Vantoen Pereira Jr./Divulgação
Vantoen Pereira Jr./Divulgação

Mostra reflete a diversidade das caras do Brasil

Da felicidade buscada por Arnaldo Jabor à periferia revista por Jeferson De, o País se reflete nos filmes

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

25 de outubro de 2010 | 07h00

Arnaldo Jabor traz nesta terça, 26, parte do seu elenco para exibir A Suprema Felicidade na Mostra. O longa que inaugurou o Festival do Rio estreia sexta nas salas e a apresentação desta noite tem gostinho de pré-estreia. Jayme Matarazzo faz o garoto em que se projeta o diretor, que se inspira em personagens e eventos de sua família sem ser necessariamente autobiográfico. O filme é ‘pessoal’, como diz o próprio Jabor, que regressa ao cinema após um hiato de quase 20 anos. Marco Nanini, que faz o avô, tem uma participação inesquecível, mas está preso no Rio, gravando na Globo.

 

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Há, nesta terça-feira, um interessante leque de opções do cinema brasileiro na Mostra. São filmes de várias tendências, que espelham a diversidade da produção nacional. O melhor deles é O Senhor do Labirinto, criminosamente ignorado pelo júri oficial, no Festival do Rio, mas que recebeu o prêmio do público na Première Brasil. O filme investiga arte e loucura por meio da figura emblemática de Artur Bispo do Rosário. Flávio Bauraqui é quem interpreta o papel e o filme centra-se no período em que o Bispo esteve internado na colônia Juliano Moreira, produzindo a arte que lhe valeu reconhecimento internacional, mesmo que ainda existam críticos dispostos a se interrogar sobre se o que ele fazia era mesmo ‘arte’.

 

No catálogo da Mostra, O Senhor do Labirinto é creditado a Geraldo Motta, mas há uma disputa na Justiça - o processo corre no Rio - pela qual Gisella de Mello reivindica a coautoria do filme. Ela se queixa de que, mais uma vez, está sendo humilhada ao não ser convidada para a sessão do filme que também dirigiu. Embora tenha problemas - a maquiagem nas cenas de envelhecimento do Bispo não convence -, O Senhor do Labirinto é tão bom que será uma pena, se a disputa entre Motta e Gisella prejudicar a carreira do filme. O roteiro cria um personagem - o enfermeiro/carcereiro interpretado por Irandhir Santos; a colônia Juliano Moreira era penal - que é o primeiro a perceber a genialidade do que faz o artista. Esse reconhecimento do sublime leva a uma das mais belas cenas do filme - a Pietà, quando Irandhir acolhe nos braços o corpo do Bispo (Bauraqui).

 

Os outros nacionais de hoje são Boca do Lixo, de Flávio Frederico, que reconstitui a trajetória violenta de Hiroito de Moraes Joanides na São Paulo dos anos 1950 e 60, quando ele iniciou sua carreira criminosa acusado do assassinato do próprio pai. O filme baseia-se no livro que o próprio Joanides escreveu para se justificar, quando estava na cadeia. Ele foi o explosivo resultado de um coquetel de influências. Tinha o nome do imperador do Japão, seu pai, de ascendência grega, era um ortodoxo que nunca tolerou a libertinagem do filho e o desejo movia o jovem Hiroito, que se envolveu com muitas mulheres (e se tornou um dos reis da prostituição na Boca). O resultado é mais interessante pela interpretação de Daniel de Oliveira do que pela Boca revista pelo diretor, mas teve seus defensores no Festival do Rio. Dois filmes com o pé na literatura chegam à Mostra depois de passar em Gramado. Ex Isto, de Cao Guimarães, livremente inspirado no Catatau, de Paulo Leminski, e O Último Romance de Balzac, de Gerardo Sarno.

 

Teses. Ambos partem de suposições - e se René Descartes tivesse vindo para o Brasil com Maurício de Nassau (Ex Isto)? Sob o efeito de drogas, o filósofo ("Penso, logo existo") confronta suas dúvidas nos trópicos. A cena de João Miguel, ilhado pela água, na árvore, é uma das mais belas do cinema brasileiro recente. O Último Romance faz outro tipo de investigação. Em 1965, o médium espírita Waldo Vieira psicografou o que seria o último romance do escritor francês Honoré de Balzac, Cristo Espera por Ti. Algum tempo depois, o psicólogo Osmar Ramos Filho dedica anos de estudo a dissecar o livro e levanta uma interpretação original de outro romance de Balzac, A Pele de Onagro. Nos limites da ficção e do documentário, Sarno discute o caso e encena A Pele como filme mudo. E há ainda Bróder - a periferia vista por quem veio dela (Jeferson De). O Brasil brilha na Mostra.

 

A Suprema Felicidade - Cine Livraria Cultura 1 - Terça, 26, 21h

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