"Moulin Rouge" chega às locadoras este mês

Quais foram os grandes filmes de 2001? Você pode começar pelos orientais ("Amor à Flor da Pele" de Wong Kar-wai, "As Coisas Simples da Vida", de Edward Yang, e "Eureca", de Shinji Aoyama), acrescentar os iranianos ("O Círculo", de Jafar Panahi), os mexicanos ("Amores Brutos", de Alejandro Gonzáles IÏarritu, e "E Sua Mãe Também", de Alfonso Cuarón), os suecos ("Bem-vindos", de Lukas Moodyson) e o brasileiro ("Bicho de Sete Cabeças", de Laís Bodanzky, claro). Mas nenhuma lista de melhores estará completa sem "Moulin Rouge - Amor em Vermelho", o musical de Baz Luhrmann iluminado pela beleza de Nicole Kidman em seu maior papel no cinema. O filme chega às locadoras este mês, num lançamento simultâneo de DVD e vídeo da Fox Home Entertainment. O vídeo traz um extra: o clipe da música "Lady Marmelade". O DVD traz making of, entrevista com o diretor e a atriz e o clipe. As duas horas de "Moulin Rouge" são deslumbrantes, se você entrar no espírito da coisa. Alguns já as consideraram insuportáveis, mas, francamente, não são opiniões dignas de respeito. Insuportável não é um critério de avaliação estética. E, depois, se alguém espera algo suportável, é porque está inscrito no gosto médio e não suporta a contracorrente dessa tendência que exalta a mediocrização. Desde "Vem Dançar Comigo" e, depois, através de "Romeu + Julieta", chegando agora ao manifesto de "Moulin Rouge", o australiano Luhrmann vem fazendo a defesa de um cinema impuro. Se você é cinéfilo, conhece as teorias dos franceses. O grande André Bazin, para muitos o maior crítico, defendia o que chamava de integridade do western. O gênero tinha leis que deviam ser rigorosamente obedecidas. E, por causa disso, Bazin colocava na coroa da Lua os bangue-bangues de Budd Boetticher, que lá mereciam estar, realmente, mas o fazia em detrimento dos westerns psicanalíticos, portanto contaminados, de Anthony Mann, do psicológico "Os Brutos também Amam" ("Shane"), de George Stevens, e do barroco (e feminista) "Johnny Guitar", de Nicolas Ray. Em defesa da pureza do cinemaHá uma teoria que defende a pureza do cinema. Ela tem respaldo nos filmes do gênio francês Robert Bresson, que dizia que o cinema, para ser verdadeiro, tem de usar imagens e sons ?puros? - como ele fez nas obras-primas "Um Condenado à Morte Escapou" e "Mouchette, a Virgem Proibida". Luhrmann, que criou fama como diretor de óperas e musicais na Austrália, não tem medo de propor um cinema impuro, contaminado pelo artifício cênico. Não está sozinho. De Georges Mélis, que fez o cinema sonhar, tirando-o da porta da fábrica dos irmãos Lumire para lançá-lo ao espaço, até Max Ophuls, com sua sublime Lola Monts, houve sempre essa outra corrente para lembrar que o cinema pode ser puro ou impuro, que os caminhos do cinema são vários e que se pode amar o rigor de Bresson e o gosto do laquê e da purpurina de Luhrmann. É uma questão de adequação do tratamento ao tema, da forma ao fundo. Nesse sentido, "Moulin Rouge" tem menos efeitos do que "Lavoura Arcaica", que Luiz Fernando Carvalho adaptou do romance de Raduan Nassar. Mas, claro, os ?puristas? preferirão cortar os pulsos antes de admiti-lo. Luhrmann é cria de Mélis, de "Ophuls", mas também de Luchino Visconti, que teve, de "Ossessione" a "Rocco e Seus Irmãos", passando por "La Terra Trema", um passado (neo)realista que foi sendo cada vez mais contaminado pelo seu gosto do melodrama e da ópera. Visconti está todo em "Moulin Rouge", da primeira à última cena. Basta prestar atenção na abertura. Depois que a cortina se abre e Luhrmann faz sua brincadeira com a marca da Fox, entra o narrador que canta: "There was a boy..." Havia um rapaz e esse garoto aparece à direita da telas. É Christian, interpretado por Ewan McGregor, que vai tentar a sorte em Paris - como a família Parondi, de "Rocco", que persegue um sonho em Milão. Luhrmann usa o rosto iluminado de McGregor do mesmo jeito que Visconti usava o de Alain Delon, para expressar um ideal de bondade e pureza. No fim, quando Satine morre - e não tira a graça do filme dizê-lo, porque o próprio Christian o afirma na sua primeira frase -, seu diálogo reproduz a fala de Nádia, apunhalada por Simone: "Tenho frio." Você pode achar que esse ?viscontismo? de Luhrmann é superficial. Não é. Embutido na história de Christian e Satine está o mais viscontiano dos temas: o destino trágico de sonhadores cujos sonhos são destroçados pela realidade. Diamantes são os melhores amigos das mulheresA própria estrutura melodramática encoberta por toneladas de paetês não desagradaria ao grande Luchino. É uma exaltação do amor, que François Truffaut considerava o maior de todos os temas. O que Christian aprende com sua história é que o essencial da vida é dar e receber amor. A frase, em si, encerra uma verdade intensa, mas tratada como banalidade, como as frases feitas de certos magos. Encerra uma ironia com a famosa "Amar é não ter de pedir perdão" (de "Love Story"). Luhrmann já havia feito isso em "Vem Dançar Comigo": o importante é viver sem medo. Esse tema está de novo proposto em "Moulin Rouge", na revolução pregada por Toulouse Lautrec e seus amigos, que formam o grupo no qual se integra Christian. A revolução do sexo, da liberdade, do amor - que o repressivo pai de Christian desdenha, gritando bem alto que não agüenta mais "a ridícula obsessão (do filho) pelo amor". Christian busca o amor em Paris. Encontra, no Moulin Rouge, Satine. Ela é uma prostituta que acha que os diamantes são os melhores amigos das garotas (como na música que Marilyn Monroe imortalizou em "Os Homens Preferem as Loiras", de Howard Hawks). Mas Satine quer ser uma atriz, uma verdadeira atriz. Envolve-se com um aristocrata que lhe promete o estrelato e, em troca, exige exclusividade. Ela ama Christian. Quando o outro ameaça matar seu amante, Satine tem, enfim, a chance de mostrar, na vida, que é uma grande atriz, mentindo para salvar o rapaz. Luhrmann usa canções famosas para compor o diálogo de "Moulin Rouge". E não tem preconceito. Clássicos do rock dão às mãos a melosas canções de Whitney Houston. O pop invade (e subverte) a história e a tragédia e isso é pós-moderno. O diretor adora o kitsch, mas em "Vem Dançar Comigo" a vulgaridade e o mau gosto eram só divertidos, em "Romeu + Julieta" eram menos (engraçados), não só porque o filme transpõe para a atualidade a tragédia lírica de Shakespeare mas porque, no fundo, aquele é o menos bom (para não dizer pior) dos filmes de Luhrmann. Filme encerra trilogiaCom "Moulin Rouge", graças a um elaborado trabalho de reflexão, o kitsch vira metáfora da realidade. E com o último o autor encerra um ciclo, já que o próprio Luhrmann considera que os três filmes formam uma trilogia - da red courtain, a cortina vermelha - para discutir o próprio conceito do espetáculo (no cinema e na vida). Eleito pela Associação de Críticos dos EUA como o melhor filme de 2001, a expectativa é saber se "Moulin Rouge" estará na corrida do Oscar e em quais categorias. O anúncio será feito no mês que vem. A grande, a maior injustiça, será se John Leguizamo não for indicado para o Oscar de coadjuvante. Não há nada mais lindo - nem tocante nem profundo - do que a cena em que Toulouse-Lautrec (Leguizamo), querendo resgatar Christian do desespero em que o lançou a afirmação de Satine (de que não o ama), diz a frase que arrasa com o coração dos românticos. "Eu posso ser um anão, deformado e ridículo, cercado de cafetões e prostitutas, mas de uma coisa eu entendo: de amor - e sei que ela te ama." Às vezes, a grande arte mostra, nada quer dizer tudo e o artifício é o atalho mais curto para a verdade.

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