Mostra revê o homossexualismo no cinema brasileiro

A mostra Devassos no Paraíso, que começa hoje no MIS, promete reunir os filmes brasileiros que melhor abordam o tema do homossexualismo. Profissão Travesti, de Olívio Tavares de Araújo, abre o evento, que só termina no domingo, com a 4 ª Parada do Orgulho Gay, na Avenida Paulista. A seleção das produções foi feita a partir do livro Devassos no Paraíso, de João Silvério Trevisan. Sábado, o escritor lança a terceira edição de sua obra, com os dados sobre a história da homossexualidade brasileira.Lançado em 1986, as duas primeiras edições de Devassos no Paraíso esgotaram-se logo. A obra ficou fora do mercado por mais de dez anos. João Silvério Trevisan afirma que a nova versão a ser lançada nessa semana não é um livro novo, mas traz novidades em relação ao primeiro. "Inclui novas informações sobre o movimento gay", diz.Além do lançamento do livro, o destaque da mostra fica para a exibição do filme Orgia ou o Homem que Deu Cria, de 1970, do próprio João Silvério Trevisan. A Censura Federal proibiu a exibição do filme por mais de dez anos por considerá-lo pornográfico. Como nunca foi lançado comercialmente, o grande público terá agora a oportunidade de assistir à polêmica obra pela primeira vez. Na sexta-feira, haverá um debate sobre o tema "Homossexualismo no Cinema Brasileiro". Participam da mesa André Fischer, criador do Mix Brasil, Jairo Bouer, o cineasta Djalma Limonghi Batista e João Silvério Trevisan. Adiantando a sua opinião, Fischer avalia que o cinema brasileiro ainda é falho em relação à temática. "A produção está concentrada nos curtas", diz. "Da nova safra brasileira, Cronicamente Inviável, de Sérgio Bianchi é o único destaque."Dos filmes que participam da mostra, o mais recente é o curta Batiman e Robin, de 1992. A direção é de Ivo Branco. João Silvério Trevisan também concorda que o cinema brasileiro ainda não se preocupa em retratar o homossexual. Ele acredita que pouco mudou no cenário cinematográfico desde o estudo que fez para o lançamento da primeira edição de seu livro. "O cinema brasileiro é muito preconceituoso. A sexualidade é sempre estereotipada."André Fischer também defende a idéia que o grande problema das produções brasileiras é o tom caricatural dado aos personagens homossexuais. "Poucos têm a coragem de arriscar e dar uma abordagem mais ousada e real." O problema não estaria na aceitação do público mas no medo dos produtores em tocar no tema. "O cinema internacional é bem mais aberto em relação a esse assunto". Dos filmes que participam da mostra Devassos no Paraíso, André Fischer diz que merece destaque Vera, de Sérgio Toledo. O filme foi um dos primeiros a abordar o tema do transsexualismo e recebeu o Urso de Prata no Festival de Berlim.João Silvério Trevisan acredita que a televisão brasileira, assim como o cinema, também não está preparada para abordar o homossexualismo. Os personagens televisivos sofrem do mesmo tom caricatural. Dos filmes da mostra, Trevisan acredita que Toda Nudez Será Castigada, de Arnaldo Jabor é o que melhor apresenta o tema. "Adoro o moralismo de Nélson Rodrigues", conclui.

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