Mostra reúne pérolas do cinema mundial

Uma das mais belas atrações da mostra é Pai e Filho, de Alexandr Sokúrov, que concorreu em Cannes. No meio da balbúrdia de um grande festival, este filme intimista, discreto e pungente pouco foi notado, o que é pena. Trata-se de um exercício rigoroso sobre a complexa relação entre gerações, trabalhada à maneira de Sokúrov - lenta, planos longos, refletindo na imagem a complexidade do tema. Na história, ou melhor, no fiapo de trama, pai e filho vivem numa casa isolada. Habitam um mundo à parte, no qual recordam a mãe que já morreu, e talvez uma época idílica que já se foi. O todo é impregnado pelo tom nostálgico sempre presente nos filmes do diretor russo.Do Festival de Cannes virá o vencedor, Elefante, inquietante reconstrução ficcional dos episódios de Columbine, quando dois adolescentes armados invadem a escola onde estudam e matam e ferem diversos colegas. Gus Van Sant constrói esse anti-documentário em sucessivos planos-seqüência, que acompanham os protagonistas em sua vida escolar cotidiana, até que resolvem cometer os crimes e passam à ação. De certa forma, é um complemento ao documentário Tiros em Columbine, de Michael Moore. Este é mais incisivo; Van Sant procura mostrar que as coisas são mais complexas e que a simples obsessão dos americanos por armas não explica, de forma completa, a violência latente que existe no país.Com esse trabalho, Gus Van Sant derrotou o favorito de Cannes, Dogville, do dinamarquês Lars Von Trier. Esse você não pode perder. Se não for por outro motivo, pela ousada encenação anti-naturalista do diretor. Tudo se passa num galpão, que reconstitui uma cidade americana, próxima das Montanhas Rochosas. As ruas são delimitadas a tinta, as casas não têm paredes e mesmo a casinha do cachorro - e o próprio - são pintados. Artifício puro, para contar uma história de intolerância, que, esta sim, nada tem de artificiosa, e remete diretamente ao mundo real.A situação mundial também é tema de outro concorrente de Veneza, Um Filme Falado, de Manoel de Oliveira. O filme faz jus ao título. Fala-se muito - e bem - nessa história de uma professora (Leonor Silveira) que, em companhia da filha pequena, viaja para encontrar o marido em Bombaim. No caminho, aproveita para se deter em lugares que nunca havia visto, Ceuta, Marselha, Pompéia, Atenas, Istambul. Dá aulas de civilização à filha. Depois, embarca num navio e conversa - também de maneira civilizada - com outras passageiras, Catherine Deneuve, Stefania Sandrelli, Irene Papas. Cada uma fala em sua língua e todas se entendem. Essa utopia da União Européia encontrará seus limites na barbárie, como o espectador verá no desfecho desse filme belo, culto e, no fundo, desalentado.Uma última dica: se você gostou de Kedma, o belo filme de Amos Gitai ainda em cartaz na cidade, não deixe de ver Alila, trabalho mais recente do diretor israelense, apresentado em Veneza. Nele, Gitai mostra Tel-Aviv de maneira inusitada, um ecumênico caos urbano em que moradores de várias etnias e interesses conflitantes são obrigados a conviver num edifício popular. Há um sentido humanista na maneira como a história é contada, sem adoçar ou driblar antagonismos. Mas, acima de tudo, Alila é um excepcional exercício de direção cinematográfica. Gitai está filmando como craque.

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