Mostra reúne três gerações do cinema negro brasileiro

O cinema black brasileiro será mostrado e debatido na USP, de hoje até o dia 1.º. O Programa de Pesquisa, Ensino e Extensão em Relações Étnicas e Raciais, do Departamento de Sociologia, em parceria com a Faculdade de Filosofia e o Cinusp, selecionou filmes de três gerações de realizadores negros e convocou os cineastas-atores Antônio Pitanga e Zózimo Bulbul para debatê-los com o público.Além de Pitanga e Bulbul, que comparecem com os longas Na Boca da Noite e Abolição, foram reunidos filmes de veteranos como Waldir Onofre (Aventuras Amorosas de um Padeiro), Ari Cândido (Martinho da Vila, Paris 77) e Joaquim Teodoro (Um Crioulo Brasileiro). A esse quinteto se somam realizadores novos como Joel Zito Araújo (A Negação do Brasil) e novíssimos como Jefferson De (Distraída para a Morte) e Noel Carvalho (O Catedrático do Samba).Um convidado especial, o cineasta Nelson Pereira dos Santos, marcará presença com a exibição de Tenda dos Milagres. Mesmo não sendo um realizador black, Nelson tem significativa folha de serviços prestados à busca de visibilidade para temáticas e atores negros no cinema brasileiro. Os curadores escolheram Tenda dos Milagres por tratar-se de filme que reflete sobre a miscigenação e tem como protagonista o mulato Pedro Archanjo (interpretado por Jards Macalé, na juventude, e Juarez Paraíso, na maturidade).Nelson produziu o longa de estréia do ator Waldir Onofre (Aventuras Amorosas de um Padeiro, 1975) e nunca escondeu seu interesse pelos problemas sociais brasileiros, com ênfase na questão étnica. Afro-brasileiros como Grande Otelo e Zé Kéti são presenças significativas nos créditos de Rio 40 Graus e Rio Zona Norte. Os cultos afro-brasileiros estão na base de O Amuleto de Ogum. Atores negros foram protagonistas absolutos de pelo menos três filmes do diretor: Grande Otelo, como Espírito Santo da Luz (em Rio Zona Norte), Macalé & Paraíso (Tenda) e Charles Baiano (Jubiabá). Antônio Pitanga, ator de Glauber Rocha em Barravento, Câncer, Di Cavalcanti e A Idade da Terra, estará em São Paulo na quinta-feira para acompanhar a exibição de Na Boca do Mundo e debater, com Paulo Menezes e Celso Prudente, o tema O Negro como Produtor de Audiovisual. Para ele, "essa mostra se reveste de grande importância, na medida em que chama atenção para as dificuldades enfrentadas por realizadores negros. Eu mesmo, só dirigi um longa. Estou, agora, preparando A Revolta dos Malês, mas não tem sido fácil levantar recursos." O curta-metragista Noel Carvalho destaca a originalidade da mostra Diretores Negros Brasileiros: "Pela primeira vez, estamos reunindo filmes de longa, média e curta duração, documentais e ficcionais, realizados por três gerações de diretores." E acrescenta: "Essa mostra vem somar-se a uma série de acontecimentos que, dentro e fora da universidade brasileira, tem lançado novas perspectivas para as questões que dizem respeito ao negro. Movimentos culturais como o hip hop, grupos de consciência negra, cursos pré-vestibulares, movimentos voltados especificamente para a defesa da mulher negra são apenas algumas das muitas lutas dos negros brasileiros contra todas as formas de racismo e discriminação e suas terríveis conseqüências." Representante da novíssima geração de realizadores negros, Jefferson De marca presença na mostra e nos debates com seu filme Distraída para a Morte (que participou do Festival de Gramado) e com as ousadas idéias de seu manifesto de nome antropofágico (Dogma Feijoada). Outro texto - o Manifesto do Recife - tem entre seus signatários o pesquisador e cineasta Joel Zito Araújo, autor do imprescindível A Negação do Brasil, documentário que garimpa, na memória da TV brasileira, histórias de ocultamento e discriminação de atores negros.A precariedade da memória brasileira (que o projeto Censo Cinematográfico Brasileiro, bancado pela BR Distribuidora, promete atenuar) limitou o tamanho do evento. Foi impossível conseguir cópias de filmes de Celso Prudente, Cajado Filho, Agenor Alves, Haroldo Costa, Afrânio Vital, Rogério Moura e Odilon Lopes. Os organizadores da mostra das três gerações black prometem retrospectiva completa em futuro que desejam "o mais breve possível".Mostra Diretores Negros - No Cinusp, Rua do Anfiteatro, 181, Universidade de São Paulo. De Hoje a 1º/11. Tel.: 3818-3540.

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