Mostra reúne 33 filmes de Fassbinder

Ele acreditava que o amor era mais frio do que a morte e assim chamou um de seus filmes. Amanhã comemoram-se os 55 anos de nascimento de Rainer Werner Fassbinder, que morreu em 10 de junho de 1982, há quase 19 anos. De amanhã até o dia 18, a Associação Cultural Babushka, a Cinemateca Brasileira/Ministério da Cultura e o Instituto Goethe de São Paulo promovem a mostra Fassbinder 55 Anos, formada por 33 títulos.Dois deles são inéditos, o que contribui para tornar o evento mais atraente, ainda. Nora Helmer, de 1973, é a versão de Fassbinder da peça clássica de Henryk Ibsen, Casa de Bonecas. E Rainer Werner Fassbinder é um curta documentário de Florian Hopf e Maximiliane Mainka.O amor é mais frio que a morte. Um título revelador. Por mais diferente que fosse de Joseph Losey, diretor americano que se exilou na Europa, mais exatamente na Inglaterra, para fugir da lista negra do macarthismo, Fassinder compartilhava com ele a crença de que não existem relações amorosas decentes nas sociedades capitalistas. A globalização, como conceito, substituiu o capitalismo, mas a idéia de base é a mesma. Capital dinheiro, bens de consumo são mais importantes que pessoas. E o amor continua sendo mais frio que a morte.Nos quase 20 anos decorridos desde sua morte, vítima de overdose, Fassbinder nunca saiu de cena. Houve muitos ciclos e retrospectivas para lembrá-lo. Só depois de sua morte foi exibido, na íntegra, em São Paulo, o monumental Berlin Alexanderplatz, de mais de dez horas, que ele fez para televisão. O filme, em capítulos, está de volta na programação que começa amanhã. Às 18 horas, passa outro filme de título emblemático - Eu Não Quero apenas Que Vocês me Amem, de Hans Günther Pflaum. Na seqüência, às 20 horas, passa o curta (30 minutos) de Hopf e Mainka. São dois documentários que tentam elucidar o mistério Fassbinder.Tentam, em termos. O maior mérito do trabalho de Pflaum é justamente não propor interpretações reducionistas sobre Fassbinder. Ele foi uma força da natureza, um dos mais prolíficos autores do cinema. Viveu apenas 36 anos, mas teve tempo de fazer 43 filmes, escrever peças de teatro, roteiros para televisão e programas radiofônicos. Sempre teve, para si mesmo, projetos tão grandiosos que chegam a ser monstruosos. Queria ser, para o cinema, o que Darwin foi para a biologia e Freud para a psiquiatria. E tinha, como sonho mais secreto, nunca concretizado, a tríplice vitória - nos festivais de Cannes, Berlim e Veneza. Fassbinder queria a Palma de Ouro, o Urso de Ouro e o Leão de Ouro.Era desconcertante, mais que contraditório. Fez O Casamento de Maria Braun para discutir a realidade alemã do pós-guerra, iniciando com esse filme - seu maior sucesso de público - uma trilogia sobre a corrupção na Alemanha que prosseguiu com Lola e O Desespero de Veronika Voss. O nazismo invade as imagens de Maria Braun, mas o filme que Fassbinder dedica à gênese do nacional-socialismo é Berlin Alexanderplatz. Antinazista, sim, mas anti-semita? Fassbinder foi acusado disto quando escreveu a peça O Lixo, a Cidade e a Morte, sobre um judeu do ramo imobiliário que explora miseráveis e prostitutas. Ele aceitava de bom grado o rótulo de antinazista, mas não o de anti-semita. Dizia, para defender-se, que tudo fede, está tudo errado.É a idéia que percorre a criação artística de Fassbinder fosse para cinema, teatro, TV ou rádio. Michael Balhaus, seu diretor de fotografia preferido - que foi depois para os EUA e virou o preferido de Martin Scorsese -, conta que Fassbinder o exortava a fazer do mundo um lugar escuro, sem redenção possível querendo deixar no espectador uma opressiva sensação de preto-e-branco, mesmo quando filmava em cores. Pela sua urgência em filmar muito, como se pressentisse que sua vida seria curta, Fassbinder, se ainda estivesse vivo, talvez tivesse embarcado na aventura do cinema digital. Mas ele era, na verdade, avesso a qualquer tecnologia. Detestava as inovações técnicas de Hollywood. Achava que elas estavam "matando a dramaturgia".Era o que lhe importava, acima de tudo - a cinedramaturgia. O artista que considerava o amor mais frio que a morte era o primeiro a admitir que dificultava, ao extremo, os esforços das pessoas que queriam amá-lo. Sempre tentou metaforizar, na crise da sociedade alemã de seu tempo, a própria crise pessoal. No documentário de Pflaum, Ingrid Caven, que foi sua mulher, diz que ele tinha o olhar descrente e perdido de sua geração. Para onde olhava, só via ruínas.Homossexual assumido, nunca romantizou a própria opção. A tirania amorosa, a impossibilidade de relações decentes o obcecavam. Racismo em O Medo Corrói a Alma, exploração de homossexuais por outros homossexuais em Um Ano com 13 Luas, da empregada pela patroa em As Lágrimas Amargas de Petra Von Kant. Fassbinder não acreditava na liberdade, via no mundo somente relações de poder. Pertenceu a uma grande linhagem de autores críticos. Por isso mesmo, é oportuno e até necessário rever seus filmes. Mesmo quando são imperfeitos, eles confrontam o espectador com os próprios medos e o levam a refletir sobre o amor como instrumento de repressão social. Até pelo anti-romantismo, pela antiidealização do que quer que seja, a obra de Fassbinder, no 19.º ano de sua morte, segue contestando o mundo burguês.Mostra Fassbinder 55 Anos. Quinta, às 18 horas, ´Eu não Quero apenas Que Vocês me Amem´/92, de Hans Günther. Pflaum; às 20 horas, ´Rainer Werner Fassbinder´/77-95, de Florian Hopf e Maximiliane Mainka; e ´Nora Helmer´/73, de Fassbinder. De segunda a sábado. R$ 8,00. Sala Cinemateca. Largo Senador Raul Cardoso, 207, tel. 5084-2177. Até 18/6.

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