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'Mulher' chega ao streaming dando voz a mulheres do mundo todo

Duas mil mulheres de 50 países deram voz ao projeto de Yann Arthus-Bertrand

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

18 de julho de 2020 | 20h59

Yann Arthus-Bertrand já era um fotógrafo conhecido – e conceituado, mas o estouro foi com seu livro Earth from Above – A Terra Vista de Cima, com fotos impressionantes, de cortar o fôlego, para encher os olhos. Só que seu foco foi sempre mais embaixo. Yann possui uma fundação nos arredores de Paris. A GoodPlanet Foundation está na vanguarda da educação e de denúncias ambientais. “Nunca pensei que fosse viver para testemunhar isso. Estamos no meio da destruição do planeta.”

O ativismo transformou Yann em cineasta, e ele foi muito elogiado por seu documentário Human/Humano. Yann codirige agora Mulher, que passou fora de concurso no Festival de Veneza do ano passado. O filme estreou em março no Reserva Cultural, mas logo veio a pandemia e os cinemas fecharam. Mulher está de volta, desde a quarta, 15, no streaming, nas plataformas Netnow, GloboPlay, VivoPlay, Itunes e YouTube. 

Numa entrevista por telefone ao Estadão, Yann fala do filme que surgiu como um desdobramento de Humano. Do seu encontro com a também cineasta Anastasia Mikova nasceu esse desejo de investigar as mulheres pelo mundo. Foram em dupla, Yann com sua Canon (ele é embaixador da marca), Anastasia fazendo as entrevistas, mas a troca entre ambos era permanente. “O filme foi gestado conjuntamente.”

No limite, Mulher, no singular, dá voz a 2 mil mulheres de 50 países e 26 línguas. E tudo começou no Congo, primeira escala da produção, quando Anastasia e ele foram filmar mulheres que tocam um instrumento tradicional, o tantã. Dali seguiram para o Curdistão. No Brasil, filmaram 48 mulheres, uma delas seria a vereadora Marielle Franco, mas ela foi assassinada antes de dar seu depoimento.

Mulheres no lugar de fala – quem são, o que querem, o que pensam? O empoderamento, o futuro – que Terra deixaram de legado a filhos, netos? Embora tenham sido ouvidas milhares de mulheres, na tela estão representadas 100. A montagem não segue roteiro turístico. Quem abre o filme dando seu depoimento é a campeã mexicana de triatlo Norma Bastidas, que poderia estar falando de seus triunfos na pista, no pódio, mas tem uma história muito mais dolorosa para contar.

Sobreviveu ao abuso que sofreu do avô, ao tráfico sexual. Yann: “Falando com todas essas mulheres ao redor do mundo, e muitas se desculpavam, diziam que não eram interessantes e não teriam nada para contar. Ouvimos muitas história sobre educação, maternidade, pobreza, coragem. Tudo isso me fez ter uma visão diferenciada das mulheres de minha vida. Minha mãe, minha irmã, a mulher com quem me casei e que compartilha tudo comigo. O filme que eu estava fazendo me fez pensar, e eu espero que os espectadores de Mulher também façam isso. São histórias viscerais. No mundo futuro, precisaremos de menos ceticismo, menos cinismo, mais afeto. Pode parecer banal que, num mundo com tanta destruição, Anastasia e eu estejamos querendo falar de amor. Mas acreditamos, sim, que só a ternura nos salvará”.

Nossa pobre humanidade criou uma confusão tão grande na Terra que não existe saída sem colaboração. “Racionalmente sou um pessimista, por todo o horror que estamos testemunhando. O desmatamento no Brasil não é um problema local – tem consequências planetárias. Apesar disso tudo, sou otimista por natureza, acredito na solidariedade. Temos tido, nessa pandemia, relatos horríveis de corrupção, violência, discriminação, mas também histórias de união, de solidariedade. Sei que as comunidades, nas grandes cidades brasileiras, se uniram para enfrentar o descaso das autoridades. Isso traz esperança.”

Muitas das mulheres nunca haviam estado distante de uma câmera, outras nem sabiam o que era aquilo. Mas falar de violência, estupro foi um alívio para muitas. “Nas discussões que têm acompanhado o filme pelo mundo, temas como as mulheres no mercado de trabalho afloram constantemente.

Existem menos mulheres em cargos de chefia, ganham menos do que os homens pelas mesmas funções. Criar esse espaço de fala faz parte da luta por um mundo com menos desigualdade.” Como diz uma mulher africana, “não faz sentido chorarmos sozinhas no escuro”.

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