Mostra Internacional de Cinema de São Paulo/ Divulgação
Mostra Internacional de Cinema de São Paulo/ Divulgação

‘Mr. Jones’ narra a história de jornalista que denunciou as mazelas políticas do stalinismo

Longa apresenta ao público Gareth Jones e sua visão das estratégias da 'grande fome', cujo intuito era dizimar os inimigos de Josef Stalin

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

17 de outubro de 2019 | 06h00

Na agenda tradicionalmente política do Festival de Berlim, a polonesa Agnieszka Holland usou o palco da Berlinale para repetidas manifestações contra o stalinismo. Ela participou da seleção – em fevereiro – com seu novo longa, Mr. Jones, que chega à Mostra nesta quinta, 17. O tema está relacionado à imprensa, e Agnieszka também fez repetidos ataques às fake news, nesses tempos em que as redes sociais começam a substituir a imprensa acolhendo todo tipo de informação. Agnieszka bateu pesado em Donald Trump e seus seguidores em todo o mundo. Declarou-se decepcionada. O mundo, tal como está hoje, não foi aquele pelo qual lutou, enfrentando a censura e a linha dura do comunismo em seu país de origem.

O curioso é que houve outro Mr. Jones, um filme de Mike Figgis, de 1993, sobre o colonialismo inglês na África. O ‘mister’ de Agnieszka é o jornalista galês Gareth Jones, que denunciou as implicações políticas da grande fome provocada por Josef Stalin na União Soviética, no começo dos anos 1930. Ao mesmo tempo em que cortava suprimentos e dizimava inimigos, o stalinismo exercia rigoroso controle da imprensa e do cinema como meios de difusão. O escritor George Orwell admitiu que se inspirou na figura e nas denúncias de Jones para escrever sua obra seminal, A Revolução dos Bichos.

Agnieszka Holland foi assistente de Andrzej Wajda, mestre polonês reconhecido pela estética fortemente política que está na base do seu cinema – recompensado por um Oscar especial entregue por Jane Fonda, rememorando seus tempos de militância, como ‘Hanói Jane’. Agnieszka destacou-se com filmes comprometidos com a realidade polonesa de Lech Walesa e seu sindicato Solidariedade. Colocou o dedo na ferida do antissemitismo no país católico. Europa, Europa/Filhos da Guerra fez sensação em 1990, com sua história de judeu que tenta esconder sua condição judaica e o fato de ser circuncidado – ao virar paradigma do super-homem nazista. Em Hollywood, fez O Jardim Secreto.

Essa mistura de realidade extrema e um toque de fantasia está presente na estrutura de Mr. Jones. O filme, ao mesmo tempo que segue a história de resistência do jornalista, interpretado por James Norton, agrega imagens de George Orwell em seu processo criativo – e até dos animais que ele imagina em sua fazenda. Mais até do que sobre Gareth Davis, vira um filme sobre um escritor – George Orwell – que encontra um jornalista, que lhe faz uma denúncia, que inspira um livro. Tudo isso parece intrigante e permite uma mistura até mesmo desconcertante de formas narrativas. No final da sessão oficial, na Berlinale, o público, perplexo, demorou um pouco para reagir. Agnieszka, que nunca foi muito sutil, disse que contava com isso. O importante é provocar reação no público, sacudi-lo de seu torpor e levá-lo a pensar um pouco no estado (crítico) do mundo.

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