Mostra põe à prova glamour de Marlene Dietrich

A última diva do cinema, a vamp definitiva. Ninguém merece mais tais rótulos que Marlene Dietrich. O fotógrafo Cecil Beaton não concordava. Para ele, a figura de Marlene era pesada demais e seu olhar como o prelúdio de um espirro. Mas Beaton era suspeito, o amiguinho querido de Greta Garbo, a rival de sempre de Dietrich. Ernest Hemingway era a favor. Dizia o escritor: "Ela pode derreter um homem com um simples levantar de sobrancelhas e destruir uma rival com o olhar." Bem, ele era suspeito também porque era apaixonado por ela. Essa controvérsia pode ser resolvida, em parte, pelas 38 imagens de Marlene Dietrich, que estarão na exposição organizada pelo Goethe-Institut de Munique, em conjunto com o Museu de Cinema/Marlene Dietrich Collection Berlin. Essas fotos e mais dois filmes (O Anjo Azul e o documentário Marlene) homenageiam os cem anos do mito do cinema, que apagaria suas velinhas centenárias no dia 27 de dezembro. Tudo pode ser visto de hoje até dia 13 no Instituto Goethe de São Paulo.Muito apropriadamente chamada Marie Magdalene, a futura Marlene Dietrich nasceu em Berlim. Morreu dia 6 de maio de 1992, de uma prosaica pneumonia num flat em Paris. Ali morava praticamente reclusa, com a empregada espanhola Valentina e da secretária Norma. Não recebia a imprensa, tinha pouquíssimos amigos e escrevia muito. Era visitada pela filha Maria e pelos quatro netos.Como convinha a um símbolo sexual aposentado, quando ficava apertada financeiramente, vendia uma das jóias de um cofre aparentemente inesgotável. Mas não é essa Marlene do crepúsculo melancólico como uma bartender sem clientes que está nas fotos da exposição, que inclui, por exemplo, trabalhos como os do fotógrafo favorito dela, Eugene Robert Richee.Na mostra, há imagens de Marlene criança, da atriz iniciante, gorducha e, vá lá, feia; da época em que o Patinho Feio berlinense virou o cisne Lola-Lola do filme O Anjo Azul, do esplendor em Hollywood, ao lado de alguns dos muitos homens de sua vida, dos tempos em que era uma showoman de sucesso, com as lendárias pernas sempre em destaque.Dizia sobre ela o escritor cubano José Cabrera Infante que "Nunca ninguém tão falso foi mais genuíno". Verdade pura. Um dia, na Berlim que era a metrópole da decadência, nos anos 20, ela cantou para o diretor Max Reinhardt. Não abafou: ganhou apenas um lugar de corista. Mas as pernas já chamaram a atenção do produtor Guido Thiescher. Estreou em Hamburgo, no Natal de 1921. Como nada acontece, ela briga por um lugar ao sol. Tenta o teatro, o show, um dia, o cinema. Casa-se com um jovem cineasta, Rudolf Sieber.O homem certo - Em 1935, surge o homem certo da sua vida, o diretor austríaco Josef von Sternberg, que procurava uma atriz para ser a vamp Lola-Lola que vira a cabeça do professor Unrat, da história de Heinrich Mann, que ficaria famosa com o título de O Anjo Azul. Segundo a lenda, Sternberg viu Marlene num álbum de atrizes do estúdio UFA e teria comentado: "um belo traseiro, mas preciso de um rosto".Porém, na mesma noite, ele viu um show estrelado pela diva. E se fez história. Ela foi a dançarina e cantora do cabaré Anjo Azul por um salário 40 vezes menor que o de Emil Jannings, que fez o professor. Hoje se pergunta: "Emil o quê?"O nazismo faz das suas e o diretor Sternberg vai para os EUA, chama Marlene. Ela vai de mala, cuia, filha e marido, Sieber. Sternberg se dedica à criação do mito. Faz com que a atriz emagreça, passe por tratamento médico para afinar o seu rosto, torna suas sobrancelhas vertiginosas e desenhadas num traço finíssimo - o que foi imitado pelas mulheres de todo o mundo - faz com que invista num estilo masculinizado de roupas, chamado garçonne, que realçava sua feminilidade e contrastava com os modelões pesados das outras deusas do cinema.Mais que um amigo - Sternberg não ficou só nisso. Como Pigmalião, foi conselheiro sentimental, consciência, empresário, agente, advogado. E, sim, as relações entre os dois foram além dos limites profissionais. O marido, Rudolf Sieber, fica doente e vai criar galinhas numa fazendola em San Fernando Valley. Marlene se tornou aquilo que viera fazer em Hollywood, ser a rival da divina Greta Garbo. Sob a direção de Sternberg, fez seis filmes, como Marrocos, ao lado de Gary Cooper, em que ela fez escândalo ao aparecer de fraque e cartola, O Expresso de Shangai, A Vênus Loira, Mulher Satânica.Em 1936, no auge do estrelismo, um fã mais desvairado, Joseph Goebbels, ministro da Propaganda de Hitler, convida-a para voltar à Alemanha, mas ela, antinazista convicta, recusou e continuou em Hollywood. Dá um pulinho em Paris (com 40 malas) e tem um tórrido caso com o astro francês Jean Gabin, que ela definiu como "Duro por fora... suave por dentro. Fácil de se amar".Na Segunda Guerra Mundial, a nova americana (naturalizou-se em 1939) participa do esforço de guerra, canta Lili Marlene, que fez sucesso em ambos os lados em conflito. Ganha medalhas, mas já tem 45 anos e sua carreira entra em colapso. Ela volta ao palco, passeando o mito pelo mundo, sobretudo em Las Vegas. Veio ao Brasil em 1959 e até gravou um disco, Dietrich in Rio. Também foi fazendo um ou outro filme, completando os 55 que rodou. Em 1983, permitiu que Maximilian Schell realizasse o documentário Marlene. Não deixa porém que a filmem, só sua voz rouca aparece. Afinal, ninguém cuidou mais do seu mito que ela mesma. Todo mundo se lembra do Anjo Azul, das pernas, da mulher belíssima de fraque e cartola. E só.Marlene Dietrich - Uma Lenda em Imagens. Instituto Goethe´ (R. Lisboa, 974, tel.: 3088-4288). Segunda a quinta, das 9 às 22h; sexta até 20h30; sábado até 16h30. Até 13/12.

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