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'Muito Barulho' revisa pressupostos clássicos com um humor à la Hepburn e Tracy

A audácia do diretor consiste em filmar a peça mantendo a métrica dos versos, mas transpondo a ação para o mundo contemporâneo

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

27 de agosto de 2013 | 19h22

No seu melhor filme dos últimos anos, Domingos de Oliveira usou a casa da amiga Maitê Proença como cenário, convocou outros amigos para o elenco e fez O Primeiro Dia de Um Ano Qualquer para discutir afeto e relações. Joss Whedon também convocou os amigos, mas no caso dele nem precisou sair de casa. Entre a rodagem e a pós-produção de Os Vingadores, o talentoso diretor usou a própria casa em Santa Mônica e também chamou os amigos para desconstruir Shakespeare. Esqueça a adaptação de Kenneth Branagh para Muito Barulho por Nada. A de Whedon é muito melhor.

A audácia do diretor consiste em filmar a peça mantendo a métrica dos versos, mas transpondo a ação para o mundo contemporâneo. A sensação inicial é de estranhamento e, depois, de apreensão. Louis Malle, para só citar um exemplo, repensou a relação entre teatro e cinema em Tio Vânia em Nova York. Em vez de recriar o original de Chekhov, ele propôs uma leitura dramática da peça, mantendo as convenções do teatro. Whedon trata sua ação realisticamente, mas a ambientação é o aqui e agora. A apreensão instala-se. Ele vai conseguir manter seu partido até o fim?

Se fosse escrita hoje, a peça com certeza seria atacada como incorreta. Muito barulho, sim, mas por nada? Pelos padrões atuais, o que Hero sofre por parte de seu amado Cláudio configura um caso de bullying. A garota é um modelo de virtude, mas o príncipe João, para atingir o irmão, d. Pedro, logra que um aliado convença o pretendente de que ela o trai. Cláudio não só acredita como espera a cerimônia de casamento para humilhar Hero perante os convidados.

Após as chamadas peças da noite – Hamlet, Otelo, Macbeth –, os especialistas gostam de dizer que Shakespeare atingiu um estado de serenidade com o ato final de O Mercador de Veneza. Na sequência, vieram as comédias. Muito Barulho, As You Like It, Twelfth Night. São divertidas, luminosas. O caso de Muito Barulho é particular. Levanta questões – como após ser tão humilhada, Hero aceita Cláudio de volta? É o triunfo do amor, mas para constatar como Shakespeare aborda os temas do casal e das relações é preciso reportar-se ao que não deixa de ser uma subtrama – a ligação complicada entre Benedick e Beatrice.

Eles são, ou não, os protagonistas de Muito Barulho? Há controvérsia, mas com as confusões dos ‘policiais’, os diálogos mais espirituosos da peça são os duelos verbais entre ambos. Brigam por nada, isto é, por tudo. Amam-se, e d. Pedro vai urdir com Leonato, pai de Hero, para que o amor triunfe. O próprio Leonato tem falas terríveis condenando a filha por sua suposta traição. Chega a desejar sua morte. Muita gente invoca os sonetos para sustentar a tese de que Shakespeare era gay. Talvez fosse pansexual. E era – aqui, mais que nunca – misógino. O amor triunfa, mas a guerra dos sexos não termina com equidade. Curioso partido para um produtor e diretor – Whedon – reputado por haver transformado Sarah Michelle Gellar em heroína feminista, na TV, em Buffy.

Na verdade, todo o trabalho de desconstrução de Shakespeare se faz sobre esses conceitos. A grande ousadia, a maior de Whedon, consiste em manter o texto para propor Shakespeare como inventor de um gênero – a screwball comedy. Benedick e Beatrice recriam o humor epigramático das velhas comédias com Katharine Hepburn e Spencer Tracy, ou Kate e Cary Grant. Amy Acker e Alexis Denisof são ótimos, e ele é ainda melhor que ela. É mais um filme em preto e branco a ganhar a tela e revisar pressupostos clássicos, com o Tabu, de Miguel Gomes e a Branca de Neve, de Pablo Berger. Muito Barulho é.... tudo.

MUITO BARULHO POR NADA

Título original: Much Ado About Nothing.

Direção: Joss Whedon.

Gênero: Comédia (EUA/2013, 109 min.).

Classificação: 12 anos.

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