Mostra resgata o cinema da Boca do Lixo

Glauber Rocha um dia gritou-lhe de longe - "Vamos fazer um filme juntos." Mas Antonio Galante nunca atendeu o pedido de Glauber. Ao longo de sua carreira, ele produziu 64 filmes - a metade em parceria com Alfredo Palácios. De sua lavra saíram clássicos como O Bandido da Luz Vermelha, de Rogério Sganzerla, e As Deusas e o Prisioneiro do Sexo, de Walter Hugo Khouri. Eles fazem parte da história do cinema brasileiro, mas o filme do coração de Galante é Anjos do Arrabalde, de Carlos Reichenbach. "Choro quando vejo", ele diz. Esse Galante é uma manteiga derretida. Chorou quando o documentário que dois jovens lhe dedicaram passou no Festival Internacional É Tudo Verdade e ele foi aplaudido de pé. Talvez chore de novo nesta semana que lhe reserva emoções especiais. Galante é a alma do ciclo que o Centro Cultural Banco do Brasil dedica ao cinema da Boca do Lixo, com curadoria de Eugênio Puppo. "O Galante é uma figura decisiva daquele momento/movimento, é uma lição de criatividade e de proposta de produção e distribuição", avalia Puppo. Galante, que mora em Santa Catarina, veio a São Paulo para a abertura do evento. Há algo de simbólico nesta volta - o produtor foi ao fundo do poço com o fracasso de Cinderela Baiana, com Carla Perez. Amargou problemas de saúde, ficou pobre, fugiu de São Paulo. A paixão pelo cinema falou mais alto e ele anuncia que está voltando com dois novos filmes - um deles, Casa de Meninas, terá direção do crítico Inácio Araújo. Explica que Glauber queria filmar com ele porque era sinônimo de pé-quente. Galante e Palácios e, depois, Galante sozinho, na empresa A.P. Galante, possuíam o toque de Midas. Pegavam uns filmes pelos quais ninguém daria dois vinténs e eles estouravam na bilheteria. Por outro lado, Galante meteu-se em projetos mais sérios que podem ter agradado à crítica, mas certamente não agradaram ao público. Foram altos e baixos. "Houve tempos em que vivi como um rei", ele lembra. Nada mau para quem começou a vida lavando banheiros na empresa Maristela, nos anos 50. Lá virou eletricista e passou a produtor. Um dia foi ao cinema e viu o western americano Galante e Sanguinário, de Delmer Daves. No dia seguinte, estava produzindo O Cangaceiro Sanguinário. E não tinha dinheiro - fez muitos filmes com latas velhas de negativos vencidos. Seu território era a Boca, o enclave nas Ruas Aurora, Vitória e do Triunfo, no qual surgiu, nos anos 1960 e 70, um cinema pobre de recursos, mas rico de idéias. É divertido ver Galante falar dos clássicos: "Não tinha pé nem cabeça, mas era interessante. Por isso, terminei O Bandido da Luz Vermelha." Apoiou o projeto seguinte de Sganzerla, A Mulher de Todos. Fotografou Helena Inês com o zíper da calça aberto e colocou no cartaz. A fita estourou. Enfrentou tudo e venceu até a censura, mas quando tentou produzir o filme de Inácio Araújo, há alguns anos, foi vencido pelas diretorias de Marketing, que não queriam ligar as empresas a um produtor com o pé na Boca do Lixo. Os dois pés. Galante é lúcido. "Meu cinema não vai para o Oscar, mas aí eles escolhem os filmes bonitinhos e o que ocorre? Não ganham. Sabe por quê? Porque todo o cinema brasileiro é marginal para Hollywood." Galante é um homem que sabe das coisas. Cinema da Boca do Lixo. Hoje, com, entre outros, Uma Rua Chamada Triunpho e O Galante Rei da Boca. Às 20h30, debate com Antonio Galante e outros. CCBB (R. Álvares Penteado, 112. Tel.: 3113-3651). De ter. a dom., às 14h30. R$ 4. Até 20/6

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