidade. “Falar desse passado faz todo sentido porque evoca o período de ‘arabização’ da sociedade marroquina, que era muito mais aberta. Sob pressão dos grupos conservadores radicais, todo o sistema de educação passou por uma reforma que suprimiu a filosofia e as humanidades em geral. A consequência disso é a sociedade mais fechada que temos hoje.” E Ayouch reflete – “Numa sociedade aberta e realmente igualitária, democrática, a informação circula e as mentes se liberam. Um sistema fechado favorece o obscurantismo, e por isso temos todo esse ódio, toda essa xenofobia no mundo.”

Sobre o porquê de haver feito um filme coral, Ayouch diz que não está seguindo nenhuma moda. O mexicano Alejandro González Iñárritu amava essas histórias cruzadas, especialmente durante os anos de sua associação com o roteirista Guillermo Arriaga. “Não estou imitando ninguém, mas senti que precisava misturar, articular, cruzar essas histórias para dar conta do que o filme pretende retratar. E o temas de Primavera em Casablanca, afinal, é essa soma de minorias que hoje se constituem numa maioria lutando por inclusão em quase todo o mundo."

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